Ela podia ter depositado aquele cheque na hora certa. Podia ter ficado em casa, e marcado de fazerem alguma coisa outro dia, com calma, e que fosse realmente divertida. Ou podia não ter dito nada quando ele chegou. Não havia mais a pressa, afinal... A agência estava vazia, não havia muita gente na fila. Ela não precisava nem ter subido, podia muito bem ter esperado ele chegar - já que não podia resolver nada sem ele, mesmo.
Ou poderia, pelo menos, ter pedido desculpas quando ele explodiu, ao ver a reação dela, logo quando se encontraram. Podia ter sorrido, dito qualquer coisa, e feito tudo se dissolver mais rapidamente. Ou ao menos tentado. Podia não ter jogado fora a senha que tinha pego - uma atitude obviamente agressiva -, mas naquele momento já estava machucada e queria descontar n'algo. Ela podia ter sentado ao lado dele e comentado qualquer coisa sobre o caminho, ou o cheque, ou a senha dele, ou sobre os livros que trouxera para eles lerem enquanto esperavam. Qualquer coisa diferente de fechar a boca, a cara, os olhos, e fingir que estava em qualquer outro lugar...
Ela poderia ter aproveitado quando ele a chamou para acompanhá-lo no caixa para quebrar o clima. Falado finalmente algo sobre a situação, ou o motivo de o depósito não ter sido aceito. Poderia ter feito uma piada semi-maldosa acerca de sua mãe, que lhes colocara naquela enrascada e nem estava lá agora, quando ambos tinham desviado de seus planos daquele dia para resolver um problema que não era de nenhum deles. Qualquer coisa diferente de contiuar com aquela cara que denotava tão ostensivamente que tinha sido magoada e não queria esquecer aquilo.
Ela poderia ter tentado melhorar as coisas enquanto desciam as escadas e se dirigiam para o carro. Perguntado o que fariam agora, se ele gostaria de parar para comer o sanduíche de salsicha alemã, ou se tinha visto o acidente, quando se dirigia para o Banco.
E eles poderiam não ter tentado defender tão agressivamente seus pontos de vista, quando tentaram conversar sobre o assunto, ainda no estacionamento, longe do carro, antes de ir embora. Ela poderia ter abandonado seu apego à magoa e ao modo como se sentira quando ele falara, ter se aberto para a possibilidade de que algo do que dissera o tivesse magoado - não temos controle sobre isso, afinal -, ter pedido desculpas e ter oferecido uma carona...
Ela poderia ter feito qualquer coisa que evitasse sua ida de um ponto ao outro da cidade apenas para ter uma discussão feia que lhe partiu o coração, por uma coisa absolutamente boba, e voltar para casa com aquele aperto no peito e as lágrimas a escorrerem por seu rosto.
E, definitivamente, ela poderia ter evitado ficar escrevendo ao celular, enquanto cobria o percurso de volta, enfrentando o conturbado tráfego de fim de tarde da cidade. Poderia ter deixado o aparelho quieto, esperado chegar em casa - ou, ao menos, um sinal fechado.
Ela então poderia ter visto a moto a tempo. Teria reduzido, freado, desistido da conversão à esquerda. E não precisaria desfazer a manobra às pressas. Nem se chocaria com o caminhão dirigido a toda velocidade por um motorista desatento. O carro não teria a lateral destruída pela força da batida contra os imponentes pneus. O vidro da janela não teria estilhaçado em seu rosto molhado. A porta não teria se dobrado contra seu frágil corpo de menina. As rodas não teriam, por fim, batido violentamente contra o meio-fio, nem as malditas leis da Física, que nunca compreendera muito bem, teriam feito o carro capotar e soltar todo o peso sobre si, quando ele finalmente parou, rodas girando no ar.
Ela teria chegado em casa mais tarde, talvez sem tempo para fazer o que tinha decidido fazer quando aquele dia começara. Mas... ao menos, estaria lá, no fim do dia.
Agora, uma parte dela havia invariavelmente morrido, naquele acidente, enquanto voltava para casa. Pouco importava que continuasse viva, e pudesse chegar, deitar na cama, chorar a briga. Porque, no fim das contas, a garota que chorava distraída batera no caminhão imaginário, no meio de seu percurso, imersa em tristezas recentes e antigas. Não havia sobrevivido. Nunca mais choraria.
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