quarta-feira, setembro 03, 2014

03.09.2014

Empty boxes
Full of
Lost memories...

segunda-feira, agosto 18, 2014

18.08.2014

I feel in love with life.

quinta-feira, julho 31, 2014

31.07.2014

did he die alone, in the rain?
did he?

he who was orange and warm
a furry sun
coming to wake me up every morning

he who was sweet
young
independent
full of energy
free

he who found peace
a comforting place
to be

he is still on my window
golden as the morning sun
eye kissing me

he is still dreaming on the couch
relaxed,
open,
impossibly stretched
completely safe

he is still around the house
playing with boxes
chasing ginger
climbing things to steal some food
some love

he is still on my window
feeling the soft warmth of the morning sun

our golden lucky jack cat

sábado, julho 26, 2014

26.07.2014

I don't know...

(But maybe I shouldn't have to know right now. Maybe I should just do what I have to do...)

quarta-feira, julho 02, 2014

Reflexões... (gostei, mas sinto que não concordo de todo)

"Sou, por ofício, um romancista. Acredito tratar-se de um ofício inofensivo, ainda que não venha a ser considerado respeitável por alguns. Romancistas colocam palavras vulgares na boca de seus personagens e os descrevem fornicando e fazendo necessidades. Além disso, não é um ofício útil, como o de um carpiteiro ou de um confeiteiro. O romancista faz o tempo passar para você entre uma ação útil e outra; ajuda a preencher os buracos que surgem na árdua trama da existência. É um mero recreador, um tipo de palhaço. Ele faz mímica e gestos grotescos; é patético ou cômico e, às vezes, os dois; ele faz malabarismos com palavras, como se estas fossem bolas coloridas.

O uso que ele faz das palavras não deve ser levado excessivamente a sério. O presidente dos Estados Unidos usa palavras; o médico, o mecânico, o general do exército e o filósofo usam palavras; e essas palavras parecem estar relacionadas ao mundo real, um mundo em que impostos precisam ser arrecadados e depois evitados; carros precisam ser dirigidos, doenças, curadas; grandes pensamentos, pensados; batalhas decisivas, travadas. nenhum criador de enredos ou personagens, por maior que seja, deve ser considerado um pensador sério, nem mesmo Shakespeare. Na realidade, é difícil saber o que o escritor criativo realmente pensa, pois ele se esconde atrás de suas cenas e de seus personagens. E quando os personagens começam a pensar e a expressar seus pensamentos, não se trata, necessariamente, dos pensamentos do escritor. Macbeth pensa uma coisa e Macduff, algo diametralmente oposto; as ponderações do Rei não são as mesmas de Hamlet. Até mesmo o dramaturgo trágico é um palhaço, soprando uma melodia triste em um trombone velho. E então seu ânimo trágico se esgota e ele se torna um bufão, cambaleando por aí e plantando bananeiras. Nada que deva ser levado a sério.

Por vezes, entretanto, um mero recreador como eu pode ser tragado a contragosto para a esfera do pensamento "sério". Ele se vê forçado a dar sua opinião sobre questões profundas. A causa dessa obrigação pode ser um repentino interesse público por um de seus romances - um livro que ele tenha escrito sem considerar profundamente o significado, cujo objetivo era render algum dinheiro para pagar o aluguel, mas que acabou adquirindo uma importância não prevista pelo autor. Ou pode ser um romance em que, graças a uma preocupação ou a um rancor irredutível em relação a algo que acontece no mundo real, o romancista - para seu próprio arrependimento - cria algo menos recreativo do que o normal; algo mais assemelhado a um sermão ou a uma declaração homilética ou didática - e a elaboração de tais coisas não é, na realidade, a função do romancistas."

a.b. laranja mecânica

Reflexões de cadernos de faculdade - 2

"É preciso o grito,
a loucura,
qualquer coisa,
menos este silêncio mortal,
este silêncio de gelo."
                              m.g.

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"Todo homem é culpado pelo que não fez."
                                                         v.

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"O céu é um mar de peixes com asas."

"A felicidade é um rio sem cabimento, numa rua sem marca ou medida..."
                                                          j.f.r.

Vida em linha reta

Todos estão por demais preocupados
    com sua formação
    seu salário
    seu status social

É preciso pensar em alcançar
   o padrão estético
   o padrão de consumo
   o padrão de relacionamento
   o americano padrão

Ser bem sucedido então
   é uma corrida
   pelo primeiro
   o segundo
   o 13º
   bilhão

Não há valor em ser solidário
   preocupar-se com algo que não sua vida
   Mind your own business
   e tudo ficará bem.

Garantido seu patamar,
   sua cobertura,
   seu chalé a beira-mar,
   seu carro importado
   filhos educados,
   mulher siliconada

Pague sua previdência privada
   troque os bem duráveis
   a cada 2 anos (ou seis meses)
   tire férias em locais caros e exóticos
   poste as alegres fotos
   seja feliz nas redes sociais

E aproveite seu sucesso
   em um belo e confortável
   caixão feito a mão
   esculpido em madeira de lei e veludo.

20/05/2009

15/05/2009

Qual meu foco? O que me guia e move?

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20/05/2009

Se não descobrir, sozinha, para onde quero ir, continuarei com esse estranhamento, com essa sensação de estar ficando pra trás. Me inquieto. Me inquieta. Faz-me mal. Mas não consigo, ainda, entender isso direito. Não sou senhora de meu tempo, não consigo fazê-lo render. "Quero" tudo, por não me sentir ligada a nada. Quero ser boa, quero "ir bem" nas coisas, gostaria de ser reconhecida. Por quê? Para quê? Esse esvaziamento de metas, focos, quiçá valores talvez seja o que justamente me impede de fazer algo.

Os olhos pesam, a cabeça aquieta, o pensamento flutua. Estou com sono. Não estou perdida, mas tenho dificuldade em prestar atenção. Ainda não me encontrei. Ainda não estou vívida, vivaz, tenaz. Ainda sinto falta de ideias próprias. Isso me incomoda um pouco. Estou com sono...

Me sinto estranha nessa situação de "não estar 'construindo', consolidando, nada"... O que eu queria? Estou realmente acostumada ao pensamento brotar-me, ao conhecimento cair-me de pára-quedas?

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21/08/2009

Preciso urgentemente pensar no que quero. Mas num querer outro, diferente deste querer arrancar os cabelos e rasgar a carne até fazer parar de pensar os miolos e de doer o peito.

Pensar no que quero a um pouco mais de longo prazo - um mês, uma semana, dois meses, um ano.

Nos níveis que der.
Eu quero não ligar......................................................................

nem me importar que não doa que não passe nenhuma sensação. No máximo, que eu fique feliz pelos OUTROS, os outros, que não são eu.

Que não têm nada a ver comigo.

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Hoje: é interessante olhar pra trás e ver essas coisas. Encontrá-las, na verdade, depois de tanto tempo. Acho que realmente um ciclo se fecha. Não me sinto mais assim. Fico feliz com isso. Mas quis guardar, para lembrar de coisas que me angustiam e para onde não quero voltar...

(mais: eu definitivamente não estava bem nesse período...)

guerras

"... A morte do povo foi como sempre tem sido: como se não morresse ninguém, nada, como se fossem pedras que caem sobre a terra, ou água sobre água."
p.b.

Reflexões de cadernos de faculdade - 1

"Quanto tempo da cabeça das pessoas o medo ocupa?"
                                                                                b.v.

"Nem só de binários viverá o homem."
                                                         j.f.r.

21/08/2009

Compostura

Tenho o interior trêmulo
           das lágrimas que não posso chorar
           agora.

Quisera poder desaguá-las!
       Encolher-me
       Calar-me
       Seguir
                  outros rumos.

segunda-feira, junho 30, 2014

So the light shines...

