domingo, junho 30, 2013

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- Afinal... - continuou o médico, e voltou a hesitar, olhado para Tarrou com atenção. - É uma coisa que um homem como o senhor consegue compreender, não é verdade? Já que a ordem do mundo é regulada pela morte, talvez convenha a Deus que não acreditemos nele e que lutemos com todas as nossas forças contra a morte, sem erguer os olhos para o céu, onde ele se cala.
- Sim - concordou Tarrou -, compreendo. Mas as suas vitórias são sempre efêmeras, nada mais.
O semblante de Rieux pareceu anuviar-se.
- Sempre, bem sei. Não é uma razão para deixar de lutar.
- Não, não é uma razão. Mas imagino então o que esta peste significa para o senhor.
- Sim - tornou Rieux. - Uma interminável derrota.
Tarrou fixou um momento o médico. Depois levantou-se e caminhou pesadamente para a porta. Rieux seguiu-o. Alcançava-o já quando Tarrou, que parecia olhar para os pés, lhe perguntou:
- Quem lhe ensinou tudo isso, doutor?
A resposta veio imediatamente.
- A miséria.
(...)

Está certo. Mas não se cumprimenta um professor por ensinar que dois e dois são quatro. Talvez o felicitemos por ter escolhido esta bela profissão. Digamos, pois, que era louvável que Tarrou e outros tivessem escolhido demonstrar que dois e dois eram quatro e não o contrário, mas digamos também que essa boa vontade lhes era comum à do professor, que, para honra do homem, são mais numerosos do que se pensa, ou pelo menos esta é a convicção do narrador. Aliás, este compreende muito bem a objeção que lhe poderia ser feita, ou seja, que esses homens arriscavam a vida. Mas chega sempre uma hora na história em que aquele que ousa dizer que dois e dois são quatro é punido com a morte. O professor sabe muito bem disso. E a questão não é saber qual é a recompensa ou o castigo que espera esse raciocínio. A questão é saber se dois e dois são ou não quatro.

Com efeito, os que se dedicaram às comissões sanitárias não tiveram um mérito tão grande em fazê-lo, pois sabiam que era a única coisa a fazer, e não se decidir a fazê-lo é que teria sido incrível. Essas comissões ajudaram os nossos concidadãos a penetrar mais na peste e persuadiram-nos, em parte, de que, uma vez que a doença existia, deviam fazer o necessário para lutar contra ela. Porque a peste se tornava assim o dever de alguns ela surgiu realmente como era, isto é, o problema de todos.

a.c. a peste.

(grifo meu)

sábado, junho 29, 2013

We should be mad as hell...

E se toda a onda de violência e repressão às manifestações passar; se o preço da tarifa baixar, congelar, zerar; se gay não se precisar curar; se MP investigar; se a gente não precisar votar; se D "cair" pra A, S ou M subir; se o Estado encolher ou inchar...

Uma quantidade absurda de pessoas continuará morrendo de fome; uma quantidade absurda de mulheres continuará sendo violentada; uma quantidade surreal de lixo continuará sendo despejada em terras de pessoas que não são pessoas, longe das costas que nossos olhos vêem; crianças continuarão a ser tratadas como marginais pelo crime de terem nascido do lado errado de linhas imaginárias ou sem pilas nas contas bancárias.

E não vão mudar as mãos que controlam tudo isso, não haverá dança nas cadeiras nas salas de quem realmente mexe nisso tudo e tem teias de aranha na bunda de tanto, tanto tempo que está no poder, enriquecendo às custas dos que sempre, sempre, por gerações e gerações, terão e serão menos...

A violência está aí o tempo todo. Surda, muda, para nós, acostumados (à força ou por hábito) a não vê-la e, principalmente, a não senti-la.

Ou enlouquecemos de vez e pra sempre e abrimos os olhos e olhamos até doerem, até haver lágrimas mesmo sem gás, até voltar a não fazer sentido ver uma criança lavando o vidro de seu carro enquanto seu filho está confortavelmente no ar condicionado sendo levado para o colégio que não o fará uma pessoa melhor, ou... Sei lá. Tudo vai continuar exatamente como está. Com algumas camadinhas de cal pra disfarçar.

(E, se não olharmos para o lado certo, continuaremos xingando, cuspindo e batendo nos joão bobo que se nos apresentam como alvos, mártires, bodes expiatórios, algozes, culpados...)

sexta-feira, junho 14, 2013

...

um dos grandes méritos dessa nossa merda de democracia
ou de nossa democracia de merda
é que o mundo não para de girar enquanto coisas surreais estão acontecendo
não para de girar pra irmos ou acompanharmos manifestações
não para de girar quando os países da África são soterrados de lixo tecnológico
não para de girar quando 1 bilhão de pessoas sente fome, todos os dias
dia após dia
ele continua girando
e a gente tem que ficar girando com ele
mantendo a porra da máquina girando
oxalá todos parássemos, um dia
uma, duas, trinta vezes
pelas balas, pelas bombas, pelos cacetetes, pelos semáforos com crianças nas ruas, pelos estupros, pela fome, pela obesidade, pelo photoshop, pelas propagandas de carro, futebol e cerveja
saco.

terça-feira, junho 11, 2013

empiria

Contrariando o ditado, esta noite, em minha rua, todos os gatos eram amarelos.

domingo, junho 02, 2013

hey, hey
rain...

as flores estão fechadas
mas o dia está mais claro do que parece