segunda-feira, dezembro 30, 2013
Tristes guerras
quarta-feira, dezembro 25, 2013
Rir junto
Riem-se. Rir junto é melhor que falar a mesma língua. Ou talvez o riso seja uma língua anterior que fomos perdendo à medida que o mundo foi deixando de ser nosso.
m.c. Venenos de Deus, remédios do Diabo
sábado, dezembro 21, 2013
de hienas e leões
(...) Vendo a gente grande focinhando entre as ossadas ele ainda se perguntou: como é que engordaram tanto se já não há vivos para caçarem, se já só resta pobreza? Uma das hienas lhe respondeu assim:
- É que nós roubamos e reroubamos. Roubamos o Estado, roubamos o país até sobrarem só os ossos.
- Depois de roermos tudo, regurgitamos e voltamos a comer - disse outra hiena.
O que fariam comigo era vender minha carne aos leões vindos de fora. Elas, as hienas nacionais, contentar-se-iam com o esqueleto.
m.c. O último voo do flamingo
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sexta-feira, dezembro 13, 2013
divagações
Acho que, diferente do que se diz, a gente não envelhece aos poucos. Acho que envelhecemos aos tropeções, de sopetão. O primeiro porre, o primeiro semestre de faculdade, a primeira vez que o amor acaba ou que magoamos profundamente alguém que amamos, a primeira noite em claro no hospital, no velório. De repente, no meio da confusão, olhamo-nos no espelho, ou reparamos nossas mãos, e uma parte do viço que sempre esteve ali se perdeu, não existe mais.
quinta-feira, dezembro 05, 2013
quarta-feira, dezembro 04, 2013
I like the stars
“I like the stars. It's the illusion of permanence, I think. I mean, they're always flaring up and caving in and going out. But from here, I can pretend...I can pretend that things last. I can pretend that lives last longer than moments. Gods come, and gods go. Mortals flicker and flash and fade. Worlds don't last; and stars and galaxies are transient, fleeting things that twinkle like fireflies and vanish into cold and dust. But I can pretend...”
n.g. Brief Lives
perplexities
I have spent my life reading, analyzing, writing (or trying my hand at writing), and enjoying. I found the last to be the most important thing of all. "Drinking in" poetry, I have come to a final conclusion about it. Indeed, every time I am faced with a blank page, I feel that I have to rediscover literature for myself.... I have only my perplexities to offer you. I am nearing seventy. I have given the major part of my life to literature, and I can offer you only doubts.
j.l.b, "The Riddle of Poetry"
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terça-feira, novembro 19, 2013
às vésperas de ir dormir, após um dia ruim
It's strange, isn't it, how we tend to think our lives can only go in one direction. It's like living near a big city - you tend to think that all roads lead to the city, not that, from that point, you can choose any direction away from it you want, and just follow it.
I live in a big city. Whenever I think about moving to its surroundings, I always think of how much time I'd spend to travel back to the city, when I needed anything. I never even consider that I'll be closer to other interesting towns, or that I could just keep going on the opposite direction of the city - and arrive at a new, maybe completely different, place. The funny part is that I love to travel, and nonetheless my mind is trapped on that big magnetic center the big city had turned into.
So it seems to be with life - we have our big cities: graduating, making money, marrying someone, getting settled somewhere. And every aspect of these has its own centers: privileged professions, beauty standards, expensive houses.
If we aren't careful enough to look to either sides of the road - or place where we are - we are trapped into believing it's some kind of path we have follow, and that's there's only one direction to go.
I choose to look around.
I live in a big city. Whenever I think about moving to its surroundings, I always think of how much time I'd spend to travel back to the city, when I needed anything. I never even consider that I'll be closer to other interesting towns, or that I could just keep going on the opposite direction of the city - and arrive at a new, maybe completely different, place. The funny part is that I love to travel, and nonetheless my mind is trapped on that big magnetic center the big city had turned into.
So it seems to be with life - we have our big cities: graduating, making money, marrying someone, getting settled somewhere. And every aspect of these has its own centers: privileged professions, beauty standards, expensive houses.
If we aren't careful enough to look to either sides of the road - or place where we are - we are trapped into believing it's some kind of path we have follow, and that's there's only one direction to go.
I choose to look around.
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sábado, novembro 16, 2013
Disneylândia
Filho de imigrantes russos casado na Argentina
Com uma pintora judia,
Casou-se pela segunda vez
Com uma princesa africana no México
Música hindú contrabandeada por ciganos poloneses faz sucesso
No interior da Bolívia zebras africanas
E cangurus australianos no zoológico de Londres.
Múmias egípcias e artefatos íncas no museu de Nova York
Lanternas japonesas e chicletes americanos
Nos bazares coreanos de São Paulo.
Imagens de um vulcão nas Filipinas
Passam na rede de televisão em Moçambique
Armênios naturalizados no Chile
Procuram familiares na Etiópia,
Casas pré-fabricadas canadenses
Feitas com madeira colombiana
Multinacionais japonesas
Instalam empresas em Hong-Kong
E produzem com matéria prima brasileira
Para competir no mercado americano
Literatura grega adaptada
Para crianças chinesas da comunidade européia.
Relógios suiços falsificados no Paraguay
Vendidos por camelôs no bairro mexicano de Los Angeles.
Turista francesa fotografada semi-nua com o namorado árabe
Na baixada fluminense
Filmes italianos dublados em inglês
Com legendas em espanhol nos cinemas da Turquia
Pilhas americanas alimentam eletrodomésticos ingleses na Nova Guiné
Gasolina árabe alimenta automóveis americanos na África do Sul.
