segunda-feira, maio 05, 2014

filosofias simples

Pedale até se sentir melhor. Se você ainda não está se sentindo melhor, é porque não pedalou o suficiente.
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Quero morar em um lugar onde possa me deslocar só de bicicleta, se sentir vontade. Sem que isso seja algo extraordinário.
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Não esquecer que pedalar (e mexer o corpo em geral) me faz bem, me ajuda a reconectar com meu centro, a respirar, a só pensar se for necessário, e no que é necessário. E é algo que posso fazer quase sempre. E comigo mesma.
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Não deixar de pedalar...

domingo, maio 04, 2014

said the shotgun to the head

...
from now on
cities will be built
on one side
of the street

so that soothsayers

will have wilderness to wander
and lovers
space enough
to contemplate
a kiss
...
s.w.

segunda-feira, abril 28, 2014

Definições

"Meu segundo nome é Eficiência.
...
Pena que o primeiro seja Caos."

domingo, abril 27, 2014

Like most other dances, relationships also are about rhythm...

sexta-feira, abril 25, 2014

Suor

O abafado do dia
lentamente
escorre
por minhas pernas
virilha
coxa
joelho
panturrilha.

Ônibus

amontoado de corpos
de sonhos cansados
e trajetos tortos

old news

Quero falar de impermanência
e de mudanças

Quero falar de essência.
Do que nos faz ir embora,
do que nos leva a ficar...

terça-feira, abril 22, 2014

Utopifanias

O segredo, uma vez mais, parece ser, sempre, continuar caminhando...

segunda-feira, abril 21, 2014

Dependências...

(...) No fim das contas, tampouco em nosso tempo a existência dos centros ricos do capitalismo pode explicar-se sem a existência das periferias pobres e submetidas: umas e outras integram o mesmo sistema.
e.g. As veias abertas da América Latina

sábado, abril 19, 2014

Riquezas

Os metais arrebatados aos novos domínios coloniais estimularam o desenvolvimento europeu e pode-se até mesmo dizer que o tornaram possível. Nem sequer os efeitos da conquista dos tesouros persas, que Alexandre Magno despejou sobre o mundo helênico, poderiam se comparar com a magnitude dessa formidável contribuição da América para o progresso alheio.
e.g. As veias abertas da América Latina 
La vida no para, no espera, no avisa...
j.d.

quinta-feira, abril 17, 2014

Para não esquecer

O poema caótico e que me lembra fumaça e poluição e máquinas é do Pessoa, heterônimo Álvaro de Campos, e se chama Ode Triunfal:

http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/alvaro_de_campos/poetas_alvarodecampos_odetriunfal01.htm
http://campos-odetriun.blogspot.com.br/

passatempo

... Finalmente, a população das ilhas do Caribe deixou da pagar tributos porque desapareceu: os indígenas foram completamente exterminados nas lavagens de ouro, na terrível tarefa de revolver as areias auríferas com a metade do corpo mergulhado na água, ou lavrando os campos até a extenuação, com as costas dobradas sobre os pesados instrumentos de aragem trazidos da Espanha. Muitos indígenas da Ilha Dominicana se antecipavam ao destino imposto por seus novos opressores brancos: matavam seus filhos e se suicidavam em massa. O historiador Fernández de Oviedo interpretava assim, em meados do século XVI, o holocausto dos antilhanos: "Muitos deles, por passatempo, mataram-se com veneno para não trabalhar, e outros se enforcaram com as próprias mãos".
e.g. As veias abertas da América Latina

quarta-feira, abril 16, 2014

Newspeak

"Blame and English Speakers

In the same article, Boroditsky notes that in English, we’ll often say that someone broke a vase even if it was an accident, but Spanish and Japanese speakers tend to say that the vase broke itself. Boroditsky describes a study by her student Caitlin Fausey in which English speakers were much more likely to remember who accidentally popped balloons, broke eggs, or spilled drinks in a video than Spanish or Japanese speakers. (Guilt alert!) Not only that, but there’s a correlation between a focus on agents in English and our criminal-justice bent toward punishing transgressors rather than restituting victims, Boroditsky argues."

http://blog.ted.com/2013/02/19/5-examples-of-how-the-languages-we-speak-can-affect-the-way-we-think/

terça-feira, abril 15, 2014

lusco-fusco

Percorro as ruas da cidade
como se visitasse um país estrangeiro
Há algo de estranho
no cinza dessa noite
que corre apressada pra casa.

Há algo de surreal na rotina
as ruas cheias de carros
os ônibus apinhados de pessoas

Sinto-me uma estrangeira
tentando absorver uma realidade
que não faz sentido.

Há um cansaço cotidiano
resignado
nas mãos calejadas
os corpos amassados
os olhares fugidios.
Na empatia das horas impossíveis
nas risadas dos desconfortos incríveis.

Há greves
e paralizações.
E adidas
samsung
LG
Mochilas baratas
surradas
passando sobre cabeças caídas.

Não há grito sufocado.
Há um riso
uma sensação de deslocamento.

Há um desalento
um desencanto
dessa vida sobrevivida.

Arre...

segunda-feira, abril 07, 2014

islands

"No man, proclaimed Donne, is an Island, and he was wrong. If we were not islands, we would be lost, drowned in each other's tragedies. We are insulated (a word that means, literally, remember,  made into an island) from the tragedy of others, by our island nature, and by the repetitive shape and form of the stories. The shape does not change: there was a human being who was born, lived, and then, by some means or another, died. There. You may fill in the details from your own experience. As unoriginal as any other tale, as unique as any other life. Lives are snowflakes - forming patterns we have seen before, as like one another as peas in a pod (and have you ever looked at peas in a pod? I mean, really looked at them? There's not a chance you'd mistake one for another, after a minute's close inspection), but still unique."

"Without individuals, we see only numbers: a thousand dead, a hundred thousand dead, 'casualties may rise to a million.' With individual stories, the statistics become people - but even that is a lie, for the people continue to suffer in numbers that themselves are numbing and meaningless. Look, see the child's swollen, swollen belly, and the flies that crawl at the corners of his eyes, his skeletal limbs: will it make it easier for you to know his name, his age, his dreams, his fears? To see him from the inside? And if it does, are we not doing a disservice to his sister, who lies in the searing dust beside him, a distorted, distended caricature of a human child? And there, if we feel for them, are they now more important to us than a thousand other children touched by the same famine, a thousand other young lives who will soon be food for the flies' own myriad squirming children?

"We draw our lines around these moments of pain, and remain upon our silands, and they cannot furt us. They are covered with a smooth, safe, nacreous layer to let them slip, pearllike, from our souls without real pain.

"Fiction allows us to slide into these other heads, these other places, and look out through other eyes. And then in the tale we stop before we die, or we die vicariously and unharmed, and in the world beyond the tale we turn the page or close the book and we resume our lives.
n.g. American Gods

domingo, abril 06, 2014

ópios

Miséria e pobreza são excelentes negócios. Você esvazia a vida das pessoas, e depois enche com a merda que quiser...

sábado, abril 05, 2014

pontos de vista

There's never been a true war that wasn't fought between two sets of people who were certain they where in the right.
n.g., American Gods

segunda-feira, março 24, 2014

Mais poesia, por favor.

Luta

Levántate y mírate las manos
Para crecer, estréchala a tu hermano
Juntos iremos unidos en la sangre
Hoy es el tiempo que puede ser mañana
v.j.

sábado, março 22, 2014

na carreira

vontade de limpar, revirar, abrir mão, limpar, desafogar, prosseguir, partir...

