Eu me pergunto se valeu a pena. Tudo que me aconteceu na vida ocorreu a mim como autor de peças. Tomado de amor ou luxúria, no auge da paixão, eu pensava então a sensação é esta, para depois descrever aquilo com palavras belas. Assisti à minha vida, como se estivesse acontecendo a outra pessoa. Meu filho morreu. Eu sofri, mas assisti ao meu sofrimento, e até o apreciei um tanto, pois poderia escrever sobre uma morte real, uma perda genuína.
Tive o coração partido por uma dama negra e, sozinho em meu quarto, chorei. Mas enquanto chorava, em algum lugar dentro de mim eu sorria. Pois estava ciente de que poderia tomar meu coração partido e colocá-lo no palco do globe, para que a platéia derramasse suas próprias lágrimas.
(...)
E Próspero, Miranda, Calibã e Gonzalo, o etéreo Ariel e o silencioso Antônio, para mim, são todos mais reais do que o sábio e desajuizado Ben Jonson, Susanne e Judith, os bons cidadãos de Stratford, as meretrizes e desclassificadas de Londres..."
William Shakespeare fala a Morpheus, em Sandman, Despertar - A Tempestade. (Neil Gaiman)
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