quinta-feira, agosto 30, 2012

Do abismo do asfalto

As cidades são monstros abissais famintos. Seu principal alimento é o tempo alheio, o tempo mal gasto. Suas vias engarrafadas são os tentáculos que nos mantêm em suas armadilhas. Nutrem-se de nossas frustrações, do tempo que não dedicamos em a ir ao cinema, ou beijar a namorada, ler um livro de poemas, beber um conhaque com os amigos. O tempo sem nossos filhos, sem trabalhar no que acreditamos. É disso que essas criaturas odiosas tiram sua subsistência. É assim que estas criaturas odiosas lidam com seu insaciável apetite.

E todas as noites, como num eterno equilíbrio ou retorno, Morpheus nos realimenta as almas de sonhos e esperanças, para serem devorados, uma vez mais, a cada minuto que se arrasta, travestido de correria, nas entranhas labirtínticas das grandes cidades.

Temporais


Acordei buscando água, como se fosse uma bêbada. 05:23 da manhã. O que me fizera acordar àquela hora?

A tempestade do lado de fora fazia tanta bagunçava que me surpreendi por ter conseguido dormir. Lembrei do barulho de coisas quebrando que ouvira ainda no estágio de quase sonho. Levantei e fui vasculhar a casa.

Havia goteiras no teto de concreto, que haviam sido cobertas com panos, para amenizar a situação. Na sala, a parte superior do quadrante de alumínio da janela havia sido destroçada e distorcida por um raio. Continuando a vasculhar a casa, encontro um amigo em um dos quartos dos fundos, deitado na cama. Quero parar e ficar ali com ele, confortando-o, aquecendo-o. Mas uma mensagem de celular de outro amigo - com quem estou em falta - me deixa ansiosa e dividida.

Enquanto isso, um outro amigo, um grande amor, estava de mãos dadas comigo andando por todos esses lugares - e também me sentia perdida por isso, sem saber assumir o que queria. A casa toda era um grande caos por conta do temporal que acontecia no exterior. Havia amigos e pessoas em vários cômodos, fugidas e abrigadas da chuva. Em um dos quartos, meu irmão me mostrou vários aquários empilhados, solução que ele encontrara para salvar o Beta que tínhamos. Havia muito mais peixes do que jamais tivéramos, misturados em aquários sujos. Alguns estavam mortos. Preocupei-me com aquilo, mas de repente minha atenção já se voltava para outro lugar.

Pela janela, alguém me mostrava todos os carros que tinham estacionado onde antes nada havia. Eram muitos e todos pareciam tão limpos e alinhados que era como olhar para o pátio de uma concessionária. Em nosso quintal.

Em algum espaço que deveria ser o teto, ou o sótão, objetivos e traços inanimados faziam sua própria aventura. Vi riscos na parede formarem-se sozinhos e seguirem um caminho confuso, guiando algo que não consegui identificar direito, de uma mesinha até o topo de uma pequena estante de parede. Estavam em um universo à parte - não estava molhado, nem escuro, nem havia pessoas por lá. Apenas os objetos, em inesperadas ações.

Entrementes, minha atenção continuava dividida entre entes queridos. Não era capaz de evitar todo aquele turbilhão, ainda que quisesse muito um período de calma para poder pensar em tudo aquilo. Precisava entender-me e decidir o que fazer em meio a tudo aquilo, com a bagunça, a mistura, o caos, a água, os distintos amores.

Acordei com a sensação longínqua de perda ou tristeza. 09:50. Acho que sei o que era. O sonho ainda me preenchia. Ainda não sabia o que fazer. Mas o dia prosseguiria.

Papéis

Acordei buscando água, como se fosse uma bêbada. 05:23 da manhã. O que me fizera acordar àquela hora?

Alguém se mexeu a meu lado. Levei a mão à cabeça, como se o gesto pudesse me fazer recobrar a sobriedade. O quarto cheirava bem. Um aroma doce de incenso. Não estava totalmente escuro, uma luz de vela bruxuleava perto do porta retratos...

Me remexi na cama, a razão voltando de um baque. Aquela cama não era minha. Aquele cheiro doce não fazia parte de nenhum cômodo de minha casa. A pessoa no porta-retratos era familiar. Tentei umedecer os lábios, enquanto fazia a máquina da memória funcionar, mas a boca estava seca demais. Fora atrás de água que havia acordado, afinal. Saí da cama. O quarto tinha uma atmosfera rosada. Nem a camiseta que usava era minha. Corri os olhos pelas paredes. Duas portas. Qual seria a do banheiro? Lembrava vagamente de um banho, antes de... acordar com sede.

Na que estava de frente para a cama, o carpete do quarto continuava por baixo. Abri a outra, então. Fechei a porta atrás de mim, tateei até a pia e bebi água dali mesmo. Sentei no vaso e fiquei revirando a noite anterior na cabeça. Ao menos fora naquele banheiro que havia tomado banho - reconheci o toque do tapete áspero com os pés.

Ouvi passos abafados e a porta do banheiro se abriu. Reconheci a garota do porta retrato. Seu sorriso dizia muitas coisas. Ela se aproximou sem falar, com aquele sorriso que mal me deixava pensar no que eu devia estar achando de tudo aquilo. Sentou de pernas abertas sobre mim, ali, de qualquer jeito, já me beijando.

