segunda-feira, fevereiro 27, 2012

There ain't much that's dumber - than pinning your hopes on a change in another

Ela podia ter depositado aquele cheque na hora certa. Podia ter ficado em casa, e marcado de fazerem alguma coisa outro dia, com calma, e que fosse realmente divertida. Ou podia não ter dito nada quando ele chegou. Não havia mais a pressa, afinal... A agência estava vazia, não havia muita gente na fila. Ela não precisava nem ter subido, podia muito bem ter esperado ele chegar - já que não podia resolver nada sem ele, mesmo.

Ou poderia, pelo menos, ter pedido desculpas quando ele explodiu, ao ver a reação dela, logo quando se encontraram. Podia ter sorrido, dito qualquer coisa, e feito tudo se dissolver mais rapidamente. Ou ao menos tentado. Podia não ter jogado fora a senha que tinha pego - uma atitude obviamente agressiva -, mas naquele momento já estava machucada e queria descontar n'algo. Ela podia ter sentado ao lado dele e comentado qualquer coisa sobre o caminho, ou o cheque, ou a senha dele, ou sobre os livros que trouxera para eles lerem enquanto esperavam. Qualquer coisa diferente de fechar a boca, a cara, os olhos, e fingir que estava em qualquer outro lugar...

Ela poderia ter aproveitado quando ele a chamou para acompanhá-lo no caixa para quebrar o clima. Falado finalmente algo sobre a situação, ou o motivo de o depósito não ter sido aceito. Poderia ter feito uma piada semi-maldosa acerca de sua mãe, que lhes colocara naquela enrascada e nem estava lá agora, quando ambos tinham desviado de seus planos daquele dia para resolver um problema que não era de nenhum deles. Qualquer coisa diferente de contiuar com aquela cara que denotava tão ostensivamente que tinha sido magoada e não queria esquecer aquilo.

Ela poderia ter tentado melhorar as coisas enquanto desciam as escadas e se dirigiam para o carro. Perguntado o que fariam agora, se ele gostaria de parar para comer o sanduíche de salsicha alemã, ou se tinha visto o acidente, quando se dirigia para o Banco.

E eles poderiam não ter tentado defender tão agressivamente seus pontos de vista, quando tentaram conversar sobre o assunto, ainda no estacionamento, longe do carro, antes de ir embora. Ela poderia ter abandonado seu apego à magoa e ao modo como se sentira quando ele falara, ter se aberto para a possibilidade de que algo do que dissera o tivesse magoado - não temos controle sobre isso, afinal -, ter pedido desculpas e ter oferecido uma carona...

Ela poderia ter feito qualquer coisa que evitasse sua ida de um ponto ao outro da cidade apenas para ter uma discussão feia que lhe partiu o coração, por uma coisa absolutamente boba, e voltar para casa com aquele aperto no peito e as lágrimas a escorrerem por seu rosto.

E, definitivamente, ela poderia ter evitado ficar escrevendo ao celular, enquanto cobria o percurso de volta, enfrentando o conturbado tráfego de fim de tarde da cidade. Poderia ter deixado o aparelho quieto, esperado chegar em casa - ou, ao menos, um sinal fechado.

Ela então poderia ter visto a moto a tempo. Teria reduzido, freado, desistido da conversão à esquerda. E não precisaria desfazer a manobra às pressas. Nem se chocaria com o caminhão dirigido a toda velocidade por um motorista desatento. O carro não teria a lateral destruída pela força da batida contra os imponentes pneus. O vidro da janela não teria estilhaçado em seu rosto molhado. A porta não teria se dobrado contra seu frágil corpo de menina. As rodas não teriam, por fim, batido violentamente contra o meio-fio, nem as malditas leis da Física, que nunca compreendera muito bem, teriam feito o carro capotar e soltar todo o peso sobre si, quando ele finalmente parou, rodas girando no ar.

Ela teria chegado em casa mais tarde, talvez sem tempo para fazer o que tinha decidido fazer quando aquele dia começara. Mas... ao menos, estaria lá, no fim do dia.

Agora, uma parte dela havia invariavelmente morrido, naquele acidente, enquanto voltava para casa. Pouco importava que continuasse viva, e pudesse chegar, deitar na cama, chorar a briga. Porque, no fim das contas, a garota que chorava distraída batera no caminhão imaginário, no meio de seu percurso, imersa em tristezas recentes e antigas. Não havia sobrevivido. Nunca mais choraria.

domingo, fevereiro 26, 2012

needing is one thing and getting... getting is another.

domingo, fevereiro 19, 2012

“What is the word for the precise moment when you forget how it felt to make love to someone you really liked a long time ago?”
Delirium

Não sei que palavra é. Mas só consigo imaginar que seja uma muito triste...
Acho que uma das coisas que mais me faz gostar de olhar pra trás é perceber que estou vivendo. E mudando...

