terça-feira, dezembro 20, 2011

Viagem

Faço as malas.

Na bagagem, um tanto de angústia
e apreensão
medo do esquecimento,
boas lembranças

pessoas que ficarão...

domingo, dezembro 18, 2011

A gente vive assim: sempre acabando o que não tem fim
h.g.

quinta-feira, dezembro 15, 2011

Auto-retrato

Você é sempre rápida em apedrejar e lançar à prancha, em aumentar a voz. A maioria tem medo. Você tem sorte de serem poucos os que retribuem na mesma moeda. Pois sabe que a fariam chorar.

Às vezes você anseia por ocasiões assim. Anseia por esta ou aquela circunstância que lhe darão alguns parafusos a mais para o juízo, que lhe farão respeitar mais o que as pessoas sentem. Aconteceram poucas vezes. E a verdade é que até agora você não mudou.
Por que tão agressiva? Por que tão sem medidas para atacar? Quantas vezes será necessário fazer e arrepender-se para que mude, enfim? Será sempre como o viciado, que se excede, bate, maltrata, depois, envergonhado, vem pedir perdão? Ou será capaz de ceder ao bom senso antes de ser necessário desculpar-se...?

Não quero ser assim pra sempre. Quero me compreender, aprender, melhorar... Não sou melhor que os outros, preciso parar de ser arrogante e grossa.

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Embaçado

Tenho isso biológica e fisiologicamente, e ontem pela primeira vez me perguntei se essa característica talvez não se extenda também, em alguma medida, a meu comportamento:
sempre que olho de modo muito fixo para algum ponto, minha visão desfoca. Agora, como posso concentrar minha visão em algo, se ao fazê-lo já não consigo ver aquilo com nitidez? Será por isso que tenho tanta dificuldade em me manter concentrada em uma coisa...?

Ou será que estou, mais uma vez, apenas encontrando uma desculpa que me permita ser auto-condescendente?

Seja como for, tenho de aprender a lidar com isso - rapidamente.

Escrever

Sobre laços
espaços
relacionamentos
entrelaçamentos

segunda-feira, dezembro 12, 2011

Se ela mergulhar no espelho, será em busca de si mesma

Desde cedo, sentindo que algo está diferente internamente. Não sei precisar do que se trata, não parei para olhar com calma pra dentro. Não silenciei para ouvir as inquietações que reviram o peito. Não fechei os olhos para entender se é angústia ou ansiedade ou insegurança ou medo do novo ou saudade do conhecido ou algo que ainda não vi. Não me perguntei se era algo comigo ou com outrem.
Nada fiz. Espiei de rabo de olho enquanto me ocupava com outros assuntos. Se me tivesse olhado nos olhos, talvez tivesse desviado o olhar.

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Se me aquietar, fechar os olhos e escutar, saberei que preciso escrever. Saberei que preciso reencontrar o eixo de estar só comigo mesma, sem interferências externas, sejam quais forem, saberei que ainda preciso me esforçar pra aprender a estar quieta, saberei que apesar de ansiar a tranquilidade, volta e meia busco a inquietação.

Saberei que quero uns dias pra fazer o que der na cabeça, sem compromissos ou prazos externos. Saberei que talvez esteja querendo fugir pra olhar de fora minha trilha, pra ver se consigo entender os caminhos que estou tentando trilhar.

E que essa incapacidade de me centrar, de me focar, de andar em linha reta em direção a um ponto claro quer dizer que...
ainda não sei o que significa.

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Ela se envolveu em tantos projetos distintos e distantes, que agora quer voltar para si e já não sabe o caminho. Ela se trancará em seu quarto sem teto ou paredes, ela buscará um espaço só seu, e se isolará do mundo por uma noite ou uma hora ou uma semana e, sem dormir, consumirá chá, conhaque, café e outras coisas estimulantes que comecem com a letra c. E negará tudo que não seja ela mesma, que não lhe seja familiar.

Buscará conforto em músicas estranhas. Porque músicas estranhas não trazem lembranças, estão imaculadas de qualquer emoção anterior.
Deixará o tempo passar mais uma vez, fugindo do que precisa ser feito, em busca do que não tem nome ou forma ou cheiro ou cor, mas lhe inquieta. Olhando, sem realmente enxergar, a sensação de que algo está errado, fora do lugar, diferente do que lhe faz ou faria bem.

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Fechar os olhos e tatear no escuro os passos que já deu, até encontrar um espaço conhecido, um ponto que faça sentido, um novo lugar por onde começar.

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O que se passa...?
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Onde estou?

terça-feira, novembro 29, 2011

A gente é isso - equilíbrios delicados de coisas confusas de lidar e entender...

