domingo, setembro 29, 2013

Janela sobre uma mulher (I)

Essa mulher é uma casa secreta.
Em seus cantos, guarda vozes e esconde fantasmas.
Nas noites de inverno, jorra fumaça.
Quem entra nela, dizem, não sai nunca mais.
Eu atravesso o fosso profundo que a rodeia. Nessa casa serei habitado. Nela me espera o vinho que me beberá. Muito suavemente bato na porta, e espero.

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E um trechinho:
E assim foi até que não foi mais.
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E:

Janela sobre uma mulher (II)

A outra chave não gira na porta da rua.
A outra voz, cômica, desafinada, não canta no chuveiro.
No chão do banheiro não há marcas de outros pés molhados.
Nenhum cheiro quente vem da cozinha.
Uma mação meio comida, marcada por outros dentes, começa a apodrecer em cima da mesa.
Um cigarro meio fumado, lagarta de cinza morta, tinge a beira do cinzeiro.
Penso que deveria fazer a barba. Penso que deveria me vestir penso que deveria.
Uma água suja chove dentro de mim.
e.g.
As palavras andantes

sábado, setembro 28, 2013

Janela sobre a palavra (V)

(...)
Haverá algum lugar onde se juntem as palavras que não quiseram ficar? Um reino das palavras perdidas? As palavras que você deixou escapar, onde estarão à sua espera?
e.g.
As palavras andantes

27.09.2013

"Acorde-me quando setembro acabar", eles cantaram. E tantos repetiram, que de repente até eu estava a fazer coro, contando os dias, contando os dedos que restavam, após cada tempestade.

Entretanto, e eventualmente, cá está para chegar outubro. E o que mudará, de fato? Alguns perdidos serão reencontrados, talvez alguns laços sejam refeitos. Mas os que se foram não retornarão, e os novos jamais tomam, de fato, por mais charme ou aconchegos que façam, o lugar dos que não mais estão...

(...)

Escrevo. E depois penso - você não devia ser tão afoita em sair por aí a falar do que ainda não acabou de fato, ou a desdizer do que sequer começou por direito... Setembro já nos ensinou que é possível cair muitas quedas...

quarta-feira, setembro 25, 2013

Janela sobre o medo

A fome come o medo. O medo do silêncio atordoa as ruas.
O medo ameaça:
Se você amar, vai pegar aids.
Se fumar, vai ter câncer.
Se respirar, vai se contaminar.
Se beber, vai ter acidentes.
Se comer, vai ter colesterol.
Se falar, vai perder o emprego.
Se caminhar, vai ter violência.
Se pensar, vai ter angústia.
Se duvidar, vai ter loucura.
Se sentir, vai ter solidão.
e.g.
As palavras andantes

domingo, setembro 22, 2013

Janela sobre a memória (II)

(...)
Temos um esplêndido passado pela frente?
Para os navegantes com desejo de vento, a memória é um porto de partida.
e.g.
As palavras andantes

sexta-feira, setembro 20, 2013

Janela sobre a palavra (I)

Os contadores de história, os cantadores de história, só podem contar enquanto a neve cai. A tradição manda que seja assim. Os índios do norte da América têm muito cuidado com essa questão dos contos. Dizem que quando os contos soam, as plantas não se preocupam em crescer e os pássaros esquecem a comida de seus filhotes.

e.g.
As palavras andantes

quarta-feira, setembro 18, 2013

E se...

E se eu escrevesse histórias com as vidas que não vivi? A qualquer momento do tempo e da história, estou deixando uma vida de lado e escolhendo outra.

Ou estou não escolhendo outras tantas. Não estou virando uma motoqueira toda tatuada. Não sou uma chef em algum restaurante de São Paulo ou Porto Alegre. Não sou trainee de alguma grande empresa. Não virei voluntária da Cruz Vermelha e fui para alguma zona necessitada. Não...

segunda-feira, setembro 16, 2013

10.09.2013

Estava aqui 'inda ontem
abrindo caminho na cama
com suas grandes patas de coelho

Ou sobre a cômoda,
enroscado, rei das roupas
por arrumar.
Sentava-se em minha cadeira
à hora do almoço,
para garantir seu lugar.

Gostava de carinho de pés molhados
após o banho.
De falar e falar.

Não me deixava perder
horários.

Era rosa desbotado
ou salmão.
Enormes pupilas dilatadas
em olhos redondos e amarelos,
dourados,
para caçar barbante.
Escalando pernas e cadeiras
para pedir carinho.

Falava comigo quando
o chamava,
e vinha correndo,
pulando, miando.

Por que tão curto
e unidirecional
o tempo?

Não pude protegê-lo,
colocá-lo no colo,
deixá-lo acionar
seu ronronar de motor.

Não afofam mais
as macias patas
não mais subirá
em minha barriga
ou costas - massagem felina

Não mais seus miados
de abrir porta
ou dar atenção.

(...)

11.09.2013

Eu não consigo reter uma imagem, algo que possa ficar.
Ele é um miado em minha cabeça, soando pela casa.
É um rolinho amarelo desbotado em cima de um monte de roupas.
Um pelo macio. Macio. Macio. Sempre. Quentinho.
Suas patas de coelho e imensos olhos redondos. Amarelos. Pupilas dilatadas para caçar. Ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele uma sequência de d's e alegrias e uma dor que é uma porrada súbita.

E não importa tudo que escreva ou chore ou lembre ou desenhe: nada fará ele voltar.
Sem subir por minhas pernas ou afofar minha barriga.
O abraço tardio não o reteve. Não o protegeu.
Me dá teu colo para eu me enroscar e dormir?

quarta-feira, setembro 11, 2013

10.09.2013

... And then there was silence...

quinta-feira, setembro 05, 2013

um Senhor Branco

http://video.yandex.ru/iframe/varvara-branwen/hxbn08ieak.3028/?player-type=full

Ele foi Branco, branquinho
e uivos e fugas
e passeios de quase trenó

Foi grande e antigo
foi não gostar de estar só

foi companheiro
de gatos e gentes
e acompanhou muitos, desde pequeninos

é ainda guerreiro e valente
agora, porém, ressona mansinho
vaga a mente
já mais lá que aqui

tinha pelos de estopa
algodão
que esvoaçavam no verão
e lambia-se como um gato

era quentinho
atrapalhado
cego de um olho
aconchegante

foram muitos acordares de manhã cedo
muitas corridas noite adentro

trazia o focinho à borda da cama
e o corpo para junto dos pés
aonde quer que se fosse

foi uma vida
foram várias

e como, e por que, tão grande e tão pequena
perto das nossas?

viveu muito mais que seus dias
agora vai correr
sem carros
sem freios
todos os rumos
nesse mundão

(sempre maior e mais velho que nós...)