Acordei buscando água, como se fosse uma bêbada. 05:23 da manhã. O que me fizera acordar àquela hora?
De
tarde, já na rua, tive mais uma vez a mesma revelação que tenho tantas e
tantas vezes, reiteradamente - a cidade é uma enorme favela. Queria
parar e tirar uma foto: os morros tomados de casebres amontoados. Ao
longe, à esquerda - em direção ao centro novo da cidade - edifícios
altos e ricos.
Desci
o viaduto ainda observando e refletindo sobre a paisagem. A respiração
estava difícil: sentia-me ansiosa e culpada por estar atrasada para o
trabalho. Queria correr, mas como? A chuva transformara a cidade em uma
sucessão de engarrafamentos. As casinhas coloridas e amontoadas ainda me
perseguiam: como podemos ficar sem ver tão facilmente? Como ficamos sem
ver os barracos, as crianças na rua, os buracos, os alagamentos que se
formam com qualquer chuva mais forte...?
Respirei
fundo e forçadamente mais uma vez - ansiedade, aflição. Os carros todos
se amontoam e atropelam: é preciso continuar correndo. Nos fazem parar
para que precisemos voar tão logo haja tempo ou espaço livre. E se
passamos correndo, não vemos. Passamos correndo pelas subconstruções que
tomam conta do horizonte. Passamos correndo pelos buracos que habitam
indiscriminadamente as ruas. Passamos correndo pelas pessoas tomando
chuva enquanto esperam ônibus atrasados.
Passamos
correndo na hora de entrar nesses mesmos ônibus e não olhamos para o
sujeito que vai passar umas oito horas de seu dia ali, fazendo papel de
máquina. Passamos correndo pela festa com os amigos que de repente é só
um momento de torrar os miolos com música alta e bebida demais - e
interações verdadeiras de menos. Passamos correndo pelas propagandas
políticas coloridas, mentirosas e invasivas - que se tornam mais
presentes na mesma medida em que crescem nossa frustração, indignação e
descrença no governo. Em qualquer governo.
Andamos
desgovernados, em carros desgovernados, crescimentos desgovernados,
corpos desgovernados, vidas desgovernadas. Estamos a mil por hora e vamos
bater num muro que não vemos porque estamos ocupados demais.
Mas precisarei continuar correndo. Estou atrasada, no meio do trânsito no meio da vida no meio da tarde, e o horário de trabalho já começou.
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