Também eu. Talvez em demasia, às vezes. Estar em relação é estar sujeito a esses delicados equilíbrios... E ao que suas instabilidades causam, internamente...

segunda-feira, novembro 21, 2011

"Ela era ela era ela no centro da tela daquela manhã
Tudo o que não era ela se desvaneceu
Cristo, montanhas, florestas, acácias, ipês"

sábado, outubro 29, 2011

Estação das Chuvas


Localizada em região de clima tropical atlântico, Salvador era conhecida por ter duas estações: inferno e verão. Esta última se estendia por todos os meses do ano em que não se estava no verão oficial.
Como em qualquer cidade assim caracterizada, sua estação das chuvas era o inverno. Mas quase não havia chovido, aquele ano. Um dia, já na primavera, uma insuspeitada onda de frio chocou-se contra a cidade. Nos primeiros dias, todos acharam que fosse uma frente fria fora de época, coisa comum.
Quando se completou uma semana de chuva sem tréguas, todas as ruas já mostravam o resultado de uma infraestrutura planejada apenas para dias de sol. O primeiro mês encerrou-se com desabamentos, lojas fechadas, hospitais abarrotados. Com 45 dias foi declarado estado de calamidade pública. A chuva não cedia. As autoridades se preocupavam com o Carnaval...
Aos poucos, as pessoas começaram a sacudir a umidade de seu ânimo, e foram criando adaptações, do jeito que dava.
Então, ela parou. Não a chuva – a escritora. Não fazia sentido continuar aquela história. O argumento era sem sal, o enredo sem textura e, na verdade, já fazia um calor de fritar os miolos... Era impossível ter qualquer envolvimento, portanto, com o tema.
Deixou as linhas já escritas de lado e tratou de cuidar da vida. E assim seguiu, até que se deu conta de que, ainda que o clima esquentasse, faziam  já três semanas de chuvas. Bem verdade que esporádicas e localizadas, mas, ainda assim, diárias. Ainda assim, chuvas: molhadas, torrenciais, nos horários mais inconvenientes.
Talvez... Seria possível que ela tivesse algo a ver com aquilo? Deveria voltar ao conto, dar-lhe um fim? Decidiu que faria isso assim que chegasse o fim de semana. Quando se viu em frente àquelas frases esquisitas e sem atrativos, percebeu que seria incapaz de continuar: a história, ainda que tivesse brotado dela, não lhe cativava. Não tinha qualquer laço afetivo, qualquer traço distante de compaixão maternal.
Sequer tentou emendar o que escrevera. Sem pensar duas vezes, sentou-se em frente ao computador e começou a trabalhar diligentemente, compenetrada. Ao final, respirou aliviada. Ainda se preocupou em ir até o banheiro, rasgar cuidadosamente o conto. O fogo ateou-se rapidamente no papel encharcado de álcool. Só deu o ritual por terminado quando restavam apenas cinzas. Então, lavou as mãos e o rosto, abriu o basculante para arejar a fumaça, e não pensou mais no assunto.
Nos dias seguintes, se tivesse acompanhado o jornal, teria ficado sabendo que as chuvas continuaram. Mas não o fizera: estava muito ocupada resolvendo as questões da mudança.
Uma semana depois de ter queimado o conto, sentou-se na poltrona do avião para São Paulo e fechou os olhos. Estava cansada da confusão de realocar toda sua vida para outra cidade, outro clima, outras pessoas. Não mais voltou a Salvador.
Isso aconteceu há mais de um ano. Ainda ontem falei com ela. Disse-lhe que continua chovendo todos os dias, mas que estamos nos acostumando. No começo, ela ainda pedia desculpas, dizendo que sentia muito, mas era incapaz de resolver aquilo. Ontem, abriu um sorriso sarcástico, acendeu um cigarro e disse que a chuva até que nos tem feito bem... e que não tenho nenhuma prova contra ela.
Ela tem razão.

(finalizado em Salvador, 29 de outubro de 2011)

quarta-feira, outubro 26, 2011

A vida prática não tolera ser mantida em suspenso por uma eterna contradição.
Jung

segunda-feira, outubro 24, 2011

aminoácidos vs. bife

Talvez eu já devesse saber, dado o modo como normalmente ocorrem as coisas neste mundo que surgiu para servir ao homem. Mas a verdade é que ainda hoje estava pensando que, se resolvesse parar de consumir diversos produtos por "não concordar com o que representam", ainda poderia continuar a beber tequila (dos destilados que conheço, o melhor).

Por isso não foi sem desapontamento que li a matéria do Envolverde que apresentava sucintamente os efeitos maléficos da indústria de tequila a solo e água mexicanos. Na verdade são contaminações que poderiam ser evitadas se os industriais fossem mais responsáveis, ou seja, é algo contornável. Felizmente para os neoliberais, a Terra está aqui para servi-los, e provavelmente deus dar-lhes-á outra, caso esta acabe antes do prazo, então, os caras continuam a produzir sem maiores preocupações - a não ser com uma multa aqui ou acolá por descumprir os ditames ambientais do governo mexicano.

Fim do post prolixo. Boa noite.

Ah, duas fontes interessantes:
Revista Digital Envolverde - http://envolverde.ig.com.br/#
Todos los Tequilas de Mexico, de la A a la Z - http://www.tequila-z.com/

Have you ever been in love?

“Have you ever been in love? Horrible isn't it? It makes you so vulnerable. It opens your chest and it opens up your heart and it means that someone can get inside you and mess you up. You build up all these defenses, you build up a whole suit of armor, so that nothing can hurt you, then one stupid person, no different from any other stupid person, wanders into your stupid life...You give them a piece of you. They didn't ask for it. They did something dumb one day, like kiss you or smile at you, and then your life isn't your own anymore. Love takes hostages. It gets inside you. It eats you out and leaves you crying in the darkness, so simple a phrase like 'maybe we should be just friends' turns into a glass splinter working its way into your heart. It hurts. Not just in the imagination. Not just in the mind. It's a soul-hurt, a real gets-inside-you-and-rips-you-apart pain. I hate love.”
n. g.

