A realidade às vezes não cai, como ficha. Escorre, viscosa. Demora pra fazer sentido. Você sente um choque inicial, um impacto, mas o resultado é um anestesiamento, uma espécie de câmera lenta de realização e assimilação dos fatos.
E, de repente, um baque surdo, duro, contra o muro.
A concretude das coisas se materializa, inexorável. Imutável. Afinal.
"Ele perdeu um braço."
É chocante, porque torna concretos perdas e abalos quiçá muito mais drásticos, mas imateriais ou intangíveis, e que, talvez por isso, sempre deixem uma sensação de - "calma, talvez dê pra consertar..."
E. De repente. Não. Uma ruptura. Desconcretiza. Desconstrói. Deixa de existir um pedaço. Fere a imagem. Esmigalha?
...
Não dói pra sempre. Não do mesmo modo, ao menos.
Mas o impacto do baque contra algo tão sólido quanto a falta irreversível de algo estremece um bocado. O eco leva mais tempo para serenar do que se realiza.
Realidade.
Estraçalhada contra o concreto asfalto.
Chega a ser surreal.
...
Abraçar. Pegar. Carinho. Olhar-se.
Tudo balança.
...
Com sorte, reestrutura...
Oxalá.