--
arte de deixar algum lugar
quando não se tem pra onde ir...

quinta-feira, fevereiro 27, 2014

qq coincidência com a realidade é mera semelhança

mundo distópico onde a indústria farmacêutica e a alimentícia estão alinhadas, e uma ampara a outra para minar o sistema imunológico das pessoas, para que fiquem mais sensíveis a doenças e, assim, consumam mais medicamentos que as tornam mais controláveis, sem desconfiarem de nada

quinta-feira, fevereiro 06, 2014

as coisas precisam de tempo
pra amadurecer
para se fazer entender
pra germinar e brotar
pra criar raízes...

quinta-feira, janeiro 30, 2014

acho que sou pendular...

a depender do momento, ideias completamente opostas podem me parecer a melhor opção...

segunda-feira, janeiro 27, 2014

guerras

"O sinal de que começara a batalha foi a tosse. Viu lá embaixo uma nuvem de poeira amarela que avançava, e uma outra subiu do chão porque os cavalos cristãos também se haviam lançado para a frente a galope. Rambaldo começou a tossir; e todo o exército imperial tossia entalado em suas armaduras, e assim tossindo e pateando corria rumo à poeirada infiel e já ouvia cada vez mais perto a tosse sarracena. As duas nuvens de poeira se misturaram: tosses e golpes de lança ribombaram em toda a planície."

i.c. O cavaleiro inexistente.

segunda-feira, dezembro 30, 2013

Tristes guerras

Tristes guerras
si no es amor la empresa.
Tristes, tristes.
 
Tristes armas
si no son las palabras.
Tristes, tristes.
 
Tristes hombres
si no mueren de amores.
Tristes, tristes.
 
m. h.

quarta-feira, dezembro 25, 2013

Rir junto

Riem-se. Rir junto é melhor que falar a mesma língua. Ou talvez o riso seja uma língua anterior que fomos perdendo à medida que o mundo foi deixando de ser nosso.
m.c. Venenos de Deus, remédios do Diabo

sábado, dezembro 21, 2013

de hienas e leões

(...) Vendo a gente grande focinhando entre as ossadas ele ainda se perguntou: como é que engordaram tanto se já não há vivos para caçarem, se já só resta pobreza? Uma das hienas lhe respondeu assim:
- É que nós roubamos e reroubamos. Roubamos o Estado, roubamos o país até sobrarem só os ossos.
- Depois de roermos tudo, regurgitamos e voltamos a comer - disse outra hiena.
O que fariam comigo era vender minha carne aos leões vindos de fora. Elas, as hienas nacionais, contentar-se-iam com o esqueleto.
m.c. O último voo do flamingo

sexta-feira, dezembro 13, 2013

divagações

Acho que, diferente do que se diz, a gente não envelhece aos poucos. Acho que envelhecemos aos tropeções, de sopetão. O primeiro porre, o primeiro semestre de faculdade, a primeira vez que o amor acaba ou que magoamos profundamente alguém que amamos, a primeira noite em claro no hospital, no velório. De repente, no meio da confusão, olhamo-nos no espelho, ou reparamos nossas mãos, e uma parte do viço que sempre esteve ali se perdeu, não existe mais.

quarta-feira, dezembro 11, 2013

...Quem mente antes diz a verdade...
h.g.

quinta-feira, dezembro 05, 2013

O mundo não é o que existe, mas o que acontece.
Dito de Tizangara, como visto em O último voo do flamingo

quarta-feira, dezembro 04, 2013

I like the stars

“I like the stars. It's the illusion of permanence, I think. I mean, they're always flaring up and caving in and going out. But from here, I can pretend...I can pretend that things last. I can pretend that lives last longer than moments. Gods come, and gods go. Mortals flicker and flash and fade. Worlds don't last; and stars and galaxies are transient, fleeting things that twinkle like fireflies and vanish into cold and dust. But I can pretend...”

n.g. Brief Lives

perplexities

I have spent my life reading, analyzing, writing (or trying my hand at writing), and enjoying. I found the last to be the most important thing of all. "Drinking in" poetry, I have come to a final conclusion about it. Indeed, every time I am faced with a blank page, I feel that I have to rediscover literature for myself.... I have only my perplexities to offer you. I am nearing seventy. I have given the major part of my life to literature, and I can offer you only doubts.
j.l.b, "The Riddle of Poetry"

terça-feira, novembro 19, 2013

às vésperas de ir dormir, após um dia ruim

It's strange, isn't it, how we tend to think our lives can only go in one direction. It's like living near a big city - you tend to think that all roads lead to the city, not that, from that point, you can choose any direction away from it you want, and just follow it.

I live in a big city. Whenever I think about moving to its surroundings, I always think of how much time I'd spend to travel back to the city, when I needed anything. I never even consider that I'll be closer to other interesting towns, or that I could just keep going on the opposite direction of the city - and arrive at a new, maybe completely different, place. The funny part is that I love to travel, and nonetheless my mind is trapped on that big magnetic center the big city had turned into.

So it seems to be with life - we have our big cities: graduating, making money, marrying someone, getting settled somewhere. And every aspect of these has its own centers: privileged professions, beauty standards, expensive houses.

If we aren't careful enough to look  to either sides of the road - or place where we are - we are trapped into believing it's some kind of path we have follow, and that's there's only one direction to go.

I choose to look around.

Dedicatória

... Aos que não  puderam ficar.

sábado, novembro 16, 2013

Disneylândia

Filho de imigrantes russos casado na Argentina
Com uma pintora judia,
Casou-se pela segunda vez
Com uma princesa africana no México

Música hindú contrabandeada por ciganos poloneses faz sucesso
No interior da Bolívia zebras africanas
E cangurus australianos no zoológico de Londres.
Múmias egípcias e artefatos íncas no museu de Nova York

Lanternas japonesas e chicletes americanos
Nos bazares coreanos de São Paulo.
Imagens de um vulcão nas Filipinas
Passam na rede de televisão em Moçambique

Armênios naturalizados no Chile
Procuram familiares na Etiópia,
Casas pré-fabricadas canadenses
Feitas com madeira colombiana
Multinacionais japonesas
Instalam empresas em Hong-Kong
E produzem com matéria prima brasileira
Para competir no mercado americano

Literatura grega adaptada
Para crianças chinesas da comunidade européia.
Relógios suiços falsificados no Paraguay
Vendidos por camelôs no bairro mexicano de Los Angeles.
Turista francesa fotografada semi-nua com o namorado árabe
Na baixada fluminense

Filmes italianos dublados em inglês
Com legendas em espanhol nos cinemas da Turquia
Pilhas americanas alimentam eletrodomésticos ingleses na Nova Guiné

Gasolina árabe alimenta automóveis americanos na África do Sul.
Pizza italiana alimenta italianos na Itália

Crianças iraquianas fugidas da guerra
Não obtém visto no consulado americano do Egito
Para entrarem na Disneylândia
a. a. / p. m.
Acendeu um cigarro e decidiu fumar o problema.
e. v-m. A viagem vertical

sexta-feira, novembro 15, 2013

Porto Metafísico

"Quando você viaja com alguém", disse-me, "sempre tende a olhar para o que o rodeia com estranhamento, enquanto, quando viaja sozinho, o estranho é sempre você."


e. v-m. A viagem vertical

quinta-feira, novembro 14, 2013

Yo no creo en brujas

Diz o ditado Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay. Quando recebeu a notícia de que sua mãe e sua irmã mais velha haviam morrido em um acidente, minha mãe não quis acreditar. Mas isso não mudou uma vírgula do que houve. Há uma série de coisas que acontecem independente do que pensamos ou esperamos delas - de concordarmos e acreditarmos ou não.