/* Eu gosto do amor. E sou um pouco mais Sartriana que Saint-Exupéry (ou Gaiman nessa citação). Quer dizer, eu acho que o outro não é culpado, por assim dizer, de sofrermos porque gostamos. Não a priori, quero dizer. Mas já chorei no escuro e já perdi o chão e já me senti quebrada e partida e vazia por dentro. E já acordei pra dias sempre cinza, independente da cor do céu mostrada pela janela... */

sábado, outubro 22, 2011

Tema pra conto

Quase não havia chovido em Salvador, naquele ano. Localizada em região de clima tropical atlântico, a cidade tinha como características duas estações: inferno e verão. Esta última cobria todos os meses do ano em que não se estava no verão oficial, incluindo o inverno.
Esse clima particular fazia com que (...)

corta.

/* melhor resumir logo e pegar depois: */

Mal tinha chovido em Salvador, naquele ano.
Um dia, já na primavera, uma insuspeitada onda de frio chegou à cidade. Nos primeiros dias, todos acharam que fosse uma frente fria fora de época, mas passageira.

Quando se completaram duas semanas de chuva sem tréguas, com os problemas transbordando mais do que as já inundadas ruas, as autoridades começaram a se preocupar.

Ao fim do segundo mês, as pessoas aos poucos começavam a se conformar com a situação e a procurar formas de lidar com o novo clima de sua cidade.

(...)

agora eu preciso lembrar de continuar.

quarta-feira, outubro 19, 2011

Das mudanças

A gente se envolve e apega. Pelas mais curiosas coisas.

Quem diria que sentiria um aperto no peito com a possibilidade de mudar o modelo deste blog? De repente, é como se fazer isso, por si, já significasse deixar para trás alguns aspectos de mim, tudo que foi vivido até então, como se me afastasse de algo que gosto perto. Como se me tornasse mais independente, e isso pudesse quebrar coisas por dentro (e por fora).

Mas - como pode? É só um bendito esquema de cores, fontes, design e arrumação que por vezes posso passar semanas sem sequer lembrar da existência.

Seres curiosos somos nós. Há sempre muito que aprender, mesmo...

Caminhada noturna

Andando pela rua deserta pela chuva, vi gatos, cavalos, seres humanos, babacas e outros bichos.

E lixo e cheiro de mijo também...

terça-feira, outubro 18, 2011

De foco e ser antissocial

Mais do que "nunca" tenho experimentado a sensação de não querer participar de alguns eventos sociais. Encontros com muitas pessoas, sem muito foco, ou com muito foco em simplesmente estar junto e conversar aleatoriedades e beber e ficar nesse ciclo até acabar a conversa - ou a bebida - têm me soado quase desnecessários.
O que gosto: estar com amigos, para conversar sobre interesses comuns. Fazer as coisas que tenho de fazer. Ver algum filme. Ambientes mais familiares (não de família, mas de fazer sentido com quem sou, neste momento). O que me incomoda: desvios muito grandes de rota que não levam a locais tão interessantes assim para justificar a fuga de tema.
No meio disso, preciso encontrar a medida certa que me permite não magoar meus amigos, nem me afastar demais de quem sou.

terça-feira, outubro 04, 2011

Pra dizer um dia desses

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

c.d.a.

quarta-feira, setembro 28, 2011

5 anos em duas horas

Qual o caminho? Qual o encaixe? Qual o lugar? Onde fica, onde cabe, de que jeito...? Acho que 'inda tenho muito que desaguar tudo isso [mas ao menos estamos um passo mais perto de algum entendimento...]

sexta-feira, agosto 26, 2011

Perhaps love




Perhaps love is like a resting place, a shelter from the storm
It exists to give you comfort, it is there to keep you warm
And in those times of trouble when you are most alone
The memory of love will bring you home

Perhaps love is like a window, perhaps an open door
It invites you to come closer, it wants to show you more
And even if you lose yourself and don't know what to do
The memory of love will see you through

Oh love to some is like a cloud, to some as strong as steel
For some a way of living, for some a way to feel
And some say love is holding on and some say letting go
And some say love is everything, and some say they don't know

Perhaps love is like the ocean, full of conflict, full of pain
Like a fire when it's cold outside, thunder when it rains
If I should live forever, and all my dreams come true
My memories of love will be of you

Some say love is holding on and some say letting go
And some say love is everything and some say they don't know

Perhaps love is like the ocean, full of conflict, full of pain
Like a fire when it's cold outside, thunder when it rains
If i should live forever, and all my dreams come true
My memories of love will be of you

John Denver

terça-feira, agosto 23, 2011

Tarô de rua

Andando pela rua, vi uma carta de baralho. Um sete de ouros. Anotei mentalmente - olhar em casa depois.
Li à noite.

A nível divinatório, o Sete de Ouros indica o difícil momento da tomada de decisão. É necessária muita ponderação e cautela. A questão surge do impasse de continuarmos a desenvolver tudo aquilo que construímos até então, ou canalizar todos os esforços e energia num novo projeto.
Sharman-Burke, Juliet. Greene, Liz. O Tarô Mitológico: uma nova abordagem para a leitura do Tarô. 10ª ed. São Paulo: Siciliano, 1988. (pág. 207)
Esta é a terceira vez que me acontece algo do tipo. Nas outras duas, senti que a mensagem fez muito sentido no momento em que chegou.
Isso aconteceu na quarta passada, e também faz sentido. Mas ainda me pergunto qual a melhor escolha, e que novo projeto será este...

sexta-feira, agosto 12, 2011

Brincando de ser humano

Voltando para casa, vi uma pessoa dormindo em uma caixa de bonecas.
Na rua
no chão
a caixa - cama e cobertor
Não era nenhuma brincadeira.
Mas as gentes fingem de esconde esconde.
Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.