Imagine a rusty bolt on the garden door, which has been set wrong, or the door has sagged on its hinges since it was put on, and for years that bolt has never been shot efficiently: except by hammering it, or by lifting the door a little, and wriggling it home with effort. Imagine then that the old bolt is unscrewed, rubbed with emery paper, bathed in paraffin, polished with fine sand, generously oiled, and reset by a skilled workman with such nicety that it bolts and unbolts with the pressure of a finger – with the pressure of a feather – almost so that you could blow it open or shut. Can you imagine the feelings of the bolt? They are the feelings of glory which convalescent people have, after a fever. It would look forward to being bolted, yearning for the rapture of its sweet, successful motion.

For happiness is only a by—product of function, as light is a by—product of the electric current running through the wires. If the current cannot run efficiently, the light does not come. That is why nobody finds happiness, who seeks it on its own account. But man must seek to be like the working bolt; like the unimpeded run of electricity; like the convalescent whose eyes, long thwarted in their sockets by headache and fever, so that it was a grievous pain to move them, now flash from side to side with the ease of clean fishes in clear water. The eyes are working, the current is working, the bolt is working. So the light shines. That is happiness: working well.

t.h.w., The book of Merlin


quinta-feira, junho 26, 2014

almost there

Eu tenho tanta alegria adiada, abafada, quem dera gritar - tou me guardando pra quando o carnaval chegar.
c.b.

domingo, junho 22, 2014

life...

I want to paint people with my words...

things that never fail

‘The best thing for being sad,’ replied Merlyn, beginning to puff and blow, ‘is to learn something. That is the only thing that never fails. You may grow old and trembling in your anatomies, you may lie awake at night listening to the disorder of your veins, you may miss your only love, you may see the world about you devastated by evil lunatics, or know your honour trampled in the sewers of baser minds. There is only one thing for it then – to learn. Learn why the world wags and what wags it. That is the only thing which the mind can never exhaust, never alienate, never be tortured by, never fear or distrust, and never dream of regretting. Learning is the thing for you. Look at what a lot of things there are to learn – pure science, the only purity there is. You can learn astronomy in a lifetime, natural history in three, literature in six. And then, after you have exhausted a milliard lifetimes in biology and medicine and theo—criticism and geography and history and economics – why, you can start to make a cartwheel out of the appropriate wood, or spend fifty years learning to begin to learn to beat your adversary at fencing. After that you can start again on mathematics, until it is time to learn to plough.’
t.h.w. Once and a future king, The sword in the stone.

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quinta-feira, junho 19, 2014

18.06.2014

Not all those who wander are lost
j.r.r.t.

terça-feira, junho 10, 2014

Moloko veshka

(...) Ele estava em outro mundo mesmo, bem distante, lá em órbita, e eu sabia bem como era isso, pois já tinha experimentado essa sensação como todo mundo, mas daquela vez fiquei pensando que era uma veshka tipo assim meio covarde. Ó, meus irmãos. Você fica ali jogado depois de tomar o bom e velho moloko e aí fica com a messel de que tudo ao seu redor meio que já aconteceu antes. Você até consegue videar tudo direitinho, tudo mesmo, com muita clareza - as mesas, o estéreo, as luzes, as esticas e os maltchiks - mas era como se fosse uma veshka que antes estava lá mas agora não está mais. E você ficava assim meio que tipo hipnotizado pela sua bota ou pelo seu sapato ou pela unha, tanto faz, e ao mesmo tempo você ficava meio como se te pegassem pelo cangote e sacudissem que nem um gato. Você é sacudido sem parar até não sobrar mais nada. Você perde seu nome, seu corpo, seu eu e não está nem aí, e espera até sua bota ou sua unha ficarem amarelas, e ficarem cada vez mais amarelas. Então as luzes começam a piscar como explosões atômicas e a bota ou a unha ou, também pode acontecer, uma sujeirinha no fundo das suas calças se transforma num mesto grande grande grande, maior que o mundo inteiro, e aí você vai justamente ser apresentado ao bom e velho Bog ou Deus quando tudo acaba. Você volta pro lado de cá e aí fica meio que gemendo baixinho, com a rot toda buábuá. Agora, isso é muito bacana, mas também é muito covarde. Você não foi posto neste mundo só para entrar em contato com Deus. Esse tipo de coisa pode sugar toda a força e a virtude de um tchelovek.
a.b. Laranja Mecânica

quarta-feira, junho 04, 2014

melhorando...?

(...)

Você sabia que nessa Idade das Trevas visível da janela de Guenevere havia tanta decência no mundo que a Igreja Católica podia impor uma paz a todas as lutas - a chamada Trégua de Deus -, que durava de quarta-feira à segunda, assim como em todo período do Advento e da Páscoa? Você acha que eles, com suas Batalhas, Fome, Peste Negra e Servidão, eram menos ilustrados que nós, com nossas Guerras, Bloqueio, Influenza e Recrutamento? Mesmo que fossem imbecis o suficiente para acreditar que a Terra era o centro do universo, nós também não acreditamos que o homem é a flor mais fina da criação? Se um peixe leva milhões de anos para se transformar em réptil, será que o Homem, nas nossas poucas centenas de anos, modificou-se a ponto de se tornar irreconhecível?

t.h.w. A chama ao vento

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Did you know that in these dark ages which were visible from Guenever’s window, there was so much decency in the world that the Catholic Church could impose a peace to all their fighting – which it called The Truce of God – and which lasted from Wednesday to Monday, as well as during the whole of Advent and Lent? Do you think that they, with their Battles, Famine, Black Death and Serfdom, were less enlightened than we are, with our Wars, Blockade, Influenza and Conscription? Even if they were foolish enough to believe that the earth was the centre of the universe, do we not ourselves believe that man is the fine flower of creation? If it takes a million years for a fish to become a reptile, has man, in our few hundred, altered out of recognition?

t.h.w. The candle in the wind

sábado, maio 31, 2014

A single paragraph. So many nice ways of treating people. >.<'

