terça-feira, julho 12, 2011

"O nosso amor, Ilsebill, tudo aquilo que nós nos sussurramos com voz abafada, escondemos em cartas ou trombeteamos do alto de torres ou pelo telefone, superando o barulho do mar num tom ainda mais baixo do que o imaginado, nosso amor, que cercamos com tanto carinho, que mantivemos secretamente dentro de uma caixa de chapéu no meio de quinquilharias e que era tão visível como um botão que falta, que estava escrito em cada tronco de árvore sob nomes diferentes, ele, o nosso amor, que ontem ainda era palpável, um objeto de uso, nosso cola-tudo, a palavra-chave, a inscrição do banheiro, o vibrante filme mudo, uma prece noturna dita em voz trêmula de camisola, a tecla para adoçar nossa canção de sucesso, ele, que corria descalço pelo capim tremulante, ele que como tijolo pouquíssimo gasto estava encaixado num muro de ruínas, ele, que se perdeu na faxina da casa e, quando procurávamos outra coisa, foi achado entre outras justificações usuais, fantasiado de apontador, ele, nosso amor, que nunca acabaria, não existe mais, Ilsebil. Ou ele só é possível, provável, sob certas condições. Ou ele existe ainda - mas em outra parte. Ou ele nunca existiu e por isso ainda seria imaginável."
Grass, Günter. O Linguado. 2a. edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983. pág. 430

/* Não é que me sinta assim nem nada. Mas esse cara escreve d'um jeito que gosto... */