A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.

Para isso, só sendo louco! Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.

Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.

Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois ao vê-los loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.

o.w.

sábado, agosto 06, 2011

Cantiga Quase de Roda

Na roda do mundo
lá vai o menino.
O mundo é tão grande
e os homens tão sós.
De pena, o menino
começa a cantar.
(cantigas afastam as coisas escuras.)
Mãos dadas os homens,
lá vai o menino,
na roda da vida
rodando e cantando.
A seu lado, há muitos
que cantam também:
cantigas de escárnio
e de maldizer.
Mas como ele sabe
que os homens, embora se façam de fortes,
se façam de grandes,
no fundo carecem de
aurora e de infância
– então ele canta
cantigas de roda
e às vezes inventa
algumas – mas sempre
de amor ou de amigo.
Cantigas que tornem
a vida mais doce
e mais brando o peso
das sombras que o tempo derrama, derrama
na fronte dos homens.
Na roda do mundo
lá vai o menino,
rodando e cantando
seu canto de infância.
Mas lá nas funduras
do peito, outro canto
lhe nasce e ressoa
- erguido de assombros
e de escuridões.
Vazio de infância,
varado de dores,
é o canto mais triste

que as noites já ouviram.
Portanto o menino
não deixa que o mundo
lhe escute esse canto
doloroso e inútil.
Pois sabe que os homens
embora se façam
de graves, de fortes,
no fundo carecem
de claras cantigas
- senão ficam ocos,
senão endoidecem.
E então ele segue
cantando de bosques
de rosas e de anjos,
de anéis e de cirandas,
de nuvens e pássaros,
de sanchas senhoras
cobertas de prata,
de barcas celestes
caídas no mar.
Na roda do mundo,
mãos dadas aos homens,
rodando e cantando
cantigas que façam
o mundo mais manso,
cantigas que façam
a vida mais doce
cantigas que façam
os homens mais crianças.

O canto desse menino
talvez tenha sido em vão.
Mas ele fez o que pôde.
Fez sobretudo o que sempre
lhe mandava o coração
t.m.

quarta-feira, agosto 03, 2011

O mito do bônus (the bonus myth)

"Na realidade, é mais complexo mas mais significativo assegurar qualidade de vida no trabalho, um clima colaborativo e de respeito, salários decentes, transparência nas informações, processos mais democráticos de decisão, redução da jornada de trabalho (as tecnologias já permitem, as ideias não surgem proporcionalmente às horas, e um fim de semana completo com a família todo mundo merce). E também, porque não, aplicar aquelas regras de ética empresarial penduradas na sala da presidência. As coisas que o empregado faz tem de fazer sentido para ele, para o meio ambiente e para a sociedade, não só para os sócios. Passamos muitas horas no trabalho: precisa nos dar certa satisfação todo dia, e todo mês, não no fim do ano."

terça-feira, julho 12, 2011

"O nosso amor, Ilsebill, tudo aquilo que nós nos sussurramos com voz abafada, escondemos em cartas ou trombeteamos do alto de torres ou pelo telefone, superando o barulho do mar num tom ainda mais baixo do que o imaginado, nosso amor, que cercamos com tanto carinho, que mantivemos secretamente dentro de uma caixa de chapéu no meio de quinquilharias e que era tão visível como um botão que falta, que estava escrito em cada tronco de árvore sob nomes diferentes, ele, o nosso amor, que ontem ainda era palpável, um objeto de uso, nosso cola-tudo, a palavra-chave, a inscrição do banheiro, o vibrante filme mudo, uma prece noturna dita em voz trêmula de camisola, a tecla para adoçar nossa canção de sucesso, ele, que corria descalço pelo capim tremulante, ele que como tijolo pouquíssimo gasto estava encaixado num muro de ruínas, ele, que se perdeu na faxina da casa e, quando procurávamos outra coisa, foi achado entre outras justificações usuais, fantasiado de apontador, ele, nosso amor, que nunca acabaria, não existe mais, Ilsebil. Ou ele só é possível, provável, sob certas condições. Ou ele existe ainda - mas em outra parte. Ou ele nunca existiu e por isso ainda seria imaginável."
Grass, Günter. O Linguado. 2a. edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983. pág. 430

/* Não é que me sinta assim nem nada. Mas esse cara escreve d'um jeito que gosto... */

quarta-feira, junho 01, 2011

respirar é preciso...

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como se tira um tijolo do peito?

terça-feira, maio 24, 2011

E este outono insiste em ficar entrando por minhas janelas...
Se eu resolver fumar até entender ou resolver minha vida,
o que se acabará antes
- os cigarros ou eu?
Eu podia ir embora, hoje...

quarta-feira, maio 18, 2011

Passado, presente, futuro

Como saber a que momento pertence cada coisa que está, de algum modo, viva dentro de nós?

Se para nosso inconsciente (ou algo que o valha), não há noção de tempo, ontem, amanhã, hoje, e o que aconteceu é como estar recém acontecido - quiçá, mesmo, acontecendo...

Como saber a que momento pertecem os sentimentos que vivem dentro de nós? E de que falam?

...

segunda-feira, maio 09, 2011

Devaneios sociopolíticos...