It was the Gramarye of the Middle Ages, which some people are accustomed to think of as the Dark Ages, and Arthur had made it what it was. When the old King came to his throne it had been an England of armoured barons, and of famine, and of war. It had been the country of trial by ordeal with red—hot irons, of the Law of Englishry, and of the sad, wordless song of Morfa—Rhuddlan. Then, on the sea—coast, within a foreign vessel’s reach, not an animal, not a fruit tree, had been left. Then, in the fens and the vast forests, the last of the Saxons had defended themselves against the bitter rule of Uther the Conqueror; then the words ‘Norman’ and ‘Baron’ had been equivalent to the modern word of ‘Sahib’; then Llewellyn ap Griffith’s head, in its crown of ivy, had mouldered on the clustered spikes of the Tower; then you would have met the mendicants by the roadside, mutilated men who carried their right hands in their left, and the forest dogs would have trotted beside them, also mutilated by the removal of one toe – so that they could not hunt in the woodlands of the lord. When Arthur first came, the country people had been accustomed to bar themselves in their cottages every night as if for siege, and had prayed to God for peace during darkness, the goodman of the house repeating the prayers used at sea on the approach of storm and ending with the plea ‘the Lord bless and help us,’ to which all present had replied, ‘Amen.’ In the baron’s castle, in the early days, you would have found the poor men being disembowelled – and their living bowels burned before them – men being slit open to see if they had swallowed their gold, men gagged with notched iron bits, men hanging upside down with their heads in smoke, others in snake pits or with leather tourniquets round their heads, or crammed into stone—filled boxes which would break their bones. You have only to turn to the literature of the period, with its stories of the mythological families such as Plantagenets, Capets and so forth, to see how the land lay. Legendary kings like John had been accustomed to hang twenty—eight hostages before dinner; or, like Philip, had been defended by ‘sergeants—at—mace,’ a kind of storm troopers who guarded their lord with maces; or, like Louis, had decapitated their enemies on scaffolds under the blood of which the children of the enemy had been forced to stand. This, at all events, is what Ingulf of Croyland used to tell us, until he was discovered to be a forgery. Then there had been Archbishops nicknamed ‘Skin—villain,’ and churches used as forts – with trenches in the graveyards among the bones – and price—lists for fining murderers, and bodies of the excommunicated lying unburied, and famishing peasants eating grass or tree—bark or one another. (One of them ate forty—eight.) There had been roasting heretics on the one hand – forty—five Templars had been burned in one day – and the heads of captives being thrown into besiegedcastles from catapults on the other. Here a leader of the Jacquerie had been writhing in his chains, as he was crowned with a red—hot tripod. There a Pope had been complaining, as he was held to ransom, or another one had been wriggling as he was poisoned. Treasure had been cemented into castle walls, in the form of gold bars, and the builders had been executed afterwards. Children playing in the streets of Paris had frolicked with the dead body of a Constable, and others, with the women and old men, had starved outside the walls of beleaguered towns, yet inside the ring of the besiegers. Hus and Jerome, with the mitres of apostasy upon their heads, had flamed and fizzled at the stake. The hamstrung imbeciles of Jumièges had floated down the Seine. Giles de Retz had been found to have no less than a ton of children’s bones, calcined, in his castle, after having murdered them at the rate of twelve score a year for nine years. The Duke of Berry had lost a kingdom through the unpopularity which he earned by feeling sorry for eight hundred foot soldiers who had been killed in a battle. The youthful count of St Pol had been taught the arts of war by being given twenty—four living prisoners to slaughter in various ways, for practice. Louis the Eleventh, another of the fictional kings, had kept obnoxious bishops in rather expensive cages. The Duke Robert had been surnamed ‘the Magnificent’ by his nobles – but ‘the Devil’ by his parishioners. And all the while, before Arthur came, the common people – of whom fourteen were eaten by wolves out of one town in a single week, of whom one third were to die in the Black Death, of whom the corpses had been packed in pits ‘like bacon,’ for whom the refuges at evening had often been forests and marshes and caves, for whom, in seventy years, there had been known to be forty—eight of famine – these people had looked up at the feudal nobility who were termed the ‘lords of sky and earth,’ and – themselves battered by bishops who, because they were not allowed to shed blood, went for them with iron clubs – had cried aloud that Christ and his saints were sleeping.

t.h.w. The Candle in the Wind

sexta-feira, maio 30, 2014

Autonominha

Não quero que meus sorrisos dependam de ninguém.

...

Quero sair por aí. Há tanto a ver e descobrir.
Tanto há a descobrir-me!
Meus céus azuis e dias chuvosos
Meus mares tranquilos e oceanos tormentosos

Quero me ler em Borges
e me pedalar pela estrada
quero descobrir que novas músicas dançam em mim

Quero conhecer que comidas despertam sabores em meu corpo
E que paisagens internas, inebriantes,
me penetram e se abrem em mim
quando, olhos bem abertos, devoro o mundo.

Quero divinar-me
inebriar-me
enlouquecer
e me sentir preenchida
com a grandeza do mundo
a lindezura da quantidade de cores e vidas das pessoas

Quero o divino do som
não humano.
Ir meio do mato.

E quero ler, concentrada,
protegida pelo incógnito anonimato
de um movimentado café de rua
em algum estranho lugar.

Quero estar na estrada, na estrada, na estrada, na estrada, na estrada.

Quero me encontrar e descobrir
continuar um caminho
longo
antigo
utópico
infindo
ingênuo
aprendiz
crescente
ávido
curioso
incerto
meu.

Meus caminhos
meus gostos
minhas descobertas
meus quereres
meus aprendizados.

Tanto hei de descobrir-me!

Talvez ande meio sedenta de mim...

para fora

Preciso por pra fora...

(...)

Sempre que me estico demais para fora de mim, acabo me sentindo estranha - algo se fragiliza internamente, o espaço de cuidado e bem querer interno se chacoalha, é chacoalhado. 

Há muito barelho e formas e jeitos de ser, expectativas, anseios, saberes, cores, lugares, formas... O mundo do que não sou, não sei, não estou é sempre maior do que, nesse momento, sou ou sei ou posso ir. Não posso me deixar diluir no que está fora. Me perder nas expectativas e ansiedades causadas por todos os não.

Não sou  boa em tentar ser boa. Ou em ser boa. Não funciona bem pra mim. Sempre que tento, começo a olhar demais para fora, e então começo a me comparar demais, e de repente estou fora, esticada, e torno-me muito fácil de romper. Frágil.

Assim sei sinais do que me faz bem ou não. Há situações, ambientes e pessoas que atuam como escoadouros de mim. Não quero estar aí. Não quero tais circunstâncias.

Gosto de aprender, interagir, ser desafiada, experimentar, rir, fazer merda, perceber que fiz besteira, tentar melhorar - mas há um jeito de estar e fazer isso que funciona. Outros que não.

Não quero olhar tanto pra fora e para os outros a ponto de me desconectar, me perder de mim...

Por isso make good art é bom. As interferências, acontecimentos e ruídos reduzem de volume e intensidade, perdem força. Se distanciam, ofuscam, empalidecem...

Estou aqui, em um espaço em que posso respirar e estar feliz com meus passos, minha caminhada. Aqui, posso pensar e sentir que quero mudar e melhorar sem me comparar com os outroas, com vidas que não tive, escolhas que não fiz.

A minha trajetória é a matéria sobre a qual posso atuar, que posso percorrer, entender, querer saltar, superar. De mim para mim.

Eu estou aqui comigo.

Há um espaço interno de paz, ou bem estar, onde não vou me comparar, espremer ou fazer mal.

Posso buscar exemplos e querer melhorar. Quero sempre buscar isto, evitar acomodar-me demais, evitar zonas de conforto que durem demais. Mas quero fazer isso de um modo amoroso e saudável para comigo mesma.

Bluh!

E - se eu quero ser boa em algo, eu que perceba o que é importante pra mim, leve a sério, e treine! u_u

(...)

E talvez seja ruim em tentar ser boa porque... sempre que olho demais para o outro - em busca de aprovação ou atenção - afasto-me por demais de mim...
acho que vou criar, para mim mesma, um mgaed: make good art everyday.

quarta-feira, maio 28, 2014

escolhas

Diz a lenda
Que trocou suas certezas
Por alguns
Sonhos mágicos
c.l.


:}

segunda-feira, maio 26, 2014

What is the name of the word when you like inventing words?

'When I use a word,' Humpty Dumpty said, in rather a scornful tone, 'it means just what I choose it to mean — neither more nor less.'
'The question is,' said Alice, 'whether you can make words mean so many different things.'
'The question is,' said Humpty Dumpty, 'which is to be master — that's all.'
Alice was too much puzzled to say anything; so after a minute Humpty Dumpty began again. 'They've a temper, some of them — particularly verbs: they're the proudest — adjectives you can do anything with, but not verbs — however, I can manage the whole lot of them! Impenetrability! That's what I say!'
'Would you tell me please,' said Alice, 'what that means?'
'Now you talk like a reasonable child,' said Humpty Dumpty, looking very much pleased. 'I meant by "impenetrability" that we've had enough of that subject, and it would be just as well if you'd mention what you mean to do next, as I suppose you don't mean to stop here all the rest of your life.'
'That's a great deal to make one word mean,' Alice said in a thoughtful tone.
l.c. through the looking glass

domingo, maio 25, 2014

veleidade...