Aonde quero chegar com isso? Não sei. Só me ocorreu pensar quão inexorável a vida - as coisas? - pode ser. As coisas que independem de nós... De nossa vontade.

Em contrapartida, minha vontade pode me dar várias rasteiras, se eu tento contar com ela para realizar algumas coisas. Oh, vida.

terça-feira, novembro 05, 2013

Sintonize a cultura

    Mayol soube descobrir rápido essa condição de ofídio em Lisboa, descobriu-a com a mesma simplicidade com que outros viajantes, recém-chegados à cidade, descobriram sua essência ao ouvir os gemidos roucos de um fado num rádio ao longe. As pessoas que viajam sozinhas têm um sexto sentido, uma espécie de facilidade ou capacidade de percepção muito superior àquelas que viajam acompanhadas e ficam o tempo todo falando como maritacas e nada percebem, incapazes de captar detalhes como o que Mayol pegou no ato, poucas horas depois de chegar a Lisboa, na igreja do mosteiro dos Jerônimos, onde descobriu em suas duas grandes colunas, talhadas no coral, as formas sinuosamente mágicas de duas serpentes, de imediato decidindo relacioná-las à alma da cidade. Relacionou-as de uma forma pedestre, mas profundamente intuitiva, e o fato é que soube estabelecer a relação, e isso, afinal de contas, é o que importa mesmo.
    Mayol relacionou serpente com Lisboa porque sempre ouvira dizer que as mulheres eram como serpentes, e também porque sempre lhe parecera verdade essa coisa de que as cidades são mulheres, cada uma com sua própria maneira de agradar. E Lisboa agradara Mayol desde o momento em que pisou as ruas da Baixa e foi até o Cais do Sodré, agradou-lhe em seguida a cidade, sobretudo porque foi atingido pela rara sensação de ter estado toda a vida naquelas ruas, de ter estado sempre ali.

e.v-m. in A viagem vertical

segunda-feira, novembro 04, 2013

duas semanas e um dia

pessoas e coisas existem, até que... não existem mais. e é isso.

gatos, cachorros, pássaros, pessoas, aves, construções, cidades, países...

como disse bishop, estamos a perder coisas o tempo todo.

lembrar dói, pensar dói.

as coisas em grande escala, para nós, permanecem. a sucessão dos dias - frio, calor, chuva. as estrelas, o oceano. a vida segue.

nós, os vivos, seguimos...?

segunda-feira, outubro 28, 2013

20.10.2013

... a vida é só um detalhe ...

quinta-feira, outubro 24, 2013

há um relógio torto da parede da sala

quarta-feira, outubro 23, 2013

Jactancia de quietud

 Escrituras de luz embisten la sombra, más prodigiosas 
 que meteoros. 
 La alta ciudad inconocible arrecia sobre el campo. 
 Seguro de mi vida y de mi muerte, miro los ambiciosos y quisiera 
 entenderlos. 
 Su día es ávido como el lazo en el aire. 
 Su noche es tregua de la ira en el hierro, pronto en acometer. 
 Hablan de humanidad. 
 Mi humanidad está en sentir que somos voces de una misma 
 penuria. 
 Hablan de patria. 
 Mi patria es un latido de guitarra, unos retratos y una vieja 
 espada, 
 la oración evidente del sauzal en los atardeceres. 
 El tiempo está viviéndome. 
 Más silencioso que mi sombra, cruzo el tropel de su levantada 
 codicia. 
 Ellos son imprescindibles, únicos, merecedores del mañana. 
 Mi nombre es alguien y cualquiera. 
 Paso con lentitud, como quien viene de tan lejos que no espera 
 llegar.
j.l.b.

quinta-feira, outubro 17, 2013

Insuportável, a noite

O prédio fica na esquina do Malecón com a Campanario. A erosão do vento, o salitre, o tempo e a negligência o destruíram. Grandes brechas nas paredes de tijolos. Rachaduras no teto e nas paredes. Com uns dias de chuva e um vento norte ele desmoronava. Mas ali vivem muitas pessoas. Ninguém sabe quantas. Entram e saem. Umas poucas lâmpadas dão uma luz opaca e amarelada. Trevas e silêncio. Todos moram ali ilegalmente. E andam como baratas. Escondidos.
(...)
Senta-se no chão do corredor, de frente para uma falha enorme da parede. Por ali se vê o mar escuro. A noite silenciosa. Há pouco tráfego no Malecón. Ouvem-se as ondas se quebrando nos recifes e borrifando salitre sobre a cidade.
p.j.g.
Trilogia suja de Havana

terça-feira, outubro 08, 2013

Eu, homem de negócios

Mas a carne é fraca. Pelo menos a minha é fraca e pecadora. E acho que com todo mundo acontece a mesma coisa com suas carnes, mas as pessoas não querem se dar conta e até inventaram os conceitos de decência e indecência. Só que ninguém sabe definir onde estão as fronteiras que separam decentes de indecentes.
p.j.g.
Trilogia Suja de Havana

quarta-feira, outubro 02, 2013

Janela sobre a cara

    Uma máquina boba?
    Uma carta que ignora seu remetente e se engana de destino?
    Uma bala perdida, que algum deus disparou por engano?
    Viemos de um ovo muito menor que uma cabeça de alfinete, e habitamos uma pedra que gira em torno de uma estrela anã e que contra essa estrela, algum dia, irá se espatifar.
    Mas fomos feitos de luz, além de carbono e oxigênio e merda e morte e outras coisas, e enfim estamos aqui desde que a beleza do universo precisou de alguém que a visse.

e.g.
As palavras andantes

domingo, setembro 29, 2013

Janela sobre uma mulher (I)

Essa mulher é uma casa secreta.
Em seus cantos, guarda vozes e esconde fantasmas.
Nas noites de inverno, jorra fumaça.
Quem entra nela, dizem, não sai nunca mais.
Eu atravesso o fosso profundo que a rodeia. Nessa casa serei habitado. Nela me espera o vinho que me beberá. Muito suavemente bato na porta, e espero.

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E um trechinho:
E assim foi até que não foi mais.
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E:

Janela sobre uma mulher (II)

A outra chave não gira na porta da rua.
A outra voz, cômica, desafinada, não canta no chuveiro.
No chão do banheiro não há marcas de outros pés molhados.
Nenhum cheiro quente vem da cozinha.
Uma mação meio comida, marcada por outros dentes, começa a apodrecer em cima da mesa.
Um cigarro meio fumado, lagarta de cinza morta, tinge a beira do cinzeiro.
Penso que deveria fazer a barba. Penso que deveria me vestir penso que deveria.
Uma água suja chove dentro de mim.
e.g.
As palavras andantes

sábado, setembro 28, 2013

Janela sobre a palavra (V)

(...)
Haverá algum lugar onde se juntem as palavras que não quiseram ficar? Um reino das palavras perdidas? As palavras que você deixou escapar, onde estarão à sua espera?
e.g.
As palavras andantes

27.09.2013

"Acorde-me quando setembro acabar", eles cantaram. E tantos repetiram, que de repente até eu estava a fazer coro, contando os dias, contando os dedos que restavam, após cada tempestade.

Entretanto, e eventualmente, cá está para chegar outubro. E o que mudará, de fato? Alguns perdidos serão reencontrados, talvez alguns laços sejam refeitos. Mas os que se foram não retornarão, e os novos jamais tomam, de fato, por mais charme ou aconchegos que façam, o lugar dos que não mais estão...

(...)

