sábado, outubro 29, 2011

Estação das Chuvas


Localizada em região de clima tropical atlântico, Salvador era conhecida por ter duas estações: inferno e verão. Esta última se estendia por todos os meses do ano em que não se estava no verão oficial.
Como em qualquer cidade assim caracterizada, sua estação das chuvas era o inverno. Mas quase não havia chovido, aquele ano. Um dia, já na primavera, uma insuspeitada onda de frio chocou-se contra a cidade. Nos primeiros dias, todos acharam que fosse uma frente fria fora de época, coisa comum.
Quando se completou uma semana de chuva sem tréguas, todas as ruas já mostravam o resultado de uma infraestrutura planejada apenas para dias de sol. O primeiro mês encerrou-se com desabamentos, lojas fechadas, hospitais abarrotados. Com 45 dias foi declarado estado de calamidade pública. A chuva não cedia. As autoridades se preocupavam com o Carnaval...
Aos poucos, as pessoas começaram a sacudir a umidade de seu ânimo, e foram criando adaptações, do jeito que dava.
Então, ela parou. Não a chuva – a escritora. Não fazia sentido continuar aquela história. O argumento era sem sal, o enredo sem textura e, na verdade, já fazia um calor de fritar os miolos... Era impossível ter qualquer envolvimento, portanto, com o tema.
Deixou as linhas já escritas de lado e tratou de cuidar da vida. E assim seguiu, até que se deu conta de que, ainda que o clima esquentasse, faziam  já três semanas de chuvas. Bem verdade que esporádicas e localizadas, mas, ainda assim, diárias. Ainda assim, chuvas: molhadas, torrenciais, nos horários mais inconvenientes.
Talvez... Seria possível que ela tivesse algo a ver com aquilo? Deveria voltar ao conto, dar-lhe um fim? Decidiu que faria isso assim que chegasse o fim de semana. Quando se viu em frente àquelas frases esquisitas e sem atrativos, percebeu que seria incapaz de continuar: a história, ainda que tivesse brotado dela, não lhe cativava. Não tinha qualquer laço afetivo, qualquer traço distante de compaixão maternal.
Sequer tentou emendar o que escrevera. Sem pensar duas vezes, sentou-se em frente ao computador e começou a trabalhar diligentemente, compenetrada. Ao final, respirou aliviada. Ainda se preocupou em ir até o banheiro, rasgar cuidadosamente o conto. O fogo ateou-se rapidamente no papel encharcado de álcool. Só deu o ritual por terminado quando restavam apenas cinzas. Então, lavou as mãos e o rosto, abriu o basculante para arejar a fumaça, e não pensou mais no assunto.
Nos dias seguintes, se tivesse acompanhado o jornal, teria ficado sabendo que as chuvas continuaram. Mas não o fizera: estava muito ocupada resolvendo as questões da mudança.
Uma semana depois de ter queimado o conto, sentou-se na poltrona do avião para São Paulo e fechou os olhos. Estava cansada da confusão de realocar toda sua vida para outra cidade, outro clima, outras pessoas. Não mais voltou a Salvador.
Isso aconteceu há mais de um ano. Ainda ontem falei com ela. Disse-lhe que continua chovendo todos os dias, mas que estamos nos acostumando. No começo, ela ainda pedia desculpas, dizendo que sentia muito, mas era incapaz de resolver aquilo. Ontem, abriu um sorriso sarcástico, acendeu um cigarro e disse que a chuva até que nos tem feito bem... e que não tenho nenhuma prova contra ela.
Ela tem razão.

(finalizado em Salvador, 29 de outubro de 2011)

quarta-feira, outubro 26, 2011

A vida prática não tolera ser mantida em suspenso por uma eterna contradição.
Jung

segunda-feira, outubro 24, 2011

aminoácidos vs. bife

Talvez eu já devesse saber, dado o modo como normalmente ocorrem as coisas neste mundo que surgiu para servir ao homem. Mas a verdade é que ainda hoje estava pensando que, se resolvesse parar de consumir diversos produtos por "não concordar com o que representam", ainda poderia continuar a beber tequila (dos destilados que conheço, o melhor).

Por isso não foi sem desapontamento que li a matéria do Envolverde que apresentava sucintamente os efeitos maléficos da indústria de tequila a solo e água mexicanos. Na verdade são contaminações que poderiam ser evitadas se os industriais fossem mais responsáveis, ou seja, é algo contornável. Felizmente para os neoliberais, a Terra está aqui para servi-los, e provavelmente deus dar-lhes-á outra, caso esta acabe antes do prazo, então, os caras continuam a produzir sem maiores preocupações - a não ser com uma multa aqui ou acolá por descumprir os ditames ambientais do governo mexicano.