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

Muito acontece aqui dentro. Preciso de tempo para respirar, processar, sentir... Pensar... Talvez escrever.

sexta-feira, fevereiro 03, 2012

Escreva o que vê

(ou uma ligeira variação disto)

Acordou cedo, com o despertador. Sentiu que tinha o direito de dormir mais um pouco, após ter tido seu sono interrompido durante a madrugada para ter notícias de amigos notívagos. Enroscou-se um pouco entre travesseiros e cobertas, sorriu, com a sensação de ter tido algum sonho bom. Fechou os olhos... mas logo o despertador tocou novamente. Ainda uma vez decidiu que dormiria um pouco mais - informou isso ao alarme do celular. Ensaiou outro mergulho na maciez da roupa de cama. Sorriu de leve, novamente. Mas em poucos minutos já tinha aberto os olhos, apreciado a claridade do dia, e realizado que não poderia continuar na cama. Aquele era seu último dia antes da viagem. Sua mala não estava pronta. Tinha um compromisso do outro lado da cidade em menos de três horas. E ainda tinha outros assuntos a resolver...

Abriu a cortina puxando-a com os dedos dos pés. A luz dourada do sol penetrou diretamente no quarto. Observou a luminosidade em sua pele, corando o corpo ligeiramente bronzeado - cena bonita, pensou. Também pensou que gostaria de ir à praia, sentir a areia, tomar um pouco mais de sol, antes de despedir-se rumo a um mundo muito mais cinza. Girou o corpo, ainda deitada. Dois gatos a observavam, misto de sono e expectativa. Ela havia os reacostumado a comer cedo, para ter, assim, um despertador natural todas as manhãs. Agora, se sentiam no direito de miar e miar, tão logo ela abria os olhos. Mexeu-se. Desligou o ventilador, saiu da cama, recuperou a xícara de chá da noite anterior e bebericou. Ainda estava bom, mas já tinha o gosto ligeiramente velho.

Dirigiu-se, ainda nua, para a sala. Enquanto aguardava o computador ligar, foi até a cozinha para ver se havia algum recado para si. "Que tal levar um pedaço de bolo para Márcio e Beatriz? De boas vindas?"  Gostou da ideia. Voltou ao computador - precisava checar e-mails, dar uma notícia para o irmão, inteirar-se das mensagens da noite. Fora dormir cedo, após passar algum tempo lendo, e então sabia que estaria desatualizada das últimas coisas que sua mãe, seus amigos e seus sócios e companheiros de viagem teriam dito no dia anterior.

Lembrou-se da mensagem que recebera de madrugada. Releu-a, para recuperar o endereço que deveria visitar. Cactos e rosas... Exercício. Leu-o. Gostou da ideia. Reconheceu a história narrada. Sorriu para a amiga distante. Sentiu fome. De volta à cozinha, preparando seu café da manhã, perguntou-se o que teria levado a outra a dedicar-lhe o exercício.

Abacate. Seria a afinidade com a escrita? Açúcar. As ruivas que apareciam? Limão. Talvez o seriado descrito? Amasse bem, misturando os ingredientes. Só não gostaria que fosse uma forma de, sutilmente, criticar seu comportamento, por aproximação a atitudes descritas no texto... Entristeceu-se um pouco, pensando nessa possibilidade.

Razões de dedicatória à parte, ainda precisava responder. Ainda mexendo o abacate, ponderava se escreveria um comentário, mandaria uma mensagem, ou... Sem muito esforço, distanciou-se de si mesma. Observou-se na cozinha, de manhã, nua, fazendo o café da manhã.

Quando voltou para o computador, já sabia o que fazer. Abriu seu próprio blog, e começou a (d)escrever.

(Dedicado ao post homônimo :-) )

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

Tema para conto

Ela demorou muito tempo para perceber. Mas, enfim, se deu conta: gostava das pessoas e reagia a elas de acordo com o que viriam a sentir por ela, em um futuro próximo.

terça-feira, janeiro 31, 2012

I won't say how I wish you were here. I won't say anything. I'll just stand still, quite, and let time pass by. Time has been the best friend in such situations. And it still is...
 ...
Nunca me esquecer de que a vida, como os corpos no cosmos, dá muitas voltas. O que muda é a velocidade e o ritmo...

...

O final é quando você desiste.
s.v.

domingo, janeiro 29, 2012

Do tempo...

Estou viva.

O tempo passa, a vida continua com suas reviravoltas e cenas imprevistas. Mais uma vez, aos poucos, vou me sentindo bem, voltando ao eixo, me fortalecendo...

Estou viva. É bom escrever isso. É ainda melhor viver isso.

Careço de disciplina, muitas vezes. Ainda tenho muito a aprender. A respirar. A caminhar.

Mas estou aqui, olho os caminhos percorridos e me alegro por saber que estou aqui, que passei por um bocado de coisa - muito desespero e incerteza e vazio -, mas por muitas várias razões continuo aqui. Melhor: continuo seguindo. Não estou no mesmo lugar. Isso é bom.

Olhar pra trás me dá a sensação de que a vida pode seguir uma porção de rumos imprevisíveis, e isso, mais do que me dar medo, me deixa com mais vontade de viver, pra saber o que vem por aí.

Eu 'tou viva. Quis desaparecer. Quis sumir. Quis fugir. Quis morrer. Quis chorar até deixar de ser.

Mas um tanto de pessoas e seres maravilhosos me ajudaram a perceber que tinha muito ainda pra acontecer, e me apoiaram de um sem número de formas.