Ontem estava pensando nos impostos, não lembro exatamente por que, e vi como, em princípio, eles são bonitos - em alguma medida, eles são em verdade uma tentativa de materializar a famosa ideia "De cada um, segundo sua capacidade, para cada um, segundo sua necessidade..."

Uma sociedade na qual os impostos funcionem é bonita - todos ajudamos a filhinha de alguém a estudar, todos ajudam meus a amigos e eu a nos formarmos, todos contribuímos para ser seguro andar à noite na rua... Na medida de nossos ganhos e condições. E utilizamos os benefícios, na medida de nossas aspirações.

Distribuindo um pouco do que cada um tem, para que todos possam ter um pouco de tudo.
Desnorteada.

Música incidental - alguma coisa está fora da ordem.

Se ficar bem quieta, observando, escutando, entendo...?

segunda-feira, abril 18, 2011

quero silêncio.
tempo para ler
escrever.

boas parcerias para conversas.

e quietas belas paisagens...

domingo, abril 17, 2011

Fumaça e Espelhos

"É um truque com espelhos. Trata-se de um clichê, não há dúvida, mas não deixa de ser verdade. Os mágicos empregam espelhos, via de regra posicionados em ângulos de quarenta e cinco graus, desde que os ingleses vitorianos começaram a produzir superfícies nítidas e confiáveis em quantidade, há mais de cem anos. John Nevil Maskelyne deu início à técnica, em 1862, com um guarda-roupas que, graças a um espelho posicionado com astúcia, ocultava mais do que revelava.
Espelhos são coisas maravilhosas. Parecem dizer a verdade, refletir toda a nossa vida; mas posicione um deles da maneira correta e sua superfície mentirá de modo tão convincente que você acreditará que algo desapareceu no ar, que uma caixa cheia de pombos, bandeirolas e aranhas está realmente vazia; que pessoas escondidas nos bastidores, ou no fosso, são fantasmas flutuando sore o palco. Deixado no ângulo correto, um espelho torna-se uma janela mágica; capaz de lhe mostrar qualquer coisa que possa imaginar e, talvez, algumas que não possa.
(A fumaça borra os contornos das coisas.)
Histórias são, de um modo ou de outro, espelhos. Nós as usamos para explicar como funciona ou não o mundo. Tal qual espelhos, elas nos preparam para os dias que virão. Afastam nossa atenção das coisas que se ocultam nas trevas.
A fantasia - e toda ficção é fantasia de uma espécie ou de outra - é um espelho. Um espelho distorcido, não há dúvida, do tipo que oculta, posicionado a quarenta e cinco graus da realidade, mas ainda assim um espelho que podemos empregar para nos revelar coisas que, de outra forma, poderíamos não ver. (Contos de fadas, como G. K. Chesterton disse certa feita, são mais do que a verdade; não porque nos contam que dragões existem, mas porque nos dizem que dragões podem ser vencidos.) (...)"
Neil Gaiman, Uma Introdução. in: Fumaça e Espelhos - contos e ilusões. pp. 11-12

sábado, abril 16, 2011

Observações matinais

Alguns dias e noites são tão longos que não parecem um, mas vários

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Tenho a impressão de que ninguém nunca deleta blogs - deixamo-los empoeirados, esquecidos, na última prateleira da estante... Mas não os deixamos ir.

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E alguma outra coisa que eu esqueci o que era, mas que me parecia digna de nota. Na verdade, agora, todas essas observações parecem meio óbvias e desnecessárias. Paciência. Ficarão aí. Como os blogs...

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Lembrei - bebo, e no dia seguinte, parece-me que tudo o que fiz tem tonalidades de que bebi além da conta. Ainda que sejam coisas de antes de eu ter bebido...

quinta-feira, março 31, 2011

Tenho uma estranheza no peito.

Não sei dizer
traduzir.
É saudade?
É ansiedade ruim...?

A cabeça se bagunça toda.

Quero um caminho, e o que vejo é um labirinto de fios entrelaçados.
Entrelaçados?

Não sei dizer...
não creio que se cruzem.

Não sei se gosto de onde estou agora.
Não sei bem onde gostaria de estar.

Saudades sinto do que nem sei onde encaixar.
E há encaixe...?

/* E em meio a isso, vontade dá de fechar todas as portas. Buscar quietude... Que me impede? */

quarta-feira, março 30, 2011

- - - estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra? A isso quereria chamar desorganização, e teria a segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior. A isso prefiro chamar desorganização pois não quero me confirmar no que vivi - na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro.

Se eu me confirmar e me considerar verdadeira, estarei perdida porque não saberei onde engastar meu novo modo de ser - se eu for adiante nas minhas visões fragmentárias, o mundo inteiro terá que se transformar para eu caber nele.

Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.
(c.l. - A paixão segundo G.H.)

/* Não porque faça minhas as suas palavras; antes pelo modo como diz as coisas, porque há um que de verdade nesse sentir-se desorganizado; pelas imagens que constroi... */
Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualemnte e penosamente - atravessando inclusive o oposto daquilo de que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro não tira nada de ninguém.

(c.l. - A possíveis leitores, in A paixão segundo G.H.)
Quando me dou conta de todo o barulho aqui dentro, acho bem vindo o silêncio do lado de fora...

(...)

E outro dia ouvi novamente sobre a importância do silêncio para que as palavras façam sentido.

E isso também faz sentido.

(...)