Escrevo. E depois penso - você não devia ser tão afoita em sair por aí a falar do que ainda não acabou de fato, ou a desdizer do que sequer começou por direito... Setembro já nos ensinou que é possível cair muitas quedas...

quarta-feira, setembro 25, 2013

Janela sobre o medo

A fome come o medo. O medo do silêncio atordoa as ruas.
O medo ameaça:
Se você amar, vai pegar aids.
Se fumar, vai ter câncer.
Se respirar, vai se contaminar.
Se beber, vai ter acidentes.
Se comer, vai ter colesterol.
Se falar, vai perder o emprego.
Se caminhar, vai ter violência.
Se pensar, vai ter angústia.
Se duvidar, vai ter loucura.
Se sentir, vai ter solidão.
e.g.
As palavras andantes

domingo, setembro 22, 2013

Janela sobre a memória (II)

(...)
Temos um esplêndido passado pela frente?
Para os navegantes com desejo de vento, a memória é um porto de partida.
e.g.
As palavras andantes

sexta-feira, setembro 20, 2013

Janela sobre a palavra (I)

Os contadores de história, os cantadores de história, só podem contar enquanto a neve cai. A tradição manda que seja assim. Os índios do norte da América têm muito cuidado com essa questão dos contos. Dizem que quando os contos soam, as plantas não se preocupam em crescer e os pássaros esquecem a comida de seus filhotes.

e.g.
As palavras andantes

quarta-feira, setembro 18, 2013

E se...

E se eu escrevesse histórias com as vidas que não vivi? A qualquer momento do tempo e da história, estou deixando uma vida de lado e escolhendo outra.

Ou estou não escolhendo outras tantas. Não estou virando uma motoqueira toda tatuada. Não sou uma chef em algum restaurante de São Paulo ou Porto Alegre. Não sou trainee de alguma grande empresa. Não virei voluntária da Cruz Vermelha e fui para alguma zona necessitada. Não...

segunda-feira, setembro 16, 2013

10.09.2013

Estava aqui 'inda ontem
abrindo caminho na cama
com suas grandes patas de coelho

Ou sobre a cômoda,
enroscado, rei das roupas
por arrumar.
Sentava-se em minha cadeira
à hora do almoço,
para garantir seu lugar.

Gostava de carinho de pés molhados
após o banho.
De falar e falar.

Não me deixava perder
horários.

Era rosa desbotado
ou salmão.
Enormes pupilas dilatadas
em olhos redondos e amarelos,
dourados,
para caçar barbante.
Escalando pernas e cadeiras
para pedir carinho.

Falava comigo quando
o chamava,
e vinha correndo,
pulando, miando.

Por que tão curto
e unidirecional
o tempo?

Não pude protegê-lo,
colocá-lo no colo,
deixá-lo acionar
seu ronronar de motor.

Não afofam mais
as macias patas
não mais subirá
em minha barriga
ou costas - massagem felina

Não mais seus miados
de abrir porta
ou dar atenção.

(...)

11.09.2013

Eu não consigo reter uma imagem, algo que possa ficar.
Ele é um miado em minha cabeça, soando pela casa.
É um rolinho amarelo desbotado em cima de um monte de roupas.
Um pelo macio. Macio. Macio. Sempre. Quentinho.
Suas patas de coelho e imensos olhos redondos. Amarelos. Pupilas dilatadas para caçar. Ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele uma sequência de d's e alegrias e uma dor que é uma porrada súbita.

E não importa tudo que escreva ou chore ou lembre ou desenhe: nada fará ele voltar.
Sem subir por minhas pernas ou afofar minha barriga.
O abraço tardio não o reteve. Não o protegeu.
Me dá teu colo para eu me enroscar e dormir?

quarta-feira, setembro 11, 2013

10.09.2013

... And then there was silence...

quinta-feira, setembro 05, 2013

um Senhor Branco

http://video.yandex.ru/iframe/varvara-branwen/hxbn08ieak.3028/?player-type=full

Ele foi Branco, branquinho
e uivos e fugas
e passeios de quase trenó

Foi grande e antigo
foi não gostar de estar só

foi companheiro
de gatos e gentes
e acompanhou muitos, desde pequeninos

é ainda guerreiro e valente
agora, porém, ressona mansinho
vaga a mente
já mais lá que aqui

tinha pelos de estopa
algodão
que esvoaçavam no verão
e lambia-se como um gato

era quentinho
atrapalhado
cego de um olho
aconchegante

foram muitos acordares de manhã cedo
muitas corridas noite adentro

trazia o focinho à borda da cama
e o corpo para junto dos pés
aonde quer que se fosse

foi uma vida
foram várias

e como, e por que, tão grande e tão pequena
perto das nossas?

viveu muito mais que seus dias
agora vai correr
sem carros
sem freios
todos os rumos
nesse mundão

(sempre maior e mais velho que nós...)

terça-feira, agosto 27, 2013

self portrait. contemplation. - 1

There are no mysteries,
there's nothing new, either.

I'm the same person.
The same old shell:
sometimes opened, sometimes tightly closed.

Rarely empty.

Except for these tears that roll
only when they want
and become small spots of pain
                                       and grayness inside.

I'll cry not.
Not now.
I'd rather write
or yell
or fight
or run

'till I'm breathless
speechless.

Letting everything
(watching everything)
come.
Letting everything
(watching everything)
go.

Waiting until I'm ready.
'Till they are ready.

Then they're like a storm,
a waterfall, washing over me
flooding me.

Cry me a river, they say.
I could cry several.

But I can't ever really reinvent myself.
Only some lines, maybe.
Hardly full of mysteries.
Never completely new.

sexta-feira, agosto 16, 2013

vagamundo

É uma armadilha, penso. Não me movo. Estou rodeado de lixo pelo norte e pelo sul, o lixo me toma de assalto de leste a oeste. E o lixo que avança, não eu, ou talvez, seja esse fedor a fermento e tripas em decomposição que me encurralam e me vão traçando para asfixiar-me e eu penso que é uma cilada, o primeiro poço de pretóleo não existiu nunca, nunca houve, nunca poderei sair daqui, não sei por onde vim e não há estrelas para me guiarem. Me deixo cair sob o sol em chamas e com a cabeça apertada entre o joelho rogo que caiam em cima de mim a noite ou a chuva.

e.g.

sábado, agosto 03, 2013

Lacônico, conciso e enigmático.

era uma vez.
era uma vez o quê?
era uma vez.
só isso.
daí, depois, fim.
u_u

domingo, junho 30, 2013

...

- Afinal... - continuou o médico, e voltou a hesitar, olhado para Tarrou com atenção. - É uma coisa que um homem como o senhor consegue compreender, não é verdade? Já que a ordem do mundo é regulada pela morte, talvez convenha a Deus que não acreditemos nele e que lutemos com todas as nossas forças contra a morte, sem erguer os olhos para o céu, onde ele se cala.
- Sim - concordou Tarrou -, compreendo. Mas as suas vitórias são sempre efêmeras, nada mais.
O semblante de Rieux pareceu anuviar-se.
- Sempre, bem sei. Não é uma razão para deixar de lutar.
- Não, não é uma razão. Mas imagino então o que esta peste significa para o senhor.
- Sim - tornou Rieux. - Uma interminável derrota.
Tarrou fixou um momento o médico. Depois levantou-se e caminhou pesadamente para a porta. Rieux seguiu-o. Alcançava-o já quando Tarrou, que parecia olhar para os pés, lhe perguntou:
- Quem lhe ensinou tudo isso, doutor?
A resposta veio imediatamente.
- A miséria.
(...)