E agora estou viva, e posso continuar a crescer... E, por tudo isso, sou imensamente grata.

De processos, mangas e paixão

(...)
- Se fazer cinco piruetas fosse fácil, não acha que todos os bailarinos do mundo fariam? Cunxin, já comeu manga?
- Não - respondi, tentando adivinhar o que ele queria dizer.
- Manga é uma fruta maravilhosa, com um gosto único! Só é encontrada em algumas regiões do mundo e, assim mesmo, em determinada época do ano. Quero que pense nas piruetas como se fossem mangas. Se eu lhe desse uma manga agora, o que faria?
- Comeria.
- Que apressado! - ele disse, rindo.
- Por quê? O senhor não comeria?
- Para que tanta impaciência? Entendo que quisesse provar o gosto da fruta, mas o melhor é o processo: primeiro, admirar a forma, observar a cor, sentir o cheiro, tirar a casca, cortar em pedaços. Talvez, provar a casca e o caroço. E só então a satisfação final: a polpa. É isso. É preciso aproveitar cada etapa do processo, experimentar as várias camadas, aproveitar tudo. Quero que você trate as piruetas do mesmo modo. Ouse! Descubra o segredo e a essência das piruetas. Se não passar por todas as etapas para depois chegar à polpa, outro fará isso. Então, faça você!
    O professor Xiao e sua manga me despertaram a imaginação. Eu me desafiei a ir adiante, a experimentar novas sensações. Com paixão, comecei a apreciar cada etapa do processo.
L.C. Adeus, China - O Último Bailarino de Mao. pp. 223

sábado, janeiro 28, 2012

Lembranças e aprendizados

O que vale a pena guardar?

O que vale a pena manter?

Great expectations...

... usually come with great frustrations.

domingo, janeiro 22, 2012

Não há como capturar tua essência

Não há como capturar
    tua essência
Para bem registrar cada
    teu mínimo detalhe
    de cor e encantadora beleza,
Precisaria manter a lente
    ou os olhos muito abertos
    e, então,
    infelizmente temo,
tua mágica brancura
o fulgor de teus cabelos
a intensidade de teu olhar
Haveriam de ofuscar quaqluer
    representação
    E roubar qualquer tentativa
de sorver-se o ar
ou aquietar o peito.
Lua alva que
    por mais que abra
    a janela não logro
    avistar!
Ei de cantar-te sempre
Eterna serás em meu sonhar

És já, novamente,
    sonho.
E tão imaterial
    e impalpável
Quanto o eras antes
    de em teus olhos
    respirar

Quero me ver refletida
em tua brancura
Tenho febre de tua pele
dezembro de 2008

divagações e visões de mundo

Me pergunto o que Sartre pensava daquela famosa frase do Saint-Exupéry...

sábado, janeiro 21, 2012

Encontrei uma galinha hoje.

Ela buscava segurança. Eu, silêncio.
Observei-a enquanto tentava dormir um pouco.

Depois, me despedi e fui embora.

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O pneu furou no meio do caminho, e então tive de andar, pra não esquecer que, com paciência, tudo se resolve...

sexta-feira, janeiro 20, 2012

Os acontecimentos dos últimos dias têm sido tão pesados e cheios de mal-entendidos que - percebi agorinha - comecei a ficar com medo quando as pessoas - qualquer pessoa! - vêm falar comigo...

*suspiro*

...

terça-feira, janeiro 17, 2012

Eu posso pintar. Trabalhar. Escrever.
Estudar. Me cuidar.
Eu vou aprender. Aprender e crescer.
Eu vou caminhar.
Vou viver.
Mas não quero me acostumar com tua ausência. Tua distância.

Não posso ficar parada, vendo os dias passarem. Não posso chorar por tudo. Não posso dormir sempre.
abril de 2010

sms

Menina arisca.
Por que te escondes?
E somes de uma hora
        para outra?
Não sabes o que dizer?
Não gostas do que te dizemos?
Menina incógnita,
        como tocar-te?

Menina utopia,
menina horizonte:
por mais passos que se dê
encontra-se sempre distante.

Não quer recheio
ou lírio
ou poemas?

Não três?
Talvez dois...
Como, com uma?
setembro de 2009
Escrevi - te(n)são
Senti muito mais.
Vontade de ver, de conversar,
de tocar, de sentir-me livre pra gostar, pra deixar crescer isto que estou sentindo dentro.
julho de 2009
Vê passar ela, como dança, balança, avança e recua
A gente sua
A roupa suja da cuja se lava no meio da rua
Despudorada, dada, à danada agrada andar seminua
E continua
Ai, a primeira dama, o primeiro drama, o primeiro amor


Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo que amava Juca que amava Dora que amava
Carlos amava Dora que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava
Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto que amava a filha que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha

 c.b.

segunda-feira, janeiro 16, 2012

Sinto, abraço, cheiro, desejo.

