Estava aqui 'inda ontem
abrindo caminho na cama
com suas grandes patas de coelho
Ou sobre a cômoda,
enroscado, rei das roupas
por arrumar.
Sentava-se em minha cadeira
à hora do almoço,
para garantir seu lugar.
Gostava de carinho de pés molhados
após o banho.
De falar e falar.
Não me deixava perder
horários.
Era rosa desbotado
ou salmão.
Enormes pupilas dilatadas
em olhos redondos e amarelos,
dourados,
para caçar barbante.
Escalando pernas e cadeiras
para pedir carinho.
Falava comigo quando
o chamava,
e vinha correndo,
pulando, miando.
Por que tão curto
e unidirecional
o tempo?
Não pude protegê-lo,
colocá-lo no colo,
deixá-lo acionar
seu ronronar de motor.
Não afofam mais
as macias patas
não mais subirá
em minha barriga
ou costas - massagem felina
Não mais seus miados
de abrir porta
ou dar atenção.
(...)
11.09.2013
Eu não consigo reter uma imagem, algo que possa ficar.
Ele é um miado em minha cabeça, soando pela casa.
É um rolinho amarelo desbotado em cima de um monte de roupas.
Um pelo macio. Macio. Macio. Sempre. Quentinho.
Suas patas de coelho e imensos olhos redondos. Amarelos. Pupilas dilatadas para caçar. Ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele uma sequência de d's e alegrias e uma dor que é uma porrada súbita.
E não importa tudo que escreva ou chore ou lembre ou desenhe: nada fará ele voltar.
Sem subir por minhas pernas ou afofar minha barriga.
O abraço tardio não o reteve. Não o protegeu.
Me dá teu colo para eu me enroscar e dormir?
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