Alguma parte minha devia estar pensando que tinha algo muito errado ali, porque eu sou gay e travesti desde sempre. Mas a verdade é que correspondi com uma paixão que senti poucas vezes antes na vida, e ela parecia saber muito bem que eu faria isso. Beijei-a como se fosse hétero. Outra hora pensaria se deveria sair do armário.

segunda-feira, agosto 27, 2012

Repetições

O motorista
do caminhão de lixo
era branco
os que catavam os detritos
não.

domingo, agosto 26, 2012

Pesadelo

Acordei buscando água, como se fosse uma bêbada. 05:23 da manhã. O que me fizera acordar àquela hora?

Aos poucos as imagens do sonho foram retornando. Primeiro apenas flashes. Depois, cada vez mais nítidas: pernas entrelaçadas embaixo do chuveiro, uma coxa grossa apertando meus quadris, que se remexiam na busca por mais prazer - meu, dela. Levantei, ainda imersa na tensão do banheiro onírico.

Apertei os olhos com os dedos. Queria que tudo aquilo sumisse. Queria que alguém me pegasse daquele jeito, me desejasse, queria desejar a pessoa de volta, na mesma intensidade. Queria gritar, implorar para que alguém me desse prazer, para que alguém quisesse me dar prazer. Ali, já. Algum aspecto louco e infantil começou a percorrer em minha mente possíveis conhecidas ou conhecidos a quem pudesse recorrer.

Como se chega para alguém e pede - Oi, bom dia, dormiu bem? Olha, não tenho muito como explicar agora, mas... quer transar? Não, tudo bem, eu te pego - onde você está? Não funciona. Não no meu mundo. Entrei debaixo do chuveiro de calcinha, água fria, mesmo. Se morasse sozinha, acenderia um cigarro. Se fosse a Rê Bordosa, daria pro primeiro garçom que encontrasse.

Suspiro de novo. Tremo, pulo para espantar o frio. Respiro fundo e entoo um mantra mental para que o desejo saia de meu corpo, junto com a água que escorre e me arrepia. Fecho os olhos, ensaio uma carícia enquanto tiro a calcinha. Não vai funcionar. Quero mais do que isso. 

Lavo o rosto, jogando bastante água e esfregando-o com força. Desligo o chuveiro. Toalha, roupas, café, bichos, dentes, rua, sol. Deixo o tesão na gaveta. Não tenho onde encaixá-lo, de novo, neste dia. Urrarei meu grito desesperado pra dentro. E que um dia eu me exploda em milhões de tesõesinhos.

sexta-feira, agosto 24, 2012

Continuar correndo

Acordei buscando água, como se fosse uma bêbada. 05:23 da manhã. O que me fizera acordar àquela hora?

De tarde, já na rua, tive mais uma vez a mesma revelação que tenho tantas e tantas vezes, reiteradamente - a cidade é uma enorme favela. Queria parar e tirar uma foto: os morros tomados de casebres amontoados. Ao longe, à esquerda - em direção ao centro novo da cidade - edifícios altos e ricos.

Desci o viaduto ainda observando e refletindo sobre a paisagem. A respiração estava difícil: sentia-me ansiosa e culpada por estar atrasada para o trabalho. Queria correr, mas como? A chuva transformara a cidade em uma sucessão de engarrafamentos. As casinhas coloridas e amontoadas ainda me perseguiam: como podemos ficar sem ver tão facilmente? Como ficamos sem ver os barracos, as crianças na rua, os buracos, os alagamentos que se formam com qualquer chuva mais forte...?

Respirei fundo e forçadamente mais uma vez - ansiedade, aflição. Os carros todos se amontoam e atropelam: é preciso continuar correndo. Nos fazem parar para que precisemos voar tão logo haja tempo ou espaço livre. E se passamos correndo, não vemos. Passamos correndo pelas subconstruções que tomam conta do horizonte. Passamos correndo pelos buracos que habitam indiscriminadamente as ruas. Passamos correndo pelas pessoas tomando chuva enquanto esperam ônibus atrasados.

Passamos correndo na hora de entrar nesses mesmos ônibus e não olhamos para o sujeito que vai passar umas oito horas de seu dia ali, fazendo papel de máquina. Passamos correndo pela festa com os amigos que de repente é só um momento de torrar os miolos com música alta e bebida demais - e interações verdadeiras de menos. Passamos correndo pelas propagandas políticas coloridas, mentirosas e invasivas - que se tornam mais presentes na mesma medida em que crescem nossa frustração, indignação e descrença no governo. Em qualquer governo.

Andamos desgovernados, em carros desgovernados, crescimentos desgovernados, corpos desgovernados, vidas desgovernadas. Estamos a mil por hora e vamos bater num muro que não vemos porque estamos ocupados demais.

Mas precisarei continuar correndo. Estou atrasada, no meio do trânsito no meio da vida no meio da tarde, e o horário de trabalho já começou.

terça-feira, agosto 07, 2012

Salvapantallas

Tengo tu voz,
tengo tu tos,
oigo tu canto en el mío.

Rumbos paralelos,
dos anzuelos
en un mismo río.

Vamos al mar,
vamos a dar
cuerda a antiguas vitrolas.

Vamos pedaleando
contra el viento,
detrás de las olas.

Tengo una canción
para mostrarte,
talvez cuando vaya….
Tengo tu sonrisa
en un rincón
de mi salvapantallas.

Años atrás
de pronto la casa
se llenó de canciones.

Músicas y versos
que brotaban
desde tantos rincones.

Vamos al mar,
vamos a dar
guerra con cuatro guitarras.

Vamos pedaleando
contra el tiempo,
soltando amarras.

Brindo por las veces
que perdimos
las mismas batallas.

Tengo tu sonrisa
en un rincón
de mi salvapantallas.


j.d.