Sinto, abraço, cheiro, desejo.
Intensidades
Pintas
Maciezas
Desejo o toque da pele
as pintas
os dedos
o ombro
os cheiros
a boca
as umidezas

conhecer teus detalhes
percorrê-los

remoldar teu corpo ao meu
                                     toque
desejo sentirmo-nos a três
experimentar
conhecer
entender isto

sorrir-te
aspirar-te
ver-te muito

viver comunhão de nós três
desejo-te
desejo-vos
meu corpo se abre
tamanhos quereres...
junho de 2009

18 de janeiro de 2009

Estou claustrofóbica dentro de mim.
Pensei em fazer coisas e deixei o tempo passar e agora parece que já não dá tempo. Que já não há tempo.
Desejava perscrutar-me.

De que são feitas minhas máscaras?


De que são feitas minhas máscaras?
Escondo-me sob material diverso de saco, madeira ou estopa.
Componho-me de muitas substâncias.
E ainda que saiba nomeá-las todas
longe estarei de conhecer minha essência.
Quantas camadas endurecem meu sorriso?
Isto que da face me escorre
Dando-me este eterno ar
de melancolia
                será cola?
                será lágrima?
                será gesso?
                serei siso...?

O que resistir
                ao tempo
                dirá

Pora hora
incorporo o poema
visto a máscara
 calo.
janeiro de 2009

Sensação de sufocamento

Sensação de sufocamento.
Não dará tempo de fazer as coisas.
Não terei tempo de estudar.
Nem de me cuidar.
Nem de ficar só.
Colocar a casa em ordem.
Divertir-me.
O peito está apertado. É angústia? Não sei.
Sinto-me desenquadrada. Desencaixada.
Inapta?
Sensação de dificuldade para respirar.
O que faz sentido?
O tempo parece comprimir-se.
Comprimir-me.

Ganas de desesperar-me. De abandonar-me.
Preciso de um tempo e espaço em prazos impostos por outrem!
Preciso de...
desatar.
Desandada já estou.
janeiro de 2009

I offer you my hands

I offer you my hands
                to gently touch your body
                your curves
I offer you my mouth to smoothly
                drink from yours,
                to softly kiss your skin, your
                neck.
I offer you my tongue, kindly
                sucking your nipples, playing with
                your fur, feeling your taste.
I give you my fingers
                to play with your delightful humidity
                caressing your sex
You can have my mouth
                to experience your sweet  taste
[And my teeth to gently nibble you]
I offer you my body to warmly
                rest yours
or to spend hours awake with

I give you the desire
                dreaming of you
                the body screaming for yours.

I give you my kisses
                my poems
                               and every breath that you can get.
agosto de 2008

Revirando as gavetas

O fundo dos armários.
Dos cadernos.
Do peito...?

Pensando em resgatar poemas (e talvez escritos) antigos, e postá-los aqui. Um ou outro já foram. Não é um momento de nostalgia, é talvez um preparativo de comemoração (e catarse) pelos seis anos do blog, e tudo que esse tempo e esses escritos todos aqui contidos significam em mim...
Ruiva, ruiva, ruiva!
   rubra
      rosinha
         verde
            pintada

   despojada
      forte na voz
         nas opiniões
   
   ruiva,
      meu desejo é teu
      meu desejo é alvo
                           róseo
                           rubro

   quero tuas lições,
      todas.
   Aprender
      Viver contigo.
agosto de 2008

Poemas, rascunhos, escritos e cartas

Tenho-os por todos os lados...

Justificado

Você olhou para trás. O que viu?

Se eu olhasse... Se olhar... verei porque meu peito se aperta agora. É o aperto do anseio e da angústia de uma dezena de histórias acumuladas, todas somando-se ao que vivo e sinto agora, aumentando a força da mão que aprime meu peito. Hoje, ontem... Eu abro as janelas, para me sentir mais livre. E tento narrar minha história com o distanciamento de um narrador. É para poder te enxergar melhor, posso mentir. É para poder disfarçar melhor, posso dizer.

Mãos. Mãos da angústia. Mãos da ansiedade. Mãos do anseio pelo contato. Pelo carinho. Pela recíproca. Pela confirmação. O aperto é de medo ou sofreguidão? Quantas, tantas mãos...? Seguirei passando por elas? Seguirei colecionando toques até o aperto sufocar meu peito? Sei sorver sem sofrer?
Eu me envolvo, eu me apaixono, eu machuco, sofro. Pudesse, não abandonaria. Mas o nosso é um mundo de pares, não de conjuntos. Eu me afeiçôo, admiro, rio, beijo, gozo. Estremeço de prazer ou soluços. Eu me perco de meus afazeres e responsabilidades em cada detalhe de uma pessoa. Não posso...

Fico querendo me exorcizar, me justificar, encontrar um espaço em que eu faça sentido. Eu gosto, eu amo. Abraço e acolho. Sou visceral, e luto para agir com razão sobre isso. Quem acalma o impulso? Meus caminhos, minhas ansiedades, minhas dúvidas, minhas curiosidades, minhas buscas... Meu caminho que parece só.

Se sou assim, não posso convidar ninguém para ir comigo...

segunda-feira, janeiro 02, 2012

Quem vai se encantar por minhas idiossincrasias e fazer com que não me sinta uma estranha sem par nesse mundo doido?

Quem vai fazer com que eu me sinta acolhida sem ter de ser diferente do que sou?

Quem não irá me taxar infantil e ingênua por querer tais coisas...?

terça-feira, dezembro 20, 2011

Viagem

Faço as malas.