Fim do post prolixo. Boa noite.

Ah, duas fontes interessantes:
Revista Digital Envolverde - http://envolverde.ig.com.br/#
Todos los Tequilas de Mexico, de la A a la Z - http://www.tequila-z.com/

Have you ever been in love?

“Have you ever been in love? Horrible isn't it? It makes you so vulnerable. It opens your chest and it opens up your heart and it means that someone can get inside you and mess you up. You build up all these defenses, you build up a whole suit of armor, so that nothing can hurt you, then one stupid person, no different from any other stupid person, wanders into your stupid life...You give them a piece of you. They didn't ask for it. They did something dumb one day, like kiss you or smile at you, and then your life isn't your own anymore. Love takes hostages. It gets inside you. It eats you out and leaves you crying in the darkness, so simple a phrase like 'maybe we should be just friends' turns into a glass splinter working its way into your heart. It hurts. Not just in the imagination. Not just in the mind. It's a soul-hurt, a real gets-inside-you-and-rips-you-apart pain. I hate love.”
n. g.

/* Eu gosto do amor. E sou um pouco mais Sartriana que Saint-Exupéry (ou Gaiman nessa citação). Quer dizer, eu acho que o outro não é culpado, por assim dizer, de sofrermos porque gostamos. Não a priori, quero dizer. Mas já chorei no escuro e já perdi o chão e já me senti quebrada e partida e vazia por dentro. E já acordei pra dias sempre cinza, independente da cor do céu mostrada pela janela... */

sábado, outubro 22, 2011

Tema pra conto

Quase não havia chovido em Salvador, naquele ano. Localizada em região de clima tropical atlântico, a cidade tinha como características duas estações: inferno e verão. Esta última cobria todos os meses do ano em que não se estava no verão oficial, incluindo o inverno.
Esse clima particular fazia com que (...)

corta.

/* melhor resumir logo e pegar depois: */

Mal tinha chovido em Salvador, naquele ano.
Um dia, já na primavera, uma insuspeitada onda de frio chegou à cidade. Nos primeiros dias, todos acharam que fosse uma frente fria fora de época, mas passageira.

Quando se completaram duas semanas de chuva sem tréguas, com os problemas transbordando mais do que as já inundadas ruas, as autoridades começaram a se preocupar.

Ao fim do segundo mês, as pessoas aos poucos começavam a se conformar com a situação e a procurar formas de lidar com o novo clima de sua cidade.

(...)

agora eu preciso lembrar de continuar.

quarta-feira, outubro 19, 2011

Das mudanças

A gente se envolve e apega. Pelas mais curiosas coisas.

Quem diria que sentiria um aperto no peito com a possibilidade de mudar o modelo deste blog? De repente, é como se fazer isso, por si, já significasse deixar para trás alguns aspectos de mim, tudo que foi vivido até então, como se me afastasse de algo que gosto perto. Como se me tornasse mais independente, e isso pudesse quebrar coisas por dentro (e por fora).

Mas - como pode? É só um bendito esquema de cores, fontes, design e arrumação que por vezes posso passar semanas sem sequer lembrar da existência.

Seres curiosos somos nós. Há sempre muito que aprender, mesmo...

Caminhada noturna

Andando pela rua deserta pela chuva, vi gatos, cavalos, seres humanos, babacas e outros bichos.

E lixo e cheiro de mijo também...

terça-feira, outubro 18, 2011

De foco e ser antissocial

Mais do que "nunca" tenho experimentado a sensação de não querer participar de alguns eventos sociais. Encontros com muitas pessoas, sem muito foco, ou com muito foco em simplesmente estar junto e conversar aleatoriedades e beber e ficar nesse ciclo até acabar a conversa - ou a bebida - têm me soado quase desnecessários.
O que gosto: estar com amigos, para conversar sobre interesses comuns. Fazer as coisas que tenho de fazer. Ver algum filme. Ambientes mais familiares (não de família, mas de fazer sentido com quem sou, neste momento). O que me incomoda: desvios muito grandes de rota que não levam a locais tão interessantes assim para justificar a fuga de tema.
No meio disso, preciso encontrar a medida certa que me permite não magoar meus amigos, nem me afastar demais de quem sou.

terça-feira, outubro 04, 2011

Pra dizer um dia desses

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

c.d.a.