Então eu continuo aprendendo. Sobre silêncios e silêncios. Sobre o que preciso...

terça-feira, março 29, 2011

Do Livro das Perguntas

Si se termina el amarillo
con qué vamos a hacer el pan?
---
Por qué se suicidan las hojas
cuando se sienten amarillas?
---
Las lágrimas que no se lloran
esperan en pequeños lagos?

O serán ríos invisibles
que corren hacia la tristeza?
---
Cómo se llama una flor
que vuela de pájaro en pájaro?
p.n.

(estes dois últimos versos também poderiam ser uma pergunta de Delirium)
Às vezes, ficar só parece melhor que não saber o que fazer...

segunda-feira, março 28, 2011

Não quero fingir ser o que não sou.

Aceito aprender, rever ideias, reavaliar ações.

Aceito perceber que às vezes sou imatura, infantil, insegura, insensata, até. Aceito que faço coisas de modo impensado, que piso na bola, que sou muito ansiosa vez ou outra.

E aceito e quero crescer, não ser tão boba para algumas coisas.

Mas não quero agir de um modo que não é meu apenas para agradar a alguém, para parecer mais legal ou inteligente ou interessante, ou...

Não quero olhar pra mim e pensar - "eu não sou assim"...
Saí para pedalar hoje.

Andei em direção à cidade. À noite.

Pedalei pensando nas coisas.
Pedalei até esquecer.

... E caí.

Na hora confusa,
Assustei-me.
Senti medo.

Depois, pensei que aprendi quando e como é possível dar passagem.

E aprendi que consigo levantar.

E segui pedalando.

Então quis casa e cuidado e descanso. Que de ferro não sou.

E me dei conta de que se isto tivesse me acontecido há alguns meses atrás, eu teria ficado em caquinhos. E foi bom perceber que estou mais forte...

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É bastante diferente pedalar pra dentro da cidade. A quantidade de coisas dá a sensação de estar pedalando muito mais, de cobrir distâncias maiores.

E é muito mais fácil pedalar à noite. Sol quente no juízo faz uma diferença danada.

domingo, março 27, 2011

A Análise Bioenergética baseia-se no conceito de que uma pessoa é um ser unitário e que o que acontece na mente também deve estar acontecendo no corpo. Por conseguinte, se uma pessoa está deprimida, com pensamentos de desespero, impotência e fracasso, seu corpo manifestará uma atitude deprimida correspondente, evidente na baixa formação de impulsos, na mobilidade reduzida e na respiração limitada. Todas as funções corporais estarão deprimidas, incluindo o metabolismo, resultando em menor produção de energia.
É óbvio que a mente pode influenciar o corpo tanto quanto o corpo afeta a mente. É possível, em certos casos, melhorar o funcionamento corporal da pessoa por meio de uma mudança em sua atitude mental, mas qualquer mudança provocada desse modo será temporária, a menos que os processos corporais fundamentais sejam significativamente modificados. Por outro lado, trabalhar diretamente na recuperação de funções corporais como a respiração, a movimentação, a percepção sensorial e a auto-expressão surte um efeito imediato e duradouro sobre a atitude mental da pessoa.
Lowen, Alexander. Alegria - A entrega ao corpo e à vida. (introdução)
"Eu me pergunto...
Eu me pergunto se valeu a pena. Tudo que me aconteceu na vida ocorreu a mim como autor de peças. Tomado de amor ou luxúria, no auge da paixão, eu pensava então a sensação é esta, para depois descrever aquilo com palavras belas. Assisti à minha vida, como se estivesse acontecendo a outra pessoa. Meu filho morreu. Eu sofri, mas assisti ao meu sofrimento, e até o apreciei um tanto, pois poderia escrever sobre uma morte real, uma perda genuína.
Tive o coração partido por uma dama negra e, sozinho em meu quarto, chorei. Mas enquanto chorava, em algum lugar dentro de mim eu sorria. Pois estava ciente de que poderia tomar meu coração partido e colocá-lo no palco do globe, para que a platéia derramasse suas próprias lágrimas.
(...)
E Próspero, Miranda, Calibã e Gonzalo, o etéreo Ariel e o silencioso Antônio, para mim, são todos mais reais do que o sábio e desajuizado Ben Jonson, Susanne e Judith, os bons cidadãos de Stratford, as meretrizes e desclassificadas de Londres..."

William Shakespeare fala a Morpheus, em Sandman, Despertar - A Tempestade. (Neil Gaiman)
Não quero mais ficar achando que fiz algo de errado.
De vez em quando acerto,
depois tropeço no meio da linha.
m.l.

Às vezes, faz falta ter para onde voltar...

Eu saio. Conheço gentes.
Converso.
Flerto.
Eu tomo a iniciativa.

Cozinho.
Pedalo.
Saio com minhas famílias e agradeço por meus amigos existirem.
Ando na praia e agradeço a Yemanjá por cada banho de mar azul.

Cuido dos dentes,
do cabelo,
da cabeça.

Observo o que já fiz,
tento não fechar os olhos
para o que ocorre dentro
o que ocorre fora.
Tento não ser leviana.
Tento evitar o muito superficial que me esvazia.

Eu ergo a cabeça ao andar por aí.
Respiro fundo a cada pedalada.
Encolho-me no banco de ônibus. Durmo.

Eu leio.
Tomo anotações.
Escrevo, escrevo, escrevo, escrevo.

Choro.

Eu dirijo, viajo, busco outros horizontes.
Eu faço algo que nunca fiz.