Na bagagem, um tanto de angústia
e apreensão
medo do esquecimento,
boas lembranças

pessoas que ficarão...

domingo, dezembro 18, 2011

A gente vive assim: sempre acabando o que não tem fim
h.g.

quinta-feira, dezembro 15, 2011

Auto-retrato

Você é sempre rápida em apedrejar e lançar à prancha, em aumentar a voz. A maioria tem medo. Você tem sorte de serem poucos os que retribuem na mesma moeda. Pois sabe que a fariam chorar.

Às vezes você anseia por ocasiões assim. Anseia por esta ou aquela circunstância que lhe darão alguns parafusos a mais para o juízo, que lhe farão respeitar mais o que as pessoas sentem. Aconteceram poucas vezes. E a verdade é que até agora você não mudou.
Por que tão agressiva? Por que tão sem medidas para atacar? Quantas vezes será necessário fazer e arrepender-se para que mude, enfim? Será sempre como o viciado, que se excede, bate, maltrata, depois, envergonhado, vem pedir perdão? Ou será capaz de ceder ao bom senso antes de ser necessário desculpar-se...?

Não quero ser assim pra sempre. Quero me compreender, aprender, melhorar... Não sou melhor que os outros, preciso parar de ser arrogante e grossa.

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Embaçado

Tenho isso biológica e fisiologicamente, e ontem pela primeira vez me perguntei se essa característica talvez não se extenda também, em alguma medida, a meu comportamento:
sempre que olho de modo muito fixo para algum ponto, minha visão desfoca. Agora, como posso concentrar minha visão em algo, se ao fazê-lo já não consigo ver aquilo com nitidez? Será por isso que tenho tanta dificuldade em me manter concentrada em uma coisa...?

Ou será que estou, mais uma vez, apenas encontrando uma desculpa que me permita ser auto-condescendente?

Seja como for, tenho de aprender a lidar com isso - rapidamente.

Escrever

Sobre laços
espaços
relacionamentos
entrelaçamentos

segunda-feira, dezembro 12, 2011

Se ela mergulhar no espelho, será em busca de si mesma

Desde cedo, sentindo que algo está diferente internamente. Não sei precisar do que se trata, não parei para olhar com calma pra dentro. Não silenciei para ouvir as inquietações que reviram o peito. Não fechei os olhos para entender se é angústia ou ansiedade ou insegurança ou medo do novo ou saudade do conhecido ou algo que ainda não vi. Não me perguntei se era algo comigo ou com outrem.
Nada fiz. Espiei de rabo de olho enquanto me ocupava com outros assuntos. Se me tivesse olhado nos olhos, talvez tivesse desviado o olhar.

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Se me aquietar, fechar os olhos e escutar, saberei que preciso escrever. Saberei que preciso reencontrar o eixo de estar só comigo mesma, sem interferências externas, sejam quais forem, saberei que ainda preciso me esforçar pra aprender a estar quieta, saberei que apesar de ansiar a tranquilidade, volta e meia busco a inquietação.

Saberei que quero uns dias pra fazer o que der na cabeça, sem compromissos ou prazos externos. Saberei que talvez esteja querendo fugir pra olhar de fora minha trilha, pra ver se consigo entender os caminhos que estou tentando trilhar.

E que essa incapacidade de me centrar, de me focar, de andar em linha reta em direção a um ponto claro quer dizer que...
ainda não sei o que significa.

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Ela se envolveu em tantos projetos distintos e distantes, que agora quer voltar para si e já não sabe o caminho. Ela se trancará em seu quarto sem teto ou paredes, ela buscará um espaço só seu, e se isolará do mundo por uma noite ou uma hora ou uma semana e, sem dormir, consumirá chá, conhaque, café e outras coisas estimulantes que comecem com a letra c. E negará tudo que não seja ela mesma, que não lhe seja familiar.

Buscará conforto em músicas estranhas. Porque músicas estranhas não trazem lembranças, estão imaculadas de qualquer emoção anterior.
Deixará o tempo passar mais uma vez, fugindo do que precisa ser feito, em busca do que não tem nome ou forma ou cheiro ou cor, mas lhe inquieta. Olhando, sem realmente enxergar, a sensação de que algo está errado, fora do lugar, diferente do que lhe faz ou faria bem.

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Fechar os olhos e tatear no escuro os passos que já deu, até encontrar um espaço conhecido, um ponto que faça sentido, um novo lugar por onde começar.

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O que se passa...?
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Onde estou?

terça-feira, novembro 29, 2011

A gente é isso - equilíbrios delicados de coisas confusas de lidar e entender...