What mattered it to her just then that the rushes had begun to fade, and to lose all their scent and beauty, from the very moment that she picked them? Even real scented rushes, you know, last only a very little while - and these, being dream-rushes, melted away almost like snow, as they in heaps at her feet - but Alice hardly noticed this, there were so many other curious things to think about.

l.c. Through the looking glass

sexta-feira, maio 16, 2014

Daily Word: Ment

Ment

Verbo irregular. Quando uma pessoa está ocupada com coisas importantes demais para voltar e se preocupar em corrigir erros de digitação, gramática ou ortografia, especialmente no inglês.

Origem: neologismo, em inglês. Corruptela de meant: passado simples do verbo mean: querer dizer ou expressar algo; originária de bate-papos rápidos em inglês com falantes não nativos da língua.

Uso:
p1 - All I am tryng to say is that I love you.
p2 - *trying
p1 - I ment it.

tmi

"TMI", he whispered, gazing into the sea.
r.m. TMI

quinta-feira, maio 15, 2014

fumaça e espelhos... ou sua outra face?

(...) pois na imagem está o poder!

Os homens que se adereçavam com chifres e contas sabiam disso ao dançarem como cães à luz das primeiras fogueiras.

Os homens de botas pretas de cano longo sabiam disso ao marcharem pelos escombros incendiados da Europa com um passo tão estilizado quanto o de fileiras de coristas em espetáculo musical.

E veio o evangelho das novas tribos urbanas que floresceram ao crepúsculo do século...

... das crianças que evisceraram assentos de cinema e ofertaram buquês à polícia da tropa de choque...

... que deflagraram guerras contra etiquetas de camisa ao longo de frias praias inglesas fora de temporada e ostentaram as queimaduras de cigarro nos braços tal qual joias... As tribos sabiam!

Sabiam! Sabiam o significado do glamour! O significado primevo, original, de glamour como magia!

Glamour é magia!

Nossos maneirismos, nossas vaidades... são as máscaras de demônio que nos dão poder, que nos fazem amados ou temidos.

Nossas imagens, as sombras que projetamos... esses fantasmas são o que importa. São o que move o mundo.

Nossas roupas são maiores que nós, vão além das corriqueiras ambições e agruras das criaturas que as habitam.

Caso este inverno se mostre interminável, como proclamam os artífices do apocalipse, talvez nossas roupas sejam tudo o que sobreviverá.


a.m. Fashion Beast.

domingo, maio 11, 2014

Sanar

Las lágrimas van al cielo
Y vuelven a tus ojos desde el mar.
El tiempo se va, se va y no vuelve,
Y tu corazón va a sanar,
Va a sanar,
Va a sanar.
La tierra parece estar quieta
Y el sol parece girar,
Y aunque parezca mentira
Tu corazón va a sanar,
Va a sanar,
Va a sanar,
Y va a volver a quebrarse
Mientras le toque pulsar.
Y nadie sabe por qué un día el amor nace,
Ni sabe nadie por qué muere el amor un día,
Ni nadie nace sabiendo, nace sabiendo
Que morir también es ley de vida.

j.d.

23.12.2006

(Nada específico que ultrapasse a vontade, pura e simples, de escrever. E, no entanto, a pompa de fazê-lo em um papel "melhor", com uma caneta de tinta, torna este texto banal alguma carta que algum grande poeta escreveria à noite, em sua escrivaninha, no quarto escuro.)

Apenas um ponto de luz, amarelada, torna possível a ele ver o que escreve. Está em frente à janela, mas olha basicamente para dentro de si. Vez ou outra fita um ponto qualquer, perto-longe.

É tarde, mas o tempo estará congelado para sempre, enquanto Ele ali estiver. E, entretanto, todos os acontecimentos da vida ocorrerão, enquanto Ele ali estiver. É possível vê-lo impávido e alheio, a escrivavinha e o quarto girando em meio ao vendaval que se forma com a passagem exageradamente rápida dos anos. É possível que o mundo pare.

A folha parou de cair. A vela queima sem derreter; o fogo não tremula. Alguém está eternamente lavando louça em uma cozinha, pois O Poeta escreve em sua escrivaninha.

Não, Ele não é Deus, nem deus.

Ele
é apenas
o Grande Escritor
                           e escreve.

Anseios...

"(...) pôs seu mundo na mochila."
n.g. O Monarca do Vale. in Coisas Frágeis

sexta-feira, maio 09, 2014

Free birds

It is not the distance what keeps two persons apart...

quinta-feira, maio 08, 2014

needs fixing

what is your major malfunction?
t.i.

segunda-feira, maio 05, 2014

Minha única constante é a mudança...

acre-doce

A história de um grão de açúcar é toda uma lição de economia, de política e também de moral.
Augusto Cochin apud Eduardo Galeano

filosofias simples

Pedale até se sentir melhor. Se você ainda não está se sentindo melhor, é porque não pedalou o suficiente.
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Quero morar em um lugar onde possa me deslocar só de bicicleta, se sentir vontade. Sem que isso seja algo extraordinário.
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Não esquecer que pedalar (e mexer o corpo em geral) me faz bem, me ajuda a reconectar com meu centro, a respirar, a só pensar se for necessário, e no que é necessário. E é algo que posso fazer quase sempre. E comigo mesma.
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Não deixar de pedalar...

domingo, maio 04, 2014

said the shotgun to the head

...
from now on
cities will be built
on one side
of the street

so that soothsayers

will have wilderness to wander
and lovers
space enough
to contemplate
a kiss
...
s.w.

segunda-feira, abril 28, 2014

Definições

"Meu segundo nome é Eficiência.
...
Pena que o primeiro seja Caos."

domingo, abril 27, 2014

Like most other dances, relationships also are about rhythm...

sexta-feira, abril 25, 2014

Suor

O abafado do dia
lentamente
escorre
por minhas pernas
virilha
coxa
joelho
panturrilha.

Ônibus

amontoado de corpos
de sonhos cansados
e trajetos tortos

old news

Quero falar de impermanência
e de mudanças

Quero falar de essência.
Do que nos faz ir embora,
do que nos leva a ficar...

terça-feira, abril 22, 2014

Utopifanias

O segredo, uma vez mais, parece ser, sempre, continuar caminhando...

segunda-feira, abril 21, 2014

Dependências...

(...) No fim das contas, tampouco em nosso tempo a existência dos centros ricos do capitalismo pode explicar-se sem a existência das periferias pobres e submetidas: umas e outras integram o mesmo sistema.
e.g. As veias abertas da América Latina

sábado, abril 19, 2014

Riquezas

Os metais arrebatados aos novos domínios coloniais estimularam o desenvolvimento europeu e pode-se até mesmo dizer que o tornaram possível. Nem sequer os efeitos da conquista dos tesouros persas, que Alexandre Magno despejou sobre o mundo helênico, poderiam se comparar com a magnitude dessa formidável contribuição da América para o progresso alheio.
e.g. As veias abertas da América Latina 
La vida no para, no espera, no avisa...
j.d.

quinta-feira, abril 17, 2014

Para não esquecer

O poema caótico e que me lembra fumaça e poluição e máquinas é do Pessoa, heterônimo Álvaro de Campos, e se chama Ode Triunfal:

http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/alvaro_de_campos/poetas_alvarodecampos_odetriunfal01.htm
http://campos-odetriun.blogspot.com.br/

passatempo

... Finalmente, a população das ilhas do Caribe deixou da pagar tributos porque desapareceu: os indígenas foram completamente exterminados nas lavagens de ouro, na terrível tarefa de revolver as areias auríferas com a metade do corpo mergulhado na água, ou lavrando os campos até a extenuação, com as costas dobradas sobre os pesados instrumentos de aragem trazidos da Espanha. Muitos indígenas da Ilha Dominicana se antecipavam ao destino imposto por seus novos opressores brancos: matavam seus filhos e se suicidavam em massa. O historiador Fernández de Oviedo interpretava assim, em meados do século XVI, o holocausto dos antilhanos: "Muitos deles, por passatempo, mataram-se com veneno para não trabalhar, e outros se enforcaram com as próprias mãos".
e.g. As veias abertas da América Latina

quarta-feira, abril 16, 2014

Newspeak

"Blame and English Speakers

In the same article, Boroditsky notes that in English, we’ll often say that someone broke a vase even if it was an accident, but Spanish and Japanese speakers tend to say that the vase broke itself. Boroditsky describes a study by her student Caitlin Fausey in which English speakers were much more likely to remember who accidentally popped balloons, broke eggs, or spilled drinks in a video than Spanish or Japanese speakers. (Guilt alert!) Not only that, but there’s a correlation between a focus on agents in English and our criminal-justice bent toward punishing transgressors rather than restituting victims, Boroditsky argues."

http://blog.ted.com/2013/02/19/5-examples-of-how-the-languages-we-speak-can-affect-the-way-we-think/

terça-feira, abril 15, 2014

lusco-fusco

Percorro as ruas da cidade
como se visitasse um país estrangeiro
Há algo de estranho
no cinza dessa noite
que corre apressada pra casa.