Está certo. Mas não se cumprimenta um professor por ensinar que dois e dois são quatro. Talvez o felicitemos por ter escolhido esta bela profissão. Digamos, pois, que era louvável que Tarrou e outros tivessem escolhido demonstrar que dois e dois eram quatro e não o contrário, mas digamos também que essa boa vontade lhes era comum à do professor, que, para honra do homem, são mais numerosos do que se pensa, ou pelo menos esta é a convicção do narrador. Aliás, este compreende muito bem a objeção que lhe poderia ser feita, ou seja, que esses homens arriscavam a vida. Mas chega sempre uma hora na história em que aquele que ousa dizer que dois e dois são quatro é punido com a morte. O professor sabe muito bem disso. E a questão não é saber qual é a recompensa ou o castigo que espera esse raciocínio. A questão é saber se dois e dois são ou não quatro.

Com efeito, os que se dedicaram às comissões sanitárias não tiveram um mérito tão grande em fazê-lo, pois sabiam que era a única coisa a fazer, e não se decidir a fazê-lo é que teria sido incrível. Essas comissões ajudaram os nossos concidadãos a penetrar mais na peste e persuadiram-nos, em parte, de que, uma vez que a doença existia, deviam fazer o necessário para lutar contra ela. Porque a peste se tornava assim o dever de alguns ela surgiu realmente como era, isto é, o problema de todos.

a.c. a peste.

(grifo meu)

sábado, junho 29, 2013

We should be mad as hell...

E se toda a onda de violência e repressão às manifestações passar; se o preço da tarifa baixar, congelar, zerar; se gay não se precisar curar; se MP investigar; se a gente não precisar votar; se D "cair" pra A, S ou M subir; se o Estado encolher ou inchar...

Uma quantidade absurda de pessoas continuará morrendo de fome; uma quantidade absurda de mulheres continuará sendo violentada; uma quantidade surreal de lixo continuará sendo despejada em terras de pessoas que não são pessoas, longe das costas que nossos olhos vêem; crianças continuarão a ser tratadas como marginais pelo crime de terem nascido do lado errado de linhas imaginárias ou sem pilas nas contas bancárias.

E não vão mudar as mãos que controlam tudo isso, não haverá dança nas cadeiras nas salas de quem realmente mexe nisso tudo e tem teias de aranha na bunda de tanto, tanto tempo que está no poder, enriquecendo às custas dos que sempre, sempre, por gerações e gerações, terão e serão menos...

A violência está aí o tempo todo. Surda, muda, para nós, acostumados (à força ou por hábito) a não vê-la e, principalmente, a não senti-la.

Ou enlouquecemos de vez e pra sempre e abrimos os olhos e olhamos até doerem, até haver lágrimas mesmo sem gás, até voltar a não fazer sentido ver uma criança lavando o vidro de seu carro enquanto seu filho está confortavelmente no ar condicionado sendo levado para o colégio que não o fará uma pessoa melhor, ou... Sei lá. Tudo vai continuar exatamente como está. Com algumas camadinhas de cal pra disfarçar.

(E, se não olharmos para o lado certo, continuaremos xingando, cuspindo e batendo nos joão bobo que se nos apresentam como alvos, mártires, bodes expiatórios, algozes, culpados...)

sexta-feira, junho 14, 2013

...

um dos grandes méritos dessa nossa merda de democracia
ou de nossa democracia de merda
é que o mundo não para de girar enquanto coisas surreais estão acontecendo
não para de girar pra irmos ou acompanharmos manifestações
não para de girar quando os países da África são soterrados de lixo tecnológico
não para de girar quando 1 bilhão de pessoas sente fome, todos os dias
dia após dia
ele continua girando
e a gente tem que ficar girando com ele
mantendo a porra da máquina girando
oxalá todos parássemos, um dia
uma, duas, trinta vezes
pelas balas, pelas bombas, pelos cacetetes, pelos semáforos com crianças nas ruas, pelos estupros, pela fome, pela obesidade, pelo photoshop, pelas propagandas de carro, futebol e cerveja
saco.

terça-feira, junho 11, 2013

empiria

Contrariando o ditado, esta noite, em minha rua, todos os gatos eram amarelos.

domingo, junho 02, 2013

hey, hey
rain...

as flores estão fechadas
mas o dia está mais claro do que parece

domingo, maio 05, 2013

Debaixo de toda essa roupa de grife
Não consigo ver
O que compõe
Tua matéria fina 

Acontece o tempo todo >.<

That awkward moment when you don't want things to be awkward... But you don't know what to do to avoid it.

...continuar a encenar, quando não há plateia, por vezes é difícil...
Às vezes me sinto presa em mim (ou) em minha própria existência. São momentos de falta de ânimo ou perspectiva, em que sinto vontade de apenas seguir qualquer corrente que me afaste da necessidade de ter de fazer qualquer coisa muito maior do que consumir pílulas de lazer - como ler uma história ou assistir a um vídeo. Momentos de deixar as horas escorrerem. E de ter medo, medo, medo, medo de não fazer nada. Até chegar o dia não haver mais nada a ser feito sobre isso.

É um círculo vicioso que, das últimas vezes que apareceu, consegui romper com uma noite de sono. Ou uma ida à praia, ou sair - sozinha ou com amigos. Mas já houve fases de ser mais difícil combatê-lo. E de realmente achar que poderia acabar ficando presa n'algo assim. Como podemos ser tão presas de nossas variações internas?

terça-feira, abril 30, 2013

sufocamento, angústia, vontade de fugir ou chorar

meu silêncio
não significa
uma porta aberta
para você falar

Criaturas da noite

Solange, Rainha, poetisa, presenteadeira.
E Gerônimo (muito, muito antes). Menino, depois homem feito. Com memória.
E Oscar, argentino, andarilho, engenheiro de minas, artesão. Apreciador de café.

E Diego. E um nome difícil de lembrar, que acho que era Eirã.

E André, que teve de fazer mingau de aveia para sua esposa, porque a farinha de trigo está mais cara do que comprar leite e aveia.
E Flávio Ricardo, que me orientou a tomar cuidado ao dirigir.
E Elisângela? Que me pediu mantimentos, roupas.

E o senhor que se iluminou quando lhe dei boa noite, ontem. Transformando-se de estranho suspeito em vizinho voltando pra casa tarde da noite.

E assim, e tantos, e mais um. Que sempre possa respeitar, reconhecer, lembrar...

Poema bruto

O adocicado aroma dos jasmins toma conta do frio ar da noite.
sei das malditas exceções, mas isto não me impede de descobrir sorrisos quase sempre, quando encaro estranhos desarmada, na noite.
Os ecos de uma violência que não vivi, que vivemos todas, ressoam, encerram, encolhem
mas...
acaso não será o olhar furtivo e assustadiço para trás
que nos dá a amedrontadora sensação de perseguição?
Cerro o portão.
A senhora se aproxima.
Segue seu rumo, recurvada de tempo.

domingo, abril 07, 2013

às vezes de poesia erótica e culinária

Como um(a) amante diligente em busca de sorver as últimas gotas de porra, ligo novamente a cafeteira de fogão, após servir todo o café. Com prazer de quem sabe extrair os últimos sumos, sirvo as últimas gotas, tiradas a febre e pressão.

quarta-feira, abril 03, 2013

...

a vida é como um rpg sem ficha

(e como eu queria, às vezes, ter uma ficha para conseguir saber quais meus pontos fortes e fracos...)

(...)

