quarta-feira, maio 25, 2016

25.05.2016

Quero colocar o amor em uma caixa.
Vou juntar as pontas, dobrar.
Arrumar cada caquinho em seu lugar.

- Não é hora de tentar colar nada.

Mas tampouco poderia jogá-lo fora:
afinal, é amor, ainda!

As peças parecem uma bagunça
    sem conserto
Tudo parece perdido
    para além de qualquer esperança
Mexer, nem pensar:
    as bordas cortam.

E, entretanto, aquela coisinha ali,
    meio perdida e deslocada,
    foi um sorriso.
    Acolá brilha um dia na praia.
    Ainda fumega o sonho do café compartido.
    E o cacto, de espinhos macios, tem raízes próprias.

Como poderia condenar tanta dádiva ao desleixo?

Não posso.
Não quero.

Mas como cuidar do amor
    despedaçado
        dolorido?

Não é lixo.
Nem prisão.

Tampouco esquecimento...

Vou aconchegar meu amor em uma caixa.

Dar-lhe repouso.
Espaço.
Tempo.

quinta-feira, maio 19, 2016

Monólogo

Eu errei o ponto
    perdi o ponto
    recuperei
Eu não sei como fazer
    para consertar
    alguns
    pontos
Sem ter de desfazer tudo...

Eu tenho andado não muito
                                   rápido.
Eu passei por um buraco,
                 mas não caí.

Eu tomei café.
Eu assisti a um filme
                          que me fez gargalhar
Eu ouvi uma música

... que me lembrou você.

Duas.
Três.

Eu não comi os doces.
Olhaeuachoqueelesvãoestragar.

Eu não sou
      você não é
  Eu queria que a gente tivesse
                   que a gente pudesse

Eu não falei
      você não fala

As coisas não ditas vão
     se acumulando
     como água parada
     - vão se embolando feito trem descarrilhado?
Vez em muito me transbordo.

O peito apertadói
             aslágrimasnãocabem

O vazio
  o silêncio
  a falta
     apertam no peito

E eu não caibo. Não me encontro.
Não faço parte de nada...

E fico querendo ir embora.
Ir embora.
Estar longe
    ocupar-me.
Mudar.
- fingir que não fazes parte porque já não são os mesmos lugares, os mesmos espaços?

O peito se enche.
Esvazia.
Lentamente.
Só eu escuto...