Também eu. Talvez em demasia, às vezes. Estar em relação é estar sujeito a esses delicados equilíbrios... E ao que suas instabilidades causam, internamente...

segunda-feira, novembro 21, 2011

"Ela era ela era ela no centro da tela daquela manhã
Tudo o que não era ela se desvaneceu
Cristo, montanhas, florestas, acácias, ipês"

sábado, outubro 29, 2011

Estação das Chuvas


Localizada em região de clima tropical atlântico, Salvador era conhecida por ter duas estações: inferno e verão. Esta última se estendia por todos os meses do ano em que não se estava no verão oficial.
Como em qualquer cidade assim caracterizada, sua estação das chuvas era o inverno. Mas quase não havia chovido, aquele ano. Um dia, já na primavera, uma insuspeitada onda de frio chocou-se contra a cidade. Nos primeiros dias, todos acharam que fosse uma frente fria fora de época, coisa comum.
Quando se completou uma semana de chuva sem tréguas, todas as ruas já mostravam o resultado de uma infraestrutura planejada apenas para dias de sol. O primeiro mês encerrou-se com desabamentos, lojas fechadas, hospitais abarrotados. Com 45 dias foi declarado estado de calamidade pública. A chuva não cedia. As autoridades se preocupavam com o Carnaval...
Aos poucos, as pessoas começaram a sacudir a umidade de seu ânimo, e foram criando adaptações, do jeito que dava.
Então, ela parou. Não a chuva – a escritora. Não fazia sentido continuar aquela história. O argumento era sem sal, o enredo sem textura e, na verdade, já fazia um calor de fritar os miolos... Era impossível ter qualquer envolvimento, portanto, com o tema.
Deixou as linhas já escritas de lado e tratou de cuidar da vida. E assim seguiu, até que se deu conta de que, ainda que o clima esquentasse, faziam  já três semanas de chuvas. Bem verdade que esporádicas e localizadas, mas, ainda assim, diárias. Ainda assim, chuvas: molhadas, torrenciais, nos horários mais inconvenientes.
Talvez... Seria possível que ela tivesse algo a ver com aquilo? Deveria voltar ao conto, dar-lhe um fim? Decidiu que faria isso assim que chegasse o fim de semana. Quando se viu em frente àquelas frases esquisitas e sem atrativos, percebeu que seria incapaz de continuar: a história, ainda que tivesse brotado dela, não lhe cativava. Não tinha qualquer laço afetivo, qualquer traço distante de compaixão maternal.
Sequer tentou emendar o que escrevera. Sem pensar duas vezes, sentou-se em frente ao computador e começou a trabalhar diligentemente, compenetrada. Ao final, respirou aliviada. Ainda se preocupou em ir até o banheiro, rasgar cuidadosamente o conto. O fogo ateou-se rapidamente no papel encharcado de álcool. Só deu o ritual por terminado quando restavam apenas cinzas. Então, lavou as mãos e o rosto, abriu o basculante para arejar a fumaça, e não pensou mais no assunto.
Nos dias seguintes, se tivesse acompanhado o jornal, teria ficado sabendo que as chuvas continuaram. Mas não o fizera: estava muito ocupada resolvendo as questões da mudança.
Uma semana depois de ter queimado o conto, sentou-se na poltrona do avião para São Paulo e fechou os olhos. Estava cansada da confusão de realocar toda sua vida para outra cidade, outro clima, outras pessoas. Não mais voltou a Salvador.
Isso aconteceu há mais de um ano. Ainda ontem falei com ela. Disse-lhe que continua chovendo todos os dias, mas que estamos nos acostumando. No começo, ela ainda pedia desculpas, dizendo que sentia muito, mas era incapaz de resolver aquilo. Ontem, abriu um sorriso sarcástico, acendeu um cigarro e disse que a chuva até que nos tem feito bem... e que não tenho nenhuma prova contra ela.
Ela tem razão.

(finalizado em Salvador, 29 de outubro de 2011)

quarta-feira, outubro 26, 2011

A vida prática não tolera ser mantida em suspenso por uma eterna contradição.
Jung

segunda-feira, outubro 24, 2011

aminoácidos vs. bife

Talvez eu já devesse saber, dado o modo como normalmente ocorrem as coisas neste mundo que surgiu para servir ao homem. Mas a verdade é que ainda hoje estava pensando que, se resolvesse parar de consumir diversos produtos por "não concordar com o que representam", ainda poderia continuar a beber tequila (dos destilados que conheço, o melhor).

Por isso não foi sem desapontamento que li a matéria do Envolverde que apresentava sucintamente os efeitos maléficos da indústria de tequila a solo e água mexicanos. Na verdade são contaminações que poderiam ser evitadas se os industriais fossem mais responsáveis, ou seja, é algo contornável. Felizmente para os neoliberais, a Terra está aqui para servi-los, e provavelmente deus dar-lhes-á outra, caso esta acabe antes do prazo, então, os caras continuam a produzir sem maiores preocupações - a não ser com uma multa aqui ou acolá por descumprir os ditames ambientais do governo mexicano.

Fim do post prolixo. Boa noite.

Ah, duas fontes interessantes:
Revista Digital Envolverde - http://envolverde.ig.com.br/#
Todos los Tequilas de Mexico, de la A a la Z - http://www.tequila-z.com/

Have you ever been in love?

“Have you ever been in love? Horrible isn't it? It makes you so vulnerable. It opens your chest and it opens up your heart and it means that someone can get inside you and mess you up. You build up all these defenses, you build up a whole suit of armor, so that nothing can hurt you, then one stupid person, no different from any other stupid person, wanders into your stupid life...You give them a piece of you. They didn't ask for it. They did something dumb one day, like kiss you or smile at you, and then your life isn't your own anymore. Love takes hostages. It gets inside you. It eats you out and leaves you crying in the darkness, so simple a phrase like 'maybe we should be just friends' turns into a glass splinter working its way into your heart. It hurts. Not just in the imagination. Not just in the mind. It's a soul-hurt, a real gets-inside-you-and-rips-you-apart pain. I hate love.”
n. g.