às vezes (como hoje) sinto que sou péssima para tarefas cabeçudas. ou me sinto medíocre no geral.

e penso em meus amigos e vejo que estou cercada de pessoas fodásticas. me sinto orgulhosa deles. e fico pensando em que serei também eu boa...

sábado, março 30, 2013

A sexta feira não é santa

Quase não tinha dentes. Chamava-se Solange, Rainha. Disse-me que era de Yansã. E poetisa. Recitou sobre o amor, bálsamo da vida. Falou da casca do Pelourinho, que é sua casa, mas não a parte que se vê. Chamou Bahia madrasta. Disse que era seu aniversário, e que era soropositiva.
Me explicou a matemática da reciclagem - 73 latas dão um quilo, um quilo são noventa centavos. E dos valores. Meu milk shake. Um prato de feijão, com suco e pimenta. Mas eu sou gringa, eu posso...
Deu-me um desenho, uma caneta, uma fita do senhor do Bonfim (tomo o cuidado de não deixar que a amarre em meu pulso).
Eu lhe dou atenção, sorrisos, dois reais, um cigarro.
E saio me sentindo falsa dentro do mundo. Ou da vida. Ou do corpo...

segunda-feira, março 18, 2013

tenho andado mais sensível e dada às lágrimas. >.<

quinta-feira, março 14, 2013

Como uma criança que se prepara para fugir de casa ou ir para seu primeiro dia de aula, encho minha mochila de cacarecos.

Preparo-me para enfrentar novas aventuras?

Criança. Crescendo.

Eu e minha pasta...

segunda-feira, janeiro 14, 2013

Achados (e perdidos)

Não sou inquebrável.

Mas sou flexível. E consertável.

quarta-feira, janeiro 02, 2013

Como é que pode haver coisas que doam e deem vontade de chorar, mesmo depois de tanto tempo? Como sara ou conserta ou resolve ou desembola?


Por vezes, é algo que flutua próximo à superfície, sem porém delinear-se por completo. E fica essa sensação de buraco e eu sequer entendo completamente seus porquês...

domingo, dezembro 16, 2012

Mesa grande e lisa.

Quartos para abrigar às minhas almas que nasceram em outros corpos.

Uma grande cozinha.

Comunidade.

16.12.2012. domingo bom

Dá pra viver de crepes, vinho, café, cigarro e pimenta fresca moída na hora?

terça-feira, dezembro 11, 2012

Mais do mesmo

Ao final do dia
findo o expediente
quantos dos rostos cansados
apertados nos ônibus
são negros...?

Música

‎Um pintor pinta imagem numa tela. Mas músicos pintam sua imagem no silêncio.
Charles Peirce

segunda-feira, dezembro 10, 2012

Sua mente e seu corpo fervilhavam. O corpo, um misto de ódio, cansaço e tristeza. A cabeça, ideias. Abriu o laptop, precisava desesperada e urgentemente transformar aquilo tudo em alguma coisa. Tentou  passar o que sentia para a tela em branco, entretanto, sentia que o processo todo era frio demais. Enquanto imaginava que seria algo muito mais verossímil e fluido se pegasse papel e caneta e pudesse extravasar os sentimentos no rascar das linhas da caneta, seu olhar penetrava mais e mais profundamente as formas perfeitas impressas na tela brilhante.

Entrava em transe.

Suas costas doíam. Seu corpo todo doía. Mas não queria parar. Queria, precisava de um momento de catarse, de uma transmutação, de algo.

Foi interrompida por sua mãe.

Fim

segunda-feira, novembro 12, 2012

quarta-feira, outubro 17, 2012

Nada de Novo no Front


Os dias se sucedem, e cada hora é ao mesmo tempo incompreensível e natural. Os ataques seguem-se aos contra-ataques, e, lentamente, nos espaços livres das trincheiras, os mortos se empilham. Geralmente, conseguimos trazer de volta alguns feridos; no entanto, alguns ficam estendidos por muito tempo, e nós os ouvimos morrer.

Procuramos um deles em vão durante dois dias. Deve estar deitado de bruços e não consegue mais virar-se. Não há outra explicação para o fato de não o acharmos, pois somente quando se grita com a boca colada ao chão é difícil determinar a direção do grito.

Deve ter levado um mau tiro, um desses ferimentos traiçoeiros, que não são tão graves a ponto de enfraquecer o corpo com rapidez e deixá-lo entorpecido e nem tão leves que permitam suportar as dores com esperança de ficar curado. Kat diz que deve ser um esmagamento da bacia ou um tiro na espinha. Provavelmente, o peito não está ferido, pois, se assim fosse, não teria forças para gritar tanto. E se estivesse ferido em outro lugar qualquer veríamos seus movimentos.

Aos poucos, ele vai enrouquecendo. A voz tem um som tão débil que não se consegue distinguir de onde vem. Na primeira noite, alguns dos nossos homens saíram três vezes para procurá-lo. Mas quando julgaram tê-lo localizado e já começavam a arrastar-se até lá, na próxima vez em que o escutaram, a voz parecia vir de outro lugar.

Procuramos em vão até o amanhecer. Durante o dia, o campo é vasculhado com o auxílio de um binóculo, mas nada se descobre. No segundo dia, a voz fica mais fraca e sente-se que os lábios e a boca ressecaram.

Nosso comandante de companhia prometeu prioridade de licença e mais três dias suplementares a quem o encontrasse. É um prêmio estimulante, mas faríamos o possível, mesmo sem ele, pois é um clamor terrível. À tarde, Kat e Kropp saem uma vez mais da trincheira. Em conseqüência disto o lóbulo da orelha de Albert é arrancado por um tiro. E foi tudo inútil - voltaram sem ele!

Apesar de tudo, compreende-se claramente o que diz. No princípio, gritava somente por ajuda; na segunda noite, deve ter tido febre, pois, em seu delírio, falava com a mulher e os filhos; muitas vezes escutamos o nome Elisa. Hoje, chora, apenas. À noite, a voz diminui, até tornar-se um gemido rouco. Mas ainda continua durante toda a noite. Ouvimos tudo claramente, porque o vento sopra da direção de nossas trincheiras. De manhã, quando julgávamos que tudo já tivesse terminada, ainda chega até nós um estertor.

Os dias são quentes, e os mortos jazem desenterrados. Não podemos ir buscar todos, são saberíamos para onde ir com eles.

Não precisamos, porém, nos preocupar: são enterrados pelas granadas. Alguns têm as barrigas inchadas como balões, assobiam, arrotam e mexem-se. São os gases que se agitam neles.

e.m.r.

(dá vontade de citar o livro inteiro. de sair dando de presente pra todo mundo.)

sexta-feira, outubro 05, 2012

A sua batata estará sendo assada


Ingredientes

4 batatas grandes, do mesmo tamanho (ou não, isso é mais questão de estética e pra não dar briga entre quem for comer xP )
250g de bacon picado
1 cebola grande picada
1 tomate sem pele cortado em cubinhos (bullshit essa história de tirar a pele)
250g de requeijão cremoso
1/2 xícara de cebolinha picada
Sal, pimenta do reino e orégano (a gosto, mas acho que podes usar em outubro, também)

Preparo

Lave bem as batatas, esfregando-as com uma escovinha macia (você só precisa se certificar de que estão limpas, pois elas serão cozidas com casca). Cozinhe-as até ficarem macias. Escorra-as e embrulhe, uma a uma,  em papel alumínio. Leve ao forno quente para assar. Frite o bacon, escorra e passe os torresminhos para uma tigela. Retire o excesso de gordura da frigideira e refogue nela a cebola e o tomate. Adicione o bacon (lembre-se de deixar um pouco separado para jogar por cima das batatas, como decoração). Tempere com o sal, a pimenta do reino e o orégano (tenho a intuição de que grãos de mostarda vão bem, também). Misture o requeijão e a cebolinha verde. Retire as batatas do forno. Faça um corte no meio, no sentido do comprimento, e raspe um pouco da polpa (use-a no recheio, misturada com o resto). Recheie as batatas e sirva imediatamente, bem quentinhas (queime bem as mãos no processo).