Há algo de surreal na rotina
as ruas cheias de carros
os ônibus apinhados de pessoas

Sinto-me uma estrangeira
tentando absorver uma realidade
que não faz sentido.

Há um cansaço cotidiano
resignado
nas mãos calejadas
os corpos amassados
os olhares fugidios.
Na empatia das horas impossíveis
nas risadas dos desconfortos incríveis.

Há greves
e paralizações.
E adidas
samsung
LG
Mochilas baratas
surradas
passando sobre cabeças caídas.

Não há grito sufocado.
Há um riso
uma sensação de deslocamento.

Há um desalento
um desencanto
dessa vida sobrevivida.

Arre...

segunda-feira, abril 07, 2014

islands

"No man, proclaimed Donne, is an Island, and he was wrong. If we were not islands, we would be lost, drowned in each other's tragedies. We are insulated (a word that means, literally, remember,  made into an island) from the tragedy of others, by our island nature, and by the repetitive shape and form of the stories. The shape does not change: there was a human being who was born, lived, and then, by some means or another, died. There. You may fill in the details from your own experience. As unoriginal as any other tale, as unique as any other life. Lives are snowflakes - forming patterns we have seen before, as like one another as peas in a pod (and have you ever looked at peas in a pod? I mean, really looked at them? There's not a chance you'd mistake one for another, after a minute's close inspection), but still unique."

"Without individuals, we see only numbers: a thousand dead, a hundred thousand dead, 'casualties may rise to a million.' With individual stories, the statistics become people - but even that is a lie, for the people continue to suffer in numbers that themselves are numbing and meaningless. Look, see the child's swollen, swollen belly, and the flies that crawl at the corners of his eyes, his skeletal limbs: will it make it easier for you to know his name, his age, his dreams, his fears? To see him from the inside? And if it does, are we not doing a disservice to his sister, who lies in the searing dust beside him, a distorted, distended caricature of a human child? And there, if we feel for them, are they now more important to us than a thousand other children touched by the same famine, a thousand other young lives who will soon be food for the flies' own myriad squirming children?

"We draw our lines around these moments of pain, and remain upon our silands, and they cannot furt us. They are covered with a smooth, safe, nacreous layer to let them slip, pearllike, from our souls without real pain.

"Fiction allows us to slide into these other heads, these other places, and look out through other eyes. And then in the tale we stop before we die, or we die vicariously and unharmed, and in the world beyond the tale we turn the page or close the book and we resume our lives.
n.g. American Gods

domingo, abril 06, 2014

ópios

Miséria e pobreza são excelentes negócios. Você esvazia a vida das pessoas, e depois enche com a merda que quiser...

sábado, abril 05, 2014

pontos de vista

There's never been a true war that wasn't fought between two sets of people who were certain they where in the right.
n.g., American Gods

segunda-feira, março 24, 2014

Mais poesia, por favor.

Luta

Levántate y mírate las manos
Para crecer, estréchala a tu hermano
Juntos iremos unidos en la sangre
Hoy es el tiempo que puede ser mañana
v.j.

sábado, março 22, 2014

na carreira

vontade de limpar, revirar, abrir mão, limpar, desafogar, prosseguir, partir...

--
arte de deixar algum lugar
quando não se tem pra onde ir...

quinta-feira, fevereiro 27, 2014

qq coincidência com a realidade é mera semelhança

mundo distópico onde a indústria farmacêutica e a alimentícia estão alinhadas, e uma ampara a outra para minar o sistema imunológico das pessoas, para que fiquem mais sensíveis a doenças e, assim, consumam mais medicamentos que as tornam mais controláveis, sem desconfiarem de nada

quinta-feira, fevereiro 06, 2014

as coisas precisam de tempo
pra amadurecer
para se fazer entender
pra germinar e brotar
pra criar raízes...

quinta-feira, janeiro 30, 2014

acho que sou pendular...

a depender do momento, ideias completamente opostas podem me parecer a melhor opção...

segunda-feira, janeiro 27, 2014

guerras

"O sinal de que começara a batalha foi a tosse. Viu lá embaixo uma nuvem de poeira amarela que avançava, e uma outra subiu do chão porque os cavalos cristãos também se haviam lançado para a frente a galope. Rambaldo começou a tossir; e todo o exército imperial tossia entalado em suas armaduras, e assim tossindo e pateando corria rumo à poeirada infiel e já ouvia cada vez mais perto a tosse sarracena. As duas nuvens de poeira se misturaram: tosses e golpes de lança ribombaram em toda a planície."

i.c. O cavaleiro inexistente.

segunda-feira, dezembro 30, 2013

Tristes guerras

Tristes guerras
si no es amor la empresa.
Tristes, tristes.
 
Tristes armas
si no son las palabras.
Tristes, tristes.
 
Tristes hombres
si no mueren de amores.
Tristes, tristes.
 
m. h.

quarta-feira, dezembro 25, 2013

Rir junto

Riem-se. Rir junto é melhor que falar a mesma língua. Ou talvez o riso seja uma língua anterior que fomos perdendo à medida que o mundo foi deixando de ser nosso.
m.c. Venenos de Deus, remédios do Diabo

sábado, dezembro 21, 2013

de hienas e leões

(...) Vendo a gente grande focinhando entre as ossadas ele ainda se perguntou: como é que engordaram tanto se já não há vivos para caçarem, se já só resta pobreza? Uma das hienas lhe respondeu assim:
- É que nós roubamos e reroubamos. Roubamos o Estado, roubamos o país até sobrarem só os ossos.
- Depois de roermos tudo, regurgitamos e voltamos a comer - disse outra hiena.
O que fariam comigo era vender minha carne aos leões vindos de fora. Elas, as hienas nacionais, contentar-se-iam com o esqueleto.
m.c. O último voo do flamingo

sexta-feira, dezembro 13, 2013

divagações

Acho que, diferente do que se diz, a gente não envelhece aos poucos. Acho que envelhecemos aos tropeções, de sopetão. O primeiro porre, o primeiro semestre de faculdade, a primeira vez que o amor acaba ou que magoamos profundamente alguém que amamos, a primeira noite em claro no hospital, no velório. De repente, no meio da confusão, olhamo-nos no espelho, ou reparamos nossas mãos, e uma parte do viço que sempre esteve ali se perdeu, não existe mais.

quarta-feira, dezembro 11, 2013

...Quem mente antes diz a verdade...
h.g.

quinta-feira, dezembro 05, 2013

O mundo não é o que existe, mas o que acontece.
Dito de Tizangara, como visto em O último voo do flamingo

quarta-feira, dezembro 04, 2013

I like the stars

“I like the stars. It's the illusion of permanence, I think. I mean, they're always flaring up and caving in and going out. But from here, I can pretend...I can pretend that things last. I can pretend that lives last longer than moments. Gods come, and gods go. Mortals flicker and flash and fade. Worlds don't last; and stars and galaxies are transient, fleeting things that twinkle like fireflies and vanish into cold and dust. But I can pretend...”

n.g. Brief Lives

perplexities

I have spent my life reading, analyzing, writing (or trying my hand at writing), and enjoying. I found the last to be the most important thing of all. "Drinking in" poetry, I have come to a final conclusion about it. Indeed, every time I am faced with a blank page, I feel that I have to rediscover literature for myself.... I have only my perplexities to offer you. I am nearing seventy. I have given the major part of my life to literature, and I can offer you only doubts.
j.l.b, "The Riddle of Poetry"

terça-feira, novembro 19, 2013

às vésperas de ir dormir, após um dia ruim

It's strange, isn't it, how we tend to think our lives can only go in one direction. It's like living near a big city - you tend to think that all roads lead to the city, not that, from that point, you can choose any direction away from it you want, and just follow it.

