quarta-feira, dezembro 30, 2009

Preâmbulo às instruções para dar corda no relógio


Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente esse miúdo quebra-pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você - eles não sabem, o terrível é que não sabem - dão a você um pedaço fŕagil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obessão de olhar a hora certa nas vitrines das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniverśário do relógio.

Julio Cortázar.

Ela dói diferente

Não posso dizer que aconteça sempre.

Corrijo-me: sim, houve um tempo em que o era. Intensamente.

Hoje são esporádicas.

Sempre que dói, entretanto, é presente. A sensação de chumbo do agora e de um passado, de momentos separados por uma corrente inexorável e ingênua. A ponto de dar cores surreais e andar de sonho a tudo que aconteceu.

Ela dói diferente. Dói de verdade.

E é um misto de vontade de pedir desculpas e de dizer que não fiz nada de errado, e de sensação de que nunca saberei o que dizer.

E no fim das contas as lágrimas viram as reticências da dor dessa história que vou levar comigo.

terça-feira, dezembro 29, 2009

um dia

Seus olhos se encontraram. Não seria possível falar em amor, mas um princípio era inegável. Princípio de quê? Amizade. Curiosidade. Identificação...

E muito se conversou, e eram muitos os esforços para algo crescer, para tudo deixar de ser apenas princípio. E poucos souberam, mas caminhou-se até o meio.

E por mais que nunca tenham conversado com tranquilidade sobre o assunto, ainda que os acontecimentos daquele dia estejam para sempre esfumaçados e envoltos em surrealidade sutil, tudo de fato ocorreu.

Dali se poderia dizer que tudo mudaria, que laços haviam sido criados e - mais importante que isso - a abertura e a reciprocidade, a despeito de receios e timidezes, estavam ali, palpitantes.

Dali se poderia dizer que tudo mudaria, mas talvez só uma pessoa pudesse dizer que aquele fora precisamente o início do desandar da carruagem. Talvez nem essa personagem o pudesse. Apesar do inegável retraimento, poder-se-ia dizer que ainda ali havia, no mínimo, uma equilibrada mistura entre curiosidade e receio.

Mas as doses e ritmos de cada um dificilmente acompanham um mesmo compasso. E somente uma pessoa poderia dizer que teria se jogado de cabeça, naquele momento, se alguém tivesse dito que iria com ela.

E em verdade mesmo, um mergulho chegou a ser ensaiado. Foram dias ensolarados, laranjas, de brisa e leveza e anseios. E despertares e aromas e jardins.

Em uníssono, poder-se-ia ouvir corações, estômagos e pulmões atrapalhados em parar, respirar, bater, contrair-se, ficarem nervosos, ocuparem-se em dispersar a adrenalina, em disfarçar, em ir adiante, em não parar.

Caminhos desconhecidos trilhados, descobertas, encontros, novos arranjos e hipóteses e possibilidades. E toda uma nova paleta de modos de olhar e sorrir e entender o modo de ser das coisas e os bom dias... Em um dia que não aconteceu.

O que a alguns faz voar, outros prende ao chão. No preciso dia em que mais portas se abriam, tantas outras se fecharam, quem sabe se não precisamente no mesmo movimento.

As portas abriram-se como que numa dança de desencontros, aqui abrindo, ali fechando, para dar passagem ao outro lado...

Então há sumiços e silêncios. E palavras não ditas, ou pela metade. E preferências.

E lembranças esquecidas, medos, um leve aroma de vinho envelhecido.

O mergulho foi em água fria e dura. E, infelizmente, lançou um quê de amargo ao sabor de tudo que lhe suscitara.

terça-feira, dezembro 22, 2009

o que não é de minha conta, fora de meu caminho está.

ou algo que o valha.

sexta-feira, dezembro 18, 2009

Como diz Sônia Hirsch

A saúde é subversiva porque não dá lucro a ninguém.

---

(Dowbor concorda)

quarta-feira, dezembro 16, 2009

por que diabos uma coisa dessas resolve me afetar?

nem faz parte de minha vida.

eu achei que fosse isso... na verdade, sei lá, não gostaria que fosse.

e meu peito ficou apertado e me sinto....

estranha.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

For Delirium was once Delight. And although that was long ago now, even today her eyes are badly matched; one eye is a vivid emerald green, spattered with silver flecks that move; her other eye is vein blue. Who knows what Delirium sees, through her mismatched eyes?

N.G.