Eu sorrio para estranhos.

E brigo com pessoas próximas.
Eu me revisito, de tempos em tempos
com linguagens e perspectivas diferentes.

Eu tento não ficar parada.
E às vezes, tento ficar em silêncio.

Eu ouço música e descubro novos gostos ou sensações.

Eu me descubro maior.
Me descubro mais imatura do que gostaria.
Mais corajosa, e mais estabanada.

Eu me descubro viva e feliz.

E viva, viva, vida.

A cada nova manhã.
Cinza ou azul.
Prefiro as azuis.
Nas cinzas, encolho-me mais.

Eu me emociono com meus amigos e amigas.
Eu me emociono.

Eu sigo vivendo
fazendo coisas que me fazem ter muita certeza de estar viva
e sentir muito gosto por isto.

E, às vezes, eu acordo e sinto falta daquela pessoaQue não sei onde encaixar, nesse momento,
em minha vida.

quinta-feira, março 24, 2011

Quero meus olhares.
Meu olhar aguçado
e vívido.
Ávido
sorvendo mundo.

Para meus ouvidos

Uma música - Ballad of the Beaconsfield Miners - Foo Fighters.

Jornada.
Et movimento.
Et mudança.
Et viagem.
Et transformação.
Et tempo.
Et passagem...

Noite

Saí do cinema tão depressa que tinha as pernas rijas na chegada ao ponto de ônibus.

segunda-feira, março 21, 2011

Vejo distintamente duas possibilidades. Dois caminhos que poderia seguir. Encaro-os. Considero... Uma jornada interior, camada após camada deste momento sendo olhada, exposta, acolhida, superada. Para dar lugar a um espaço ainda mais meu mais silencioso, porque mais interno. Quieto e sem movimento. Still waters.
Outro, movimento, ruído, misturar-me à multidão, olhar histórias alheias - num escorregão transforma-se no oposto do primeiro, um tapar olhos e ouvidos para as falas mais caladas ou inconscientes. Entretanto, pode também não cair no lugar comum da fuga, ser espaço de estar comigo de um outro modo, evitando possíveis interferências e, ao mesmo tempo, abrindo espaço para o inesperado manifestar-se - também alguma jornada de descobertas, menos direta e objetiva, de resultados incertos.

A que me inclino mais?


Estou diante de duas possibilidades.

E correndo o risco de ficar parada sem seguir caminho algum.
A pior fuga - inação em vida.
Sentindo coisas que não sei nomear.
Ou, talvez, que não queira nomear para não sentir que machucam.
Vontade de ficar sozinha. De estar em movimento.

E receio de buscar estas coisas para fugir do que sinto...

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Anseio e receio de olhar para dentro - acho que encontrarei, ainda, um buraco.
Um espaço vazio, esvaziado. Um espaço à força fechado, para o qual andei evitando olhar - "o que os olhos não vêem o coração não sente".
E uma carência de palavras, de modos e imagens para me entender, para conversar comigo, para ajudar a traduzir o que se passa aqui dentro agora. E o que desejo fazer com isso.

Quero ficar sozinha de mim mesma, ausente de referências, distante de tudo que seja reconhecível...

sexta-feira, março 18, 2011

Já se disse que o silêncio é uma força; em sentido completamente diferente, é mesmo uma força, e terrível, à disposição dos que são amados. Ela aumenta a ansiedade de quem espera. Nada convida tanto a aproximar-se de uma criatura como aquilo que dela nos separa, e que barreira mais intransponível que o silêncio? Já se disse também que o silêncio é um suplício, e capaz de enlouquecer a quem é coagido a ele nas prisões. Mas que suplício - maior que guardar silêncio - o de suportar o silêncio de quem se ama!
(...)
Aliás, mais cruel que o das prisões, esse silêncio é já por si uma prisão. Uma parede imaterial, por certo, mas impenetrável, essa interposta camada de atmosfera vazia, mas que os raios visuais do abandonado não podem atravessar.
Marcel Proust, Em busca do tempo perdido - O caminho de Guermantes.

Cinza

Veio de fora. Mas de repente percebo como minha disposição interna vai mudando, o modo como encaro o dia.

E então tudo está mais cinza e escuro e nublado.

Ainda que eu tenha dançado sob a chuva mais cedo...

terça-feira, março 01, 2011

tá tudo errado...

sábado, fevereiro 26, 2011

Quero chocolate.
E café.
E boa cerveja.

terça-feira, fevereiro 22, 2011

O silêncio pode ser a mais enfática e dolorosa das respostas...

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Pequenos prazeres

Gosto do cheiro que paira no ar após as primeiras gotas de chuva.

E sinto falta de café.

E adoraria comer um acarajé, agora.

Escrito num papel marcado. E outros dizeres.

Sinto falta daquela pessoa de falar todo dia, sobre tudo. De ver quase todos os dias e continuar querendo estar junto. Que dá vontade de ligar pra contar que uma borboleta pouco em seu cabelo, ou que o almoço estava bom. Que se faz visita surpresa.

Sinto falta daquela pessoa.

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Não posso fingir ser quem não sou. Não faz parte de mim desdizer o que sinto. Vá lá, posso conseguir disfarçar, evitar estar junto pra não amolecer nem dar na vista. Mas não gosto de esconder, não gosto de calar.
E se essa sou eu, de que adiantaria tentar ser d'outro modo não natural? Qualquer coisa que daí conseguisse estaria erguida sobre algo que não sou, e que não me faria bem manter por muito tempo...
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Caminho, passo após passo. Sigo colocando um pé após o outro e sentindo que isso me leva à mudança. É, entretanto, como andar no escuro - não sei para onde posso estar indo.