I live in a big city. Whenever I think about moving to its surroundings, I always think of how much time I'd spend to travel back to the city, when I needed anything. I never even consider that I'll be closer to other interesting towns, or that I could just keep going on the opposite direction of the city - and arrive at a new, maybe completely different, place. The funny part is that I love to travel, and nonetheless my mind is trapped on that big magnetic center the big city had turned into.

So it seems to be with life - we have our big cities: graduating, making money, marrying someone, getting settled somewhere. And every aspect of these has its own centers: privileged professions, beauty standards, expensive houses.

If we aren't careful enough to look  to either sides of the road - or place where we are - we are trapped into believing it's some kind of path we have follow, and that's there's only one direction to go.

I choose to look around.

Dedicatória

... Aos que não  puderam ficar.

sábado, novembro 16, 2013

Disneylândia

Filho de imigrantes russos casado na Argentina
Com uma pintora judia,
Casou-se pela segunda vez
Com uma princesa africana no México

Música hindú contrabandeada por ciganos poloneses faz sucesso
No interior da Bolívia zebras africanas
E cangurus australianos no zoológico de Londres.
Múmias egípcias e artefatos íncas no museu de Nova York

Lanternas japonesas e chicletes americanos
Nos bazares coreanos de São Paulo.
Imagens de um vulcão nas Filipinas
Passam na rede de televisão em Moçambique

Armênios naturalizados no Chile
Procuram familiares na Etiópia,
Casas pré-fabricadas canadenses
Feitas com madeira colombiana
Multinacionais japonesas
Instalam empresas em Hong-Kong
E produzem com matéria prima brasileira
Para competir no mercado americano

Literatura grega adaptada
Para crianças chinesas da comunidade européia.
Relógios suiços falsificados no Paraguay
Vendidos por camelôs no bairro mexicano de Los Angeles.
Turista francesa fotografada semi-nua com o namorado árabe
Na baixada fluminense

Filmes italianos dublados em inglês
Com legendas em espanhol nos cinemas da Turquia
Pilhas americanas alimentam eletrodomésticos ingleses na Nova Guiné

Gasolina árabe alimenta automóveis americanos na África do Sul.
Pizza italiana alimenta italianos na Itália

Crianças iraquianas fugidas da guerra
Não obtém visto no consulado americano do Egito
Para entrarem na Disneylândia
a. a. / p. m.
Acendeu um cigarro e decidiu fumar o problema.
e. v-m. A viagem vertical

sexta-feira, novembro 15, 2013

Porto Metafísico

"Quando você viaja com alguém", disse-me, "sempre tende a olhar para o que o rodeia com estranhamento, enquanto, quando viaja sozinho, o estranho é sempre você."


e. v-m. A viagem vertical

quinta-feira, novembro 14, 2013

Yo no creo en brujas

Diz o ditado Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay. Quando recebeu a notícia de que sua mãe e sua irmã mais velha haviam morrido em um acidente, minha mãe não quis acreditar. Mas isso não mudou uma vírgula do que houve. Há uma série de coisas que acontecem independente do que pensamos ou esperamos delas - de concordarmos e acreditarmos ou não.

Aonde quero chegar com isso? Não sei. Só me ocorreu pensar quão inexorável a vida - as coisas? - pode ser. As coisas que independem de nós... De nossa vontade.

Em contrapartida, minha vontade pode me dar várias rasteiras, se eu tento contar com ela para realizar algumas coisas. Oh, vida.

terça-feira, novembro 05, 2013

Sintonize a cultura

    Mayol soube descobrir rápido essa condição de ofídio em Lisboa, descobriu-a com a mesma simplicidade com que outros viajantes, recém-chegados à cidade, descobriram sua essência ao ouvir os gemidos roucos de um fado num rádio ao longe. As pessoas que viajam sozinhas têm um sexto sentido, uma espécie de facilidade ou capacidade de percepção muito superior àquelas que viajam acompanhadas e ficam o tempo todo falando como maritacas e nada percebem, incapazes de captar detalhes como o que Mayol pegou no ato, poucas horas depois de chegar a Lisboa, na igreja do mosteiro dos Jerônimos, onde descobriu em suas duas grandes colunas, talhadas no coral, as formas sinuosamente mágicas de duas serpentes, de imediato decidindo relacioná-las à alma da cidade. Relacionou-as de uma forma pedestre, mas profundamente intuitiva, e o fato é que soube estabelecer a relação, e isso, afinal de contas, é o que importa mesmo.
    Mayol relacionou serpente com Lisboa porque sempre ouvira dizer que as mulheres eram como serpentes, e também porque sempre lhe parecera verdade essa coisa de que as cidades são mulheres, cada uma com sua própria maneira de agradar. E Lisboa agradara Mayol desde o momento em que pisou as ruas da Baixa e foi até o Cais do Sodré, agradou-lhe em seguida a cidade, sobretudo porque foi atingido pela rara sensação de ter estado toda a vida naquelas ruas, de ter estado sempre ali.

e.v-m. in A viagem vertical

segunda-feira, novembro 04, 2013

duas semanas e um dia

pessoas e coisas existem, até que... não existem mais. e é isso.

gatos, cachorros, pássaros, pessoas, aves, construções, cidades, países...

como disse bishop, estamos a perder coisas o tempo todo.

lembrar dói, pensar dói.

as coisas em grande escala, para nós, permanecem. a sucessão dos dias - frio, calor, chuva. as estrelas, o oceano. a vida segue.

nós, os vivos, seguimos...?

segunda-feira, outubro 28, 2013

20.10.2013

... a vida é só um detalhe ...

quinta-feira, outubro 24, 2013

há um relógio torto da parede da sala

quarta-feira, outubro 23, 2013

Jactancia de quietud

 Escrituras de luz embisten la sombra, más prodigiosas 
 que meteoros. 
 La alta ciudad inconocible arrecia sobre el campo. 
 Seguro de mi vida y de mi muerte, miro los ambiciosos y quisiera 
 entenderlos. 
 Su día es ávido como el lazo en el aire. 
 Su noche es tregua de la ira en el hierro, pronto en acometer. 
 Hablan de humanidad. 
 Mi humanidad está en sentir que somos voces de una misma 
 penuria. 
 Hablan de patria. 
 Mi patria es un latido de guitarra, unos retratos y una vieja 
 espada, 
 la oración evidente del sauzal en los atardeceres. 
 El tiempo está viviéndome. 
 Más silencioso que mi sombra, cruzo el tropel de su levantada 
 codicia. 
 Ellos son imprescindibles, únicos, merecedores del mañana. 
 Mi nombre es alguien y cualquiera. 
 Paso con lentitud, como quien viene de tan lejos que no espera 
 llegar.
j.l.b.

