sexta-feira, agosto 24, 2012

Continuar correndo

Acordei buscando água, como se fosse uma bêbada. 05:23 da manhã. O que me fizera acordar àquela hora?

De tarde, já na rua, tive mais uma vez a mesma revelação que tenho tantas e tantas vezes, reiteradamente - a cidade é uma enorme favela. Queria parar e tirar uma foto: os morros tomados de casebres amontoados. Ao longe, à esquerda - em direção ao centro novo da cidade - edifícios altos e ricos.

Desci o viaduto ainda observando e refletindo sobre a paisagem. A respiração estava difícil: sentia-me ansiosa e culpada por estar atrasada para o trabalho. Queria correr, mas como? A chuva transformara a cidade em uma sucessão de engarrafamentos. As casinhas coloridas e amontoadas ainda me perseguiam: como podemos ficar sem ver tão facilmente? Como ficamos sem ver os barracos, as crianças na rua, os buracos, os alagamentos que se formam com qualquer chuva mais forte...?

Respirei fundo e forçadamente mais uma vez - ansiedade, aflição. Os carros todos se amontoam e atropelam: é preciso continuar correndo. Nos fazem parar para que precisemos voar tão logo haja tempo ou espaço livre. E se passamos correndo, não vemos. Passamos correndo pelas subconstruções que tomam conta do horizonte. Passamos correndo pelos buracos que habitam indiscriminadamente as ruas. Passamos correndo pelas pessoas tomando chuva enquanto esperam ônibus atrasados.

Passamos correndo na hora de entrar nesses mesmos ônibus e não olhamos para o sujeito que vai passar umas oito horas de seu dia ali, fazendo papel de máquina. Passamos correndo pela festa com os amigos que de repente é só um momento de torrar os miolos com música alta e bebida demais - e interações verdadeiras de menos. Passamos correndo pelas propagandas políticas coloridas, mentirosas e invasivas - que se tornam mais presentes na mesma medida em que crescem nossa frustração, indignação e descrença no governo. Em qualquer governo.

Andamos desgovernados, em carros desgovernados, crescimentos desgovernados, corpos desgovernados, vidas desgovernadas. Estamos a mil por hora e vamos bater num muro que não vemos porque estamos ocupados demais.

Mas precisarei continuar correndo. Estou atrasada, no meio do trânsito no meio da vida no meio da tarde, e o horário de trabalho já começou.

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