Isso pode, também, ser bom.

sábado, fevereiro 19, 2011

Até...

Até eu ficar bem.

Até eu ficar forte.

Até um dia...?

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Era uma vez um homenzinho verde. Ele se perguntou por que sua existência parecia ser contada de trás para frente, e acabou por descobrir que, na verdade, ela só era escrita da direita para a esquerda, e afinal isso nem era tão grave, posto que as vidas não possuem eixos ou coordenadas, ou algum sistema de mapeamento que diga, e além disso demonstre, que todas as vidas, por regra, são escritas da esquerda para a direita. Isto aliás poderia gerar incontáveis discórdias entre os povos, especialmente entre os da direita e os da esquerda, afinal, como muitos sabem, muitos povos de origem e tradição mais à direita concebem, escrevem e descrevem suas vidas da direita para a esquerda. Só poderia ser ideia de algum imperialista nascido à esquerda sugerir - ou, o que é muitíssimo pior, decretar - que todas as vidas tinham seu curso natural da direita para a esquerda.

Mas como íamos dizendo, o homenzinho verde descobriu o que lhe acontecia - e a partir de que direção. E ele estava a se perguntar sobre sua estranha sorte - ele insistia em pensar que tudo aquilo era deveras estranho - e acabou adormecendo, e sonhou.

Em seu sonho, alguém lhe explicava, em bom japonês, de cima para baixo, da direita para a esquerda - teria sido chinês?! Enfim, explicavam-lhe que na realidade ele era um homúnculo de manjericão criado por uma versão de Merlim descrita por Leonardo Da Vinci em um de seus cadernos.

O homenzinho verde acordou. Respirou profundamente. O ar rescendia a limão. E hortelã. E boldo. E um nadinha de arruda. E a jasmins. E lá no fundo, porém refrescantemente presente, a manjericão.

As narinas do pequeno homem mágico encheram-se com seu próprio perfume. E ele se sentiu pleno.

Ele pensou em divagar sobre a sorte de Da Vinci. E de Merlim. Receou, contudo, cair outra vez no sono. E sonhar qualquer outra coisa. E acordar e não ter cheiro de manjericão, mas de tinta verde fresca. Ou algo pior.

Ele então se levantou. E saiu por aí, desperto, oloroso. Da direita para a esquerda.
esse lugar já foi mais colorido...
Começou mais um ano.

Eu já comentei sobre isso?

O ano se inicia. Alguma fase ou período começa a se encerrar...

Incertezas.

Estou aqui, ainda.

É bom estar.

Mas gostaria de estar diferente.

Experimentando uma solitude que me entristece. Tentando seguir, resignada.
experimentando algum grau de solitária melancolia...

Pontos de vista

minhas noites andam muito mais silenciosas do que eu gostaria...

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

"Para mim não há libertação à tout prix. Não poderia desembaraçar-me de algo que não possuo, que não fiz, nem vivi. Uma liberação real só é possível se fiz o que poderia fazer, se me entreguei totalmente a isso, ou se tomei totalmente parte nisso. Se me furtar a essa participação, amputarei de algum modo a parte de minha alma que a isso corresponde. É claro que essa participação pode me parecer demasiadamente penosa, e que eu tenha boas razões para não me entregar internamente a isso. Então, ver-me-ei constrangido a um non possumus e serei obrigado a reconhecer que talvez tenha omitido algo de essencial, que não cumpri uma tarefa. A consciência aguda de minha incapacidade compensa a ausência do ato positivo.

O homem que não atravessa o inferno de suas paixões também não as supera. Elas se mudam para a casa vizinha e poderão atear o fogo que atingirá sua casa sem que ele perceba. Se abandonarmos, deixarmos de lado, e de algum modo esquecermo-nos excessivamente de algo, correremos o risco de vê-lo reaparecer com uma violência redobrada."
Carl Gustav Jung, Memórias, Sonhos, Reflexões, pág. 243
Às vezes a gente realmente precisa que as coisas mudem...

Por conta da dor.

Apesar da dor.

Não tenho vergonha das lágrimas que caem.

O peito aperta.

Mas esse é o caminho que me vejo seguir; esta é a mudança que está a meu alcance promover.

terça-feira, janeiro 25, 2011

eu tenho um medo tisnado de alegrias e encantos, ou alegrias e encantos tisnados de medo...?

2.0.1.1

...

por vezes, uma angustiante sensação de que o tempo pode nos estrangular...


I'd better start doing something useful!

sábado, janeiro 22, 2011

Jogos Infantis

agora ser inverno
você
realidade ao contato dos dedos
jogos infantis
uma canção monocórdica

eu vejo um signo círculo
acima de sua testa
uma terra é todas as terras
uma cidade
todas as cidades

todo mar é sargaço
todo passo traçado
pelas linhas da mão

não conte a passagem das horas
a passagem dos homens
você não precisa
beijo seco cansaço

r.p. (1985)

segunda-feira, janeiro 03, 2011

recomeços

gosto dos rituais de fim e início de ano.

gosto que marquemos a passagem do tempo.

ajuda a perceber as mudanças.

estou feliz por estar aqui, neste novo ano.

sou grata por estar viva.

força para seguir.

força para não me esvaziar nos caminhos...