Rendimento
Poderia dizer que é meio intuitivo, mas isso depende de quão gordas (de espírito ou não) as pessoas são.

Para acompanhar
Coca-cola ou qualquer outra bebida bem digestiva. Sofás, redes, camas, tapetes e qualquer outro lugar em que seja possível capotar depois.

\o/

segunda-feira, outubro 01, 2012

Angústia

Critico.

Minhas palavras são minha arma e escudo.

Minha impaciência, um muro.
Sou agressiva, estourada, ríspida.

Não doce ou leve.

Tampouco prestativa, organizada, inteligente.

Simplesmente não.
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Ou talvez seja mau humor extremo.
Tudo errado. Eu errada.

segunda-feira, setembro 17, 2012

Vi ontem um bicho

Se a capacidade de perceber consequências e desdobramentos de suas ações é o que diferencia o homem dos outros animais, alguns de nós há tempos deixamos de ser racionais...

segunda-feira, setembro 10, 2012

A dor é minha.

quinta-feira, setembro 06, 2012

Prazeres

Acordei buscando água, como se fosse uma bêbada. 05:23 da manhã. O que me fizera acordar àquela hora?

Tateei pelo copo d’água ao lado da cama. Enquanto sorvia da água como se tivesse bebido todo o bar na noite anterior, me dei conta. Sonhei com ela, de novo. Estávamos sozinhas na sala de alguém. De um amigo. De um amor não completamente esquecido. Ela usava uma camiseta preta com dizeres que eu ignorarei pra sempre, mas minhas mãos se lembrarão como se tivesse sido real o toque de meus dedos na curva de sua cintura, enquanto tentava chegar a seus seios.

Nossas coxas e quadris já estavam perturbadoramente encaixados então. Nos aproximávamos e comprimíamos nossos sexos - buscando e sendo guiadas pelo ápice eletrizante daquela transa inesperada. Queria enterrar meu rosto em seus grandes seios brancos. Conhecer e morder seus mamilos. Queria tocá-la, senti-la úmida e quente e aberta, fazê-la curvar-se e contorcer-se.

Em vez disso, o choque do prazer terrivelmente rápido e intenso fez com que nos afastássemos. O orgasmo me fazia sonhar acordada, em transe, em estado alterado de consciência pelo gozo, em estado de euforia e estranhamento por finalmente - após tantos, tantos anos - ter acontecido de estar com ela, poder sentir seu corpo, seu toque, sua pele, seu gosto...

E então acabou.

Bebi a água como se pudesse recuperar o gosto de sua saliva nos gulosos goles. O gosto ficou amargo. A cama alheia. O travesseiro, frio. O sonho não voltaria. Ela não vai voltar. Não pros meus braços.

No sonho. Na realidade. Por que continuo fazendo isso?

segunda-feira, setembro 03, 2012

pulgas filosóficas

There is a fundamental reason why we look at the sky with wonder and longing—for the same reason that we stand, hour after hour, gazing at the distant swell of the open ocean. There is something like an ancient wisdom, encoded and tucked away in our DNA, that knows its point of origin as surely as a salmonid knows its creek. Intellectually, we may not want to return there, but the genes know, and long for their origins—their home in the salty depths. But if the seas are our immediate source, the penultimate source is certainly the heavens… . The spectacular truth is—and this is something that your DNA has known all along—the very atoms of your body—the iron, calcium, phosphorus, carbon, nitrogen, oxygen, and on and on—were initially forged in long-dead stars. This is why, when you stand outside under a moonless, country sky, you feel some ineffable tugging at your innards. We are star stuff. Keep looking up.
Jerry Waxman, Astronomical Tidbits

...polvo de estrellas...

Pútridas

As cidades cheiram a lixo e mijo, a vazio e solidão. Excretam tais odores e sentimentos  como uma fenda marinha libera gases pré-históricos, como um ser decrépito deixa escapar seus maus humores a cada suspiro: não agem com maldade ou desamor, não o fazem para vingarem-se dos germes que habitam e poluem sua superfície.

Esta é sua natureza, simplesmente. São seres abissais, seus tempos são outros. Sequer notam nossa efêmera existência sobre si. Seu eterno fedor não é mais que o hálito apodrecido de um adormecido ente de tempos imemoriais.

quinta-feira, agosto 30, 2012

Do abismo do asfalto

As cidades são monstros abissais famintos. Seu principal alimento é o tempo alheio, o tempo mal gasto. Suas vias engarrafadas são os tentáculos que nos mantêm em suas armadilhas. Nutrem-se de nossas frustrações, do tempo que não dedicamos em a ir ao cinema, ou beijar a namorada, ler um livro de poemas, beber um conhaque com os amigos. O tempo sem nossos filhos, sem trabalhar no que acreditamos. É disso que essas criaturas odiosas tiram sua subsistência. É assim que estas criaturas odiosas lidam com seu insaciável apetite.

E todas as noites, como num eterno equilíbrio ou retorno, Morpheus nos realimenta as almas de sonhos e esperanças, para serem devorados, uma vez mais, a cada minuto que se arrasta, travestido de correria, nas entranhas labirtínticas das grandes cidades.

Temporais


Acordei buscando água, como se fosse uma bêbada. 05:23 da manhã. O que me fizera acordar àquela hora?

A tempestade do lado de fora fazia tanta bagunçava que me surpreendi por ter conseguido dormir. Lembrei do barulho de coisas quebrando que ouvira ainda no estágio de quase sonho. Levantei e fui vasculhar a casa.

Havia goteiras no teto de concreto, que haviam sido cobertas com panos, para amenizar a situação. Na sala, a parte superior do quadrante de alumínio da janela havia sido destroçada e distorcida por um raio. Continuando a vasculhar a casa, encontro um amigo em um dos quartos dos fundos, deitado na cama. Quero parar e ficar ali com ele, confortando-o, aquecendo-o. Mas uma mensagem de celular de outro amigo - com quem estou em falta - me deixa ansiosa e dividida.

Enquanto isso, um outro amigo, um grande amor, estava de mãos dadas comigo andando por todos esses lugares - e também me sentia perdida por isso, sem saber assumir o que queria. A casa toda era um grande caos por conta do temporal que acontecia no exterior. Havia amigos e pessoas em vários cômodos, fugidas e abrigadas da chuva. Em um dos quartos, meu irmão me mostrou vários aquários empilhados, solução que ele encontrara para salvar o Beta que tínhamos. Havia muito mais peixes do que jamais tivéramos, misturados em aquários sujos. Alguns estavam mortos. Preocupei-me com aquilo, mas de repente minha atenção já se voltava para outro lugar.

Pela janela, alguém me mostrava todos os carros que tinham estacionado onde antes nada havia. Eram muitos e todos pareciam tão limpos e alinhados que era como olhar para o pátio de uma concessionária. Em nosso quintal.

Em algum espaço que deveria ser o teto, ou o sótão, objetivos e traços inanimados faziam sua própria aventura. Vi riscos na parede formarem-se sozinhos e seguirem um caminho confuso, guiando algo que não consegui identificar direito, de uma mesinha até o topo de uma pequena estante de parede. Estavam em um universo à parte - não estava molhado, nem escuro, nem havia pessoas por lá. Apenas os objetos, em inesperadas ações.

Entrementes, minha atenção continuava dividida entre entes queridos. Não era capaz de evitar todo aquele turbilhão, ainda que quisesse muito um período de calma para poder pensar em tudo aquilo. Precisava entender-me e decidir o que fazer em meio a tudo aquilo, com a bagunça, a mistura, o caos, a água, os distintos amores.