quinta-feira, outubro 17, 2013

Insuportável, a noite

O prédio fica na esquina do Malecón com a Campanario. A erosão do vento, o salitre, o tempo e a negligência o destruíram. Grandes brechas nas paredes de tijolos. Rachaduras no teto e nas paredes. Com uns dias de chuva e um vento norte ele desmoronava. Mas ali vivem muitas pessoas. Ninguém sabe quantas. Entram e saem. Umas poucas lâmpadas dão uma luz opaca e amarelada. Trevas e silêncio. Todos moram ali ilegalmente. E andam como baratas. Escondidos.
(...)
Senta-se no chão do corredor, de frente para uma falha enorme da parede. Por ali se vê o mar escuro. A noite silenciosa. Há pouco tráfego no Malecón. Ouvem-se as ondas se quebrando nos recifes e borrifando salitre sobre a cidade.
p.j.g.
Trilogia suja de Havana

terça-feira, outubro 08, 2013

Eu, homem de negócios

Mas a carne é fraca. Pelo menos a minha é fraca e pecadora. E acho que com todo mundo acontece a mesma coisa com suas carnes, mas as pessoas não querem se dar conta e até inventaram os conceitos de decência e indecência. Só que ninguém sabe definir onde estão as fronteiras que separam decentes de indecentes.
p.j.g.
Trilogia Suja de Havana

quarta-feira, outubro 02, 2013

Janela sobre a cara

    Uma máquina boba?
    Uma carta que ignora seu remetente e se engana de destino?
    Uma bala perdida, que algum deus disparou por engano?
    Viemos de um ovo muito menor que uma cabeça de alfinete, e habitamos uma pedra que gira em torno de uma estrela anã e que contra essa estrela, algum dia, irá se espatifar.
    Mas fomos feitos de luz, além de carbono e oxigênio e merda e morte e outras coisas, e enfim estamos aqui desde que a beleza do universo precisou de alguém que a visse.

e.g.
As palavras andantes

domingo, setembro 29, 2013

Janela sobre uma mulher (I)

Essa mulher é uma casa secreta.
Em seus cantos, guarda vozes e esconde fantasmas.
Nas noites de inverno, jorra fumaça.
Quem entra nela, dizem, não sai nunca mais.
Eu atravesso o fosso profundo que a rodeia. Nessa casa serei habitado. Nela me espera o vinho que me beberá. Muito suavemente bato na porta, e espero.

------------------------------------------------------------
E um trechinho:
E assim foi até que não foi mais.
------------------------------------------------------------

E:

Janela sobre uma mulher (II)

A outra chave não gira na porta da rua.
A outra voz, cômica, desafinada, não canta no chuveiro.
No chão do banheiro não há marcas de outros pés molhados.
Nenhum cheiro quente vem da cozinha.
Uma mação meio comida, marcada por outros dentes, começa a apodrecer em cima da mesa.
Um cigarro meio fumado, lagarta de cinza morta, tinge a beira do cinzeiro.
Penso que deveria fazer a barba. Penso que deveria me vestir penso que deveria.
Uma água suja chove dentro de mim.
e.g.
As palavras andantes

sábado, setembro 28, 2013

Janela sobre a palavra (V)

(...)
Haverá algum lugar onde se juntem as palavras que não quiseram ficar? Um reino das palavras perdidas? As palavras que você deixou escapar, onde estarão à sua espera?
e.g.
As palavras andantes

27.09.2013

"Acorde-me quando setembro acabar", eles cantaram. E tantos repetiram, que de repente até eu estava a fazer coro, contando os dias, contando os dedos que restavam, após cada tempestade.

Entretanto, e eventualmente, cá está para chegar outubro. E o que mudará, de fato? Alguns perdidos serão reencontrados, talvez alguns laços sejam refeitos. Mas os que se foram não retornarão, e os novos jamais tomam, de fato, por mais charme ou aconchegos que façam, o lugar dos que não mais estão...

(...)

Escrevo. E depois penso - você não devia ser tão afoita em sair por aí a falar do que ainda não acabou de fato, ou a desdizer do que sequer começou por direito... Setembro já nos ensinou que é possível cair muitas quedas...

quarta-feira, setembro 25, 2013

Janela sobre o medo

A fome come o medo. O medo do silêncio atordoa as ruas.
O medo ameaça:
Se você amar, vai pegar aids.
Se fumar, vai ter câncer.
Se respirar, vai se contaminar.
Se beber, vai ter acidentes.
Se comer, vai ter colesterol.
Se falar, vai perder o emprego.
Se caminhar, vai ter violência.
Se pensar, vai ter angústia.
Se duvidar, vai ter loucura.
Se sentir, vai ter solidão.
e.g.
As palavras andantes

domingo, setembro 22, 2013

Janela sobre a memória (II)

(...)
Temos um esplêndido passado pela frente?
Para os navegantes com desejo de vento, a memória é um porto de partida.
e.g.
As palavras andantes

sexta-feira, setembro 20, 2013

Janela sobre a palavra (I)

Os contadores de história, os cantadores de história, só podem contar enquanto a neve cai. A tradição manda que seja assim. Os índios do norte da América têm muito cuidado com essa questão dos contos. Dizem que quando os contos soam, as plantas não se preocupam em crescer e os pássaros esquecem a comida de seus filhotes.

e.g.
As palavras andantes

quarta-feira, setembro 18, 2013

E se...

E se eu escrevesse histórias com as vidas que não vivi? A qualquer momento do tempo e da história, estou deixando uma vida de lado e escolhendo outra.

Ou estou não escolhendo outras tantas. Não estou virando uma motoqueira toda tatuada. Não sou uma chef em algum restaurante de São Paulo ou Porto Alegre. Não sou trainee de alguma grande empresa. Não virei voluntária da Cruz Vermelha e fui para alguma zona necessitada. Não...

segunda-feira, setembro 16, 2013

10.09.2013

Estava aqui 'inda ontem
abrindo caminho na cama
com suas grandes patas de coelho

Ou sobre a cômoda,
enroscado, rei das roupas
por arrumar.
Sentava-se em minha cadeira
à hora do almoço,
para garantir seu lugar.

Gostava de carinho de pés molhados
após o banho.
De falar e falar.

Não me deixava perder
horários.

Era rosa desbotado
ou salmão.
Enormes pupilas dilatadas
em olhos redondos e amarelos,
dourados,
para caçar barbante.
Escalando pernas e cadeiras
para pedir carinho.

Falava comigo quando
o chamava,
e vinha correndo,
pulando, miando.

Por que tão curto
e unidirecional
o tempo?

Não pude protegê-lo,
colocá-lo no colo,
deixá-lo acionar
seu ronronar de motor.

Não afofam mais
as macias patas
não mais subirá
em minha barriga
ou costas - massagem felina

Não mais seus miados
de abrir porta
ou dar atenção.

(...)

11.09.2013

Eu não consigo reter uma imagem, algo que possa ficar.
Ele é um miado em minha cabeça, soando pela casa.
É um rolinho amarelo desbotado em cima de um monte de roupas.
Um pelo macio. Macio. Macio. Sempre. Quentinho.
Suas patas de coelho e imensos olhos redondos. Amarelos. Pupilas dilatadas para caçar. Ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele uma sequência de d's e alegrias e uma dor que é uma porrada súbita.