/* Eu gosto do amor. E sou um pouco mais Sartriana que Saint-Exupéry (ou Gaiman nessa citação). Quer dizer, eu acho que o outro não é culpado, por assim dizer, de sofrermos porque gostamos. Não a priori, quero dizer. Mas já chorei no escuro e já perdi o chão e já me senti quebrada e partida e vazia por dentro. E já acordei pra dias sempre cinza, independente da cor do céu mostrada pela janela... */

sábado, outubro 22, 2011

Tema pra conto

Quase não havia chovido em Salvador, naquele ano. Localizada em região de clima tropical atlântico, a cidade tinha como características duas estações: inferno e verão. Esta última cobria todos os meses do ano em que não se estava no verão oficial, incluindo o inverno.
Esse clima particular fazia com que (...)

corta.

/* melhor resumir logo e pegar depois: */

Mal tinha chovido em Salvador, naquele ano.
Um dia, já na primavera, uma insuspeitada onda de frio chegou à cidade. Nos primeiros dias, todos acharam que fosse uma frente fria fora de época, mas passageira.

Quando se completaram duas semanas de chuva sem tréguas, com os problemas transbordando mais do que as já inundadas ruas, as autoridades começaram a se preocupar.

Ao fim do segundo mês, as pessoas aos poucos começavam a se conformar com a situação e a procurar formas de lidar com o novo clima de sua cidade.

(...)

agora eu preciso lembrar de continuar.

quarta-feira, outubro 19, 2011

Das mudanças

A gente se envolve e apega. Pelas mais curiosas coisas.

Quem diria que sentiria um aperto no peito com a possibilidade de mudar o modelo deste blog? De repente, é como se fazer isso, por si, já significasse deixar para trás alguns aspectos de mim, tudo que foi vivido até então, como se me afastasse de algo que gosto perto. Como se me tornasse mais independente, e isso pudesse quebrar coisas por dentro (e por fora).

Mas - como pode? É só um bendito esquema de cores, fontes, design e arrumação que por vezes posso passar semanas sem sequer lembrar da existência.

Seres curiosos somos nós. Há sempre muito que aprender, mesmo...

Caminhada noturna

Andando pela rua deserta pela chuva, vi gatos, cavalos, seres humanos, babacas e outros bichos.

E lixo e cheiro de mijo também...

terça-feira, outubro 18, 2011

De foco e ser antissocial

Mais do que "nunca" tenho experimentado a sensação de não querer participar de alguns eventos sociais. Encontros com muitas pessoas, sem muito foco, ou com muito foco em simplesmente estar junto e conversar aleatoriedades e beber e ficar nesse ciclo até acabar a conversa - ou a bebida - têm me soado quase desnecessários.
O que gosto: estar com amigos, para conversar sobre interesses comuns. Fazer as coisas que tenho de fazer. Ver algum filme. Ambientes mais familiares (não de família, mas de fazer sentido com quem sou, neste momento). O que me incomoda: desvios muito grandes de rota que não levam a locais tão interessantes assim para justificar a fuga de tema.
No meio disso, preciso encontrar a medida certa que me permite não magoar meus amigos, nem me afastar demais de quem sou.

terça-feira, outubro 04, 2011

Pra dizer um dia desses

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

c.d.a.

quarta-feira, setembro 28, 2011

5 anos em duas horas

Qual o caminho? Qual o encaixe? Qual o lugar? Onde fica, onde cabe, de que jeito...? Acho que 'inda tenho muito que desaguar tudo isso [mas ao menos estamos um passo mais perto de algum entendimento...]

sexta-feira, agosto 26, 2011

Perhaps love




Perhaps love is like a resting place, a shelter from the storm
It exists to give you comfort, it is there to keep you warm
And in those times of trouble when you are most alone
The memory of love will bring you home

Perhaps love is like a window, perhaps an open door
It invites you to come closer, it wants to show you more
And even if you lose yourself and don't know what to do
The memory of love will see you through

Oh love to some is like a cloud, to some as strong as steel
For some a way of living, for some a way to feel
And some say love is holding on and some say letting go
And some say love is everything, and some say they don't know

Perhaps love is like the ocean, full of conflict, full of pain
Like a fire when it's cold outside, thunder when it rains
If I should live forever, and all my dreams come true
My memories of love will be of you

Some say love is holding on and some say letting go
And some say love is everything and some say they don't know

Perhaps love is like the ocean, full of conflict, full of pain
Like a fire when it's cold outside, thunder when it rains
If i should live forever, and all my dreams come true
My memories of love will be of you

John Denver

terça-feira, agosto 23, 2011

Tarô de rua

Andando pela rua, vi uma carta de baralho. Um sete de ouros. Anotei mentalmente - olhar em casa depois.
Li à noite.