Acordei com a sensação longínqua de perda ou tristeza. 09:50. Acho que sei o que era. O sonho ainda me preenchia. Ainda não sabia o que fazer. Mas o dia prosseguiria.

Papéis

Acordei buscando água, como se fosse uma bêbada. 05:23 da manhã. O que me fizera acordar àquela hora?

Alguém se mexeu a meu lado. Levei a mão à cabeça, como se o gesto pudesse me fazer recobrar a sobriedade. O quarto cheirava bem. Um aroma doce de incenso. Não estava totalmente escuro, uma luz de vela bruxuleava perto do porta retratos...

Me remexi na cama, a razão voltando de um baque. Aquela cama não era minha. Aquele cheiro doce não fazia parte de nenhum cômodo de minha casa. A pessoa no porta-retratos era familiar. Tentei umedecer os lábios, enquanto fazia a máquina da memória funcionar, mas a boca estava seca demais. Fora atrás de água que havia acordado, afinal. Saí da cama. O quarto tinha uma atmosfera rosada. Nem a camiseta que usava era minha. Corri os olhos pelas paredes. Duas portas. Qual seria a do banheiro? Lembrava vagamente de um banho, antes de... acordar com sede.

Na que estava de frente para a cama, o carpete do quarto continuava por baixo. Abri a outra, então. Fechei a porta atrás de mim, tateei até a pia e bebi água dali mesmo. Sentei no vaso e fiquei revirando a noite anterior na cabeça. Ao menos fora naquele banheiro que havia tomado banho - reconheci o toque do tapete áspero com os pés.

Ouvi passos abafados e a porta do banheiro se abriu. Reconheci a garota do porta retrato. Seu sorriso dizia muitas coisas. Ela se aproximou sem falar, com aquele sorriso que mal me deixava pensar no que eu devia estar achando de tudo aquilo. Sentou de pernas abertas sobre mim, ali, de qualquer jeito, já me beijando.

Alguma parte minha devia estar pensando que tinha algo muito errado ali, porque eu sou gay e travesti desde sempre. Mas a verdade é que correspondi com uma paixão que senti poucas vezes antes na vida, e ela parecia saber muito bem que eu faria isso. Beijei-a como se fosse hétero. Outra hora pensaria se deveria sair do armário.

segunda-feira, agosto 27, 2012

Repetições

O motorista
do caminhão de lixo
era branco
os que catavam os detritos
não.

domingo, agosto 26, 2012

Pesadelo

Acordei buscando água, como se fosse uma bêbada. 05:23 da manhã. O que me fizera acordar àquela hora?

Aos poucos as imagens do sonho foram retornando. Primeiro apenas flashes. Depois, cada vez mais nítidas: pernas entrelaçadas embaixo do chuveiro, uma coxa grossa apertando meus quadris, que se remexiam na busca por mais prazer - meu, dela. Levantei, ainda imersa na tensão do banheiro onírico.

Apertei os olhos com os dedos. Queria que tudo aquilo sumisse. Queria que alguém me pegasse daquele jeito, me desejasse, queria desejar a pessoa de volta, na mesma intensidade. Queria gritar, implorar para que alguém me desse prazer, para que alguém quisesse me dar prazer. Ali, já. Algum aspecto louco e infantil começou a percorrer em minha mente possíveis conhecidas ou conhecidos a quem pudesse recorrer.

Como se chega para alguém e pede - Oi, bom dia, dormiu bem? Olha, não tenho muito como explicar agora, mas... quer transar? Não, tudo bem, eu te pego - onde você está? Não funciona. Não no meu mundo. Entrei debaixo do chuveiro de calcinha, água fria, mesmo. Se morasse sozinha, acenderia um cigarro. Se fosse a Rê Bordosa, daria pro primeiro garçom que encontrasse.

Suspiro de novo. Tremo, pulo para espantar o frio. Respiro fundo e entoo um mantra mental para que o desejo saia de meu corpo, junto com a água que escorre e me arrepia. Fecho os olhos, ensaio uma carícia enquanto tiro a calcinha. Não vai funcionar. Quero mais do que isso. 

Lavo o rosto, jogando bastante água e esfregando-o com força. Desligo o chuveiro. Toalha, roupas, café, bichos, dentes, rua, sol. Deixo o tesão na gaveta. Não tenho onde encaixá-lo, de novo, neste dia. Urrarei meu grito desesperado pra dentro. E que um dia eu me exploda em milhões de tesõesinhos.

sexta-feira, agosto 24, 2012

Continuar correndo

Acordei buscando água, como se fosse uma bêbada. 05:23 da manhã. O que me fizera acordar àquela hora?

De tarde, já na rua, tive mais uma vez a mesma revelação que tenho tantas e tantas vezes, reiteradamente - a cidade é uma enorme favela. Queria parar e tirar uma foto: os morros tomados de casebres amontoados. Ao longe, à esquerda - em direção ao centro novo da cidade - edifícios altos e ricos.

Desci o viaduto ainda observando e refletindo sobre a paisagem. A respiração estava difícil: sentia-me ansiosa e culpada por estar atrasada para o trabalho. Queria correr, mas como? A chuva transformara a cidade em uma sucessão de engarrafamentos. As casinhas coloridas e amontoadas ainda me perseguiam: como podemos ficar sem ver tão facilmente? Como ficamos sem ver os barracos, as crianças na rua, os buracos, os alagamentos que se formam com qualquer chuva mais forte...?

Respirei fundo e forçadamente mais uma vez - ansiedade, aflição. Os carros todos se amontoam e atropelam: é preciso continuar correndo. Nos fazem parar para que precisemos voar tão logo haja tempo ou espaço livre. E se passamos correndo, não vemos. Passamos correndo pelas subconstruções que tomam conta do horizonte. Passamos correndo pelos buracos que habitam indiscriminadamente as ruas. Passamos correndo pelas pessoas tomando chuva enquanto esperam ônibus atrasados.

Passamos correndo na hora de entrar nesses mesmos ônibus e não olhamos para o sujeito que vai passar umas oito horas de seu dia ali, fazendo papel de máquina. Passamos correndo pela festa com os amigos que de repente é só um momento de torrar os miolos com música alta e bebida demais - e interações verdadeiras de menos. Passamos correndo pelas propagandas políticas coloridas, mentirosas e invasivas - que se tornam mais presentes na mesma medida em que crescem nossa frustração, indignação e descrença no governo. Em qualquer governo.

Andamos desgovernados, em carros desgovernados, crescimentos desgovernados, corpos desgovernados, vidas desgovernadas. Estamos a mil por hora e vamos bater num muro que não vemos porque estamos ocupados demais.

Mas precisarei continuar correndo. Estou atrasada, no meio do trânsito no meio da vida no meio da tarde, e o horário de trabalho já começou.

terça-feira, agosto 07, 2012

Salvapantallas

Tengo tu voz,
tengo tu tos,
oigo tu canto en el mío.

Rumbos paralelos,
dos anzuelos
en un mismo río.

Vamos al mar,
vamos a dar
cuerda a antiguas vitrolas.

Vamos pedaleando
contra el viento,
detrás de las olas.

Tengo una canción
para mostrarte,
talvez cuando vaya….
Tengo tu sonrisa
en un rincón
de mi salvapantallas.

Años atrás
de pronto la casa
se llenó de canciones.

Músicas y versos
que brotaban
desde tantos rincones.

Vamos al mar,
vamos a dar
guerra con cuatro guitarras.

Vamos pedaleando
contra el tiempo,
soltando amarras.

Brindo por las veces
que perdimos
las mismas batallas.

Tengo tu sonrisa
en un rincón
de mi salvapantallas.


j.d.