E não importa tudo que escreva ou chore ou lembre ou desenhe: nada fará ele voltar.
Sem subir por minhas pernas ou afofar minha barriga.
O abraço tardio não o reteve. Não o protegeu.
Me dá teu colo para eu me enroscar e dormir?

quarta-feira, setembro 11, 2013

10.09.2013

... And then there was silence...

quinta-feira, setembro 05, 2013

um Senhor Branco

http://video.yandex.ru/iframe/varvara-branwen/hxbn08ieak.3028/?player-type=full

Ele foi Branco, branquinho
e uivos e fugas
e passeios de quase trenó

Foi grande e antigo
foi não gostar de estar só

foi companheiro
de gatos e gentes
e acompanhou muitos, desde pequeninos

é ainda guerreiro e valente
agora, porém, ressona mansinho
vaga a mente
já mais lá que aqui

tinha pelos de estopa
algodão
que esvoaçavam no verão
e lambia-se como um gato

era quentinho
atrapalhado
cego de um olho
aconchegante

foram muitos acordares de manhã cedo
muitas corridas noite adentro

trazia o focinho à borda da cama
e o corpo para junto dos pés
aonde quer que se fosse

foi uma vida
foram várias

e como, e por que, tão grande e tão pequena
perto das nossas?

viveu muito mais que seus dias
agora vai correr
sem carros
sem freios
todos os rumos
nesse mundão

(sempre maior e mais velho que nós...)

terça-feira, agosto 27, 2013

self portrait. contemplation. - 1

There are no mysteries,
there's nothing new, either.

I'm the same person.
The same old shell:
sometimes opened, sometimes tightly closed.

Rarely empty.

Except for these tears that roll
only when they want
and become small spots of pain
                                       and grayness inside.

I'll cry not.
Not now.
I'd rather write
or yell
or fight
or run

'till I'm breathless
speechless.

Letting everything
(watching everything)
come.
Letting everything
(watching everything)
go.

Waiting until I'm ready.
'Till they are ready.

Then they're like a storm,
a waterfall, washing over me
flooding me.

Cry me a river, they say.
I could cry several.

But I can't ever really reinvent myself.
Only some lines, maybe.
Hardly full of mysteries.
Never completely new.

sexta-feira, agosto 16, 2013

vagamundo

É uma armadilha, penso. Não me movo. Estou rodeado de lixo pelo norte e pelo sul, o lixo me toma de assalto de leste a oeste. E o lixo que avança, não eu, ou talvez, seja esse fedor a fermento e tripas em decomposição que me encurralam e me vão traçando para asfixiar-me e eu penso que é uma cilada, o primeiro poço de pretóleo não existiu nunca, nunca houve, nunca poderei sair daqui, não sei por onde vim e não há estrelas para me guiarem. Me deixo cair sob o sol em chamas e com a cabeça apertada entre o joelho rogo que caiam em cima de mim a noite ou a chuva.

e.g.

sábado, agosto 03, 2013

Lacônico, conciso e enigmático.

era uma vez.
era uma vez o quê?
era uma vez.
só isso.
daí, depois, fim.
u_u

domingo, junho 30, 2013

...

- Afinal... - continuou o médico, e voltou a hesitar, olhado para Tarrou com atenção. - É uma coisa que um homem como o senhor consegue compreender, não é verdade? Já que a ordem do mundo é regulada pela morte, talvez convenha a Deus que não acreditemos nele e que lutemos com todas as nossas forças contra a morte, sem erguer os olhos para o céu, onde ele se cala.
- Sim - concordou Tarrou -, compreendo. Mas as suas vitórias são sempre efêmeras, nada mais.
O semblante de Rieux pareceu anuviar-se.
- Sempre, bem sei. Não é uma razão para deixar de lutar.
- Não, não é uma razão. Mas imagino então o que esta peste significa para o senhor.
- Sim - tornou Rieux. - Uma interminável derrota.
Tarrou fixou um momento o médico. Depois levantou-se e caminhou pesadamente para a porta. Rieux seguiu-o. Alcançava-o já quando Tarrou, que parecia olhar para os pés, lhe perguntou:
- Quem lhe ensinou tudo isso, doutor?
A resposta veio imediatamente.
- A miséria.
(...)

Está certo. Mas não se cumprimenta um professor por ensinar que dois e dois são quatro. Talvez o felicitemos por ter escolhido esta bela profissão. Digamos, pois, que era louvável que Tarrou e outros tivessem escolhido demonstrar que dois e dois eram quatro e não o contrário, mas digamos também que essa boa vontade lhes era comum à do professor, que, para honra do homem, são mais numerosos do que se pensa, ou pelo menos esta é a convicção do narrador. Aliás, este compreende muito bem a objeção que lhe poderia ser feita, ou seja, que esses homens arriscavam a vida. Mas chega sempre uma hora na história em que aquele que ousa dizer que dois e dois são quatro é punido com a morte. O professor sabe muito bem disso. E a questão não é saber qual é a recompensa ou o castigo que espera esse raciocínio. A questão é saber se dois e dois são ou não quatro.

Com efeito, os que se dedicaram às comissões sanitárias não tiveram um mérito tão grande em fazê-lo, pois sabiam que era a única coisa a fazer, e não se decidir a fazê-lo é que teria sido incrível. Essas comissões ajudaram os nossos concidadãos a penetrar mais na peste e persuadiram-nos, em parte, de que, uma vez que a doença existia, deviam fazer o necessário para lutar contra ela. Porque a peste se tornava assim o dever de alguns ela surgiu realmente como era, isto é, o problema de todos.

a.c. a peste.

(grifo meu)

sábado, junho 29, 2013

We should be mad as hell...

E se toda a onda de violência e repressão às manifestações passar; se o preço da tarifa baixar, congelar, zerar; se gay não se precisar curar; se MP investigar; se a gente não precisar votar; se D "cair" pra A, S ou M subir; se o Estado encolher ou inchar...

Uma quantidade absurda de pessoas continuará morrendo de fome; uma quantidade absurda de mulheres continuará sendo violentada; uma quantidade surreal de lixo continuará sendo despejada em terras de pessoas que não são pessoas, longe das costas que nossos olhos vêem; crianças continuarão a ser tratadas como marginais pelo crime de terem nascido do lado errado de linhas imaginárias ou sem pilas nas contas bancárias.

E não vão mudar as mãos que controlam tudo isso, não haverá dança nas cadeiras nas salas de quem realmente mexe nisso tudo e tem teias de aranha na bunda de tanto, tanto tempo que está no poder, enriquecendo às custas dos que sempre, sempre, por gerações e gerações, terão e serão menos...

A violência está aí o tempo todo. Surda, muda, para nós, acostumados (à força ou por hábito) a não vê-la e, principalmente, a não senti-la.

Ou enlouquecemos de vez e pra sempre e abrimos os olhos e olhamos até doerem, até haver lágrimas mesmo sem gás, até voltar a não fazer sentido ver uma criança lavando o vidro de seu carro enquanto seu filho está confortavelmente no ar condicionado sendo levado para o colégio que não o fará uma pessoa melhor, ou... Sei lá. Tudo vai continuar exatamente como está. Com algumas camadinhas de cal pra disfarçar.

(E, se não olharmos para o lado certo, continuaremos xingando, cuspindo e batendo nos joão bobo que se nos apresentam como alvos, mártires, bodes expiatórios, algozes, culpados...)

sexta-feira, junho 14, 2013

...

um dos grandes méritos dessa nossa merda de democracia
ou de nossa democracia de merda
é que o mundo não para de girar enquanto coisas surreais estão acontecendo
não para de girar pra irmos ou acompanharmos manifestações
não para de girar quando os países da África são soterrados de lixo tecnológico
não para de girar quando 1 bilhão de pessoas sente fome, todos os dias
dia após dia
ele continua girando
e a gente tem que ficar girando com ele
mantendo a porra da máquina girando
oxalá todos parássemos, um dia
uma, duas, trinta vezes
pelas balas, pelas bombas, pelos cacetetes, pelos semáforos com crianças nas ruas, pelos estupros, pela fome, pela obesidade, pelo photoshop, pelas propagandas de carro, futebol e cerveja
saco.

terça-feira, junho 11, 2013

empiria

Contrariando o ditado, esta noite, em minha rua, todos os gatos eram amarelos.

domingo, junho 02, 2013

hey, hey
rain...

as flores estão fechadas
mas o dia está mais claro do que parece