A nível divinatório, o Sete de Ouros indica o difícil momento da tomada de decisão. É necessária muita ponderação e cautela. A questão surge do impasse de continuarmos a desenvolver tudo aquilo que construímos até então, ou canalizar todos os esforços e energia num novo projeto.
Sharman-Burke, Juliet. Greene, Liz. O Tarô Mitológico: uma nova abordagem para a leitura do Tarô. 10ª ed. São Paulo: Siciliano, 1988. (pág. 207)
Esta é a terceira vez que me acontece algo do tipo. Nas outras duas, senti que a mensagem fez muito sentido no momento em que chegou.
Isso aconteceu na quarta passada, e também faz sentido. Mas ainda me pergunto qual a melhor escolha, e que novo projeto será este...

sexta-feira, agosto 12, 2011

Brincando de ser humano

Voltando para casa, vi uma pessoa dormindo em uma caixa de bonecas.
Na rua
no chão
a caixa - cama e cobertor
Não era nenhuma brincadeira.
Mas as gentes fingem de esconde esconde.
Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.

A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.

Para isso, só sendo louco! Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.

Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.

Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois ao vê-los loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.

o.w.

sábado, agosto 06, 2011

Cantiga Quase de Roda

Na roda do mundo
lá vai o menino.
O mundo é tão grande
e os homens tão sós.
De pena, o menino
começa a cantar.
(cantigas afastam as coisas escuras.)
Mãos dadas os homens,
lá vai o menino,
na roda da vida
rodando e cantando.
A seu lado, há muitos
que cantam também:
cantigas de escárnio
e de maldizer.
Mas como ele sabe
que os homens, embora se façam de fortes,
se façam de grandes,
no fundo carecem de
aurora e de infância
– então ele canta
cantigas de roda
e às vezes inventa
algumas – mas sempre
de amor ou de amigo.
Cantigas que tornem
a vida mais doce
e mais brando o peso
das sombras que o tempo derrama, derrama
na fronte dos homens.
Na roda do mundo
lá vai o menino,
rodando e cantando
seu canto de infância.
Mas lá nas funduras
do peito, outro canto
lhe nasce e ressoa
- erguido de assombros
e de escuridões.
Vazio de infância,
varado de dores,
é o canto mais triste

que as noites já ouviram.
Portanto o menino
não deixa que o mundo
lhe escute esse canto
doloroso e inútil.
Pois sabe que os homens
embora se façam
de graves, de fortes,
no fundo carecem
de claras cantigas
- senão ficam ocos,
senão endoidecem.
E então ele segue
cantando de bosques
de rosas e de anjos,
de anéis e de cirandas,
de nuvens e pássaros,
de sanchas senhoras
cobertas de prata,
de barcas celestes
caídas no mar.
Na roda do mundo,
mãos dadas aos homens,
rodando e cantando
cantigas que façam
o mundo mais manso,
cantigas que façam
a vida mais doce
cantigas que façam
os homens mais crianças.

O canto desse menino
talvez tenha sido em vão.
Mas ele fez o que pôde.
Fez sobretudo o que sempre
lhe mandava o coração
t.m.

quarta-feira, agosto 03, 2011

O mito do bônus (the bonus myth)

"Na realidade, é mais complexo mas mais significativo assegurar qualidade de vida no trabalho, um clima colaborativo e de respeito, salários decentes, transparência nas informações, processos mais democráticos de decisão, redução da jornada de trabalho (as tecnologias já permitem, as ideias não surgem proporcionalmente às horas, e um fim de semana completo com a família todo mundo merce). E também, porque não, aplicar aquelas regras de ética empresarial penduradas na sala da presidência. As coisas que o empregado faz tem de fazer sentido para ele, para o meio ambiente e para a sociedade, não só para os sócios. Passamos muitas horas no trabalho: precisa nos dar certa satisfação todo dia, e todo mês, não no fim do ano."

terça-feira, julho 12, 2011

"O nosso amor, Ilsebill, tudo aquilo que nós nos sussurramos com voz abafada, escondemos em cartas ou trombeteamos do alto de torres ou pelo telefone, superando o barulho do mar num tom ainda mais baixo do que o imaginado, nosso amor, que cercamos com tanto carinho, que mantivemos secretamente dentro de uma caixa de chapéu no meio de quinquilharias e que era tão visível como um botão que falta, que estava escrito em cada tronco de árvore sob nomes diferentes, ele, o nosso amor, que ontem ainda era palpável, um objeto de uso, nosso cola-tudo, a palavra-chave, a inscrição do banheiro, o vibrante filme mudo, uma prece noturna dita em voz trêmula de camisola, a tecla para adoçar nossa canção de sucesso, ele, que corria descalço pelo capim tremulante, ele que como tijolo pouquíssimo gasto estava encaixado num muro de ruínas, ele, que se perdeu na faxina da casa e, quando procurávamos outra coisa, foi achado entre outras justificações usuais, fantasiado de apontador, ele, nosso amor, que nunca acabaria, não existe mais, Ilsebil. Ou ele só é possível, provável, sob certas condições. Ou ele existe ainda - mas em outra parte. Ou ele nunca existiu e por isso ainda seria imaginável."
Grass, Günter. O Linguado. 2a. edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983. pág. 430

/* Não é que me sinta assim nem nada. Mas esse cara escreve d'um jeito que gosto... */