Pizza italiana alimenta italianos na Itália
Crianças iraquianas fugidas da guerra
Não obtém visto no consulado americano do Egito
Para entrarem na Disneylândia
a. a. / p. m.
sexta-feira, novembro 15, 2013
Porto Metafísico
"Quando você viaja com alguém", disse-me, "sempre tende a olhar para o que o rodeia com estranhamento, enquanto, quando viaja sozinho, o estranho é sempre você."
e. v-m. A viagem vertical
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quinta-feira, novembro 14, 2013
Yo no creo en brujas
Diz o ditado Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay. Quando recebeu a notícia de que sua mãe e sua irmã mais velha haviam morrido em um acidente, minha mãe não quis acreditar. Mas isso não mudou uma vírgula do que houve. Há uma série de coisas que acontecem independente do que pensamos ou esperamos delas - de concordarmos e acreditarmos ou não.
Aonde quero chegar com isso? Não sei. Só me ocorreu pensar quão inexorável a vida - as coisas? - pode ser. As coisas que independem de nós... De nossa vontade.
Em contrapartida, minha vontade pode me dar várias rasteiras, se eu tento contar com ela para realizar algumas coisas. Oh, vida.
terça-feira, novembro 05, 2013
Sintonize a cultura
Mayol soube descobrir rápido essa condição de ofídio em Lisboa, descobriu-a com a mesma simplicidade com que outros viajantes, recém-chegados à cidade, descobriram sua essência ao ouvir os gemidos roucos de um fado num rádio ao longe. As pessoas que viajam sozinhas têm um sexto sentido, uma espécie de facilidade ou capacidade de percepção muito superior àquelas que viajam acompanhadas e ficam o tempo todo falando como maritacas e nada percebem, incapazes de captar detalhes como o que Mayol pegou no ato, poucas horas depois de chegar a Lisboa, na igreja do mosteiro dos Jerônimos, onde descobriu em suas duas grandes colunas, talhadas no coral, as formas sinuosamente mágicas de duas serpentes, de imediato decidindo relacioná-las à alma da cidade. Relacionou-as de uma forma pedestre, mas profundamente intuitiva, e o fato é que soube estabelecer a relação, e isso, afinal de contas, é o que importa mesmo.
Mayol relacionou serpente com Lisboa porque sempre ouvira dizer que as mulheres eram como serpentes, e também porque sempre lhe parecera verdade essa coisa de que as cidades são mulheres, cada uma com sua própria maneira de agradar. E Lisboa agradara Mayol desde o momento em que pisou as ruas da Baixa e foi até o Cais do Sodré, agradou-lhe em seguida a cidade, sobretudo porque foi atingido pela rara sensação de ter estado toda a vida naquelas ruas, de ter estado sempre ali.
e.v-m. in A viagem vertical
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segunda-feira, novembro 04, 2013
duas semanas e um dia
pessoas e coisas existem, até que... não existem mais. e é isso.
gatos, cachorros, pássaros, pessoas, aves, construções, cidades, países...
como disse bishop, estamos a perder coisas o tempo todo.
lembrar dói, pensar dói.
as coisas em grande escala, para nós, permanecem. a sucessão dos dias - frio, calor, chuva. as estrelas, o oceano. a vida segue.
nós, os vivos, seguimos...?
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segunda-feira, outubro 28, 2013
quinta-feira, outubro 24, 2013
quarta-feira, outubro 23, 2013
Jactancia de quietud
Escrituras de luz embisten la sombra, más prodigiosas
que meteoros.
La alta ciudad inconocible arrecia sobre el campo.
Seguro de mi vida y de mi muerte, miro los ambiciosos y quisiera
entenderlos.
Su día es ávido como el lazo en el aire.
Su noche es tregua de la ira en el hierro, pronto en acometer.
Hablan de humanidad.
Mi humanidad está en sentir que somos voces de una misma
penuria.
Hablan de patria.
Mi patria es un latido de guitarra, unos retratos y una vieja
espada,
la oración evidente del sauzal en los atardeceres.
El tiempo está viviéndome.
Más silencioso que mi sombra, cruzo el tropel de su levantada
codicia.
Ellos son imprescindibles, únicos, merecedores del mañana.
Mi nombre es alguien y cualquiera.
Paso con lentitud, como quien viene de tan lejos que no espera
llegar.
j.l.b.
quinta-feira, outubro 17, 2013
Insuportável, a noite
O prédio fica na esquina do Malecón com a Campanario. A erosão do vento, o salitre, o tempo e a negligência o destruíram. Grandes brechas nas paredes de tijolos. Rachaduras no teto e nas paredes. Com uns dias de chuva e um vento norte ele desmoronava. Mas ali vivem muitas pessoas. Ninguém sabe quantas. Entram e saem. Umas poucas lâmpadas dão uma luz opaca e amarelada. Trevas e silêncio. Todos moram ali ilegalmente. E andam como baratas. Escondidos.
(...)
Senta-se no chão do corredor, de frente para uma falha enorme da parede. Por ali se vê o mar escuro. A noite silenciosa. Há pouco tráfego no Malecón. Ouvem-se as ondas se quebrando nos recifes e borrifando salitre sobre a cidade.
(...)
Senta-se no chão do corredor, de frente para uma falha enorme da parede. Por ali se vê o mar escuro. A noite silenciosa. Há pouco tráfego no Malecón. Ouvem-se as ondas se quebrando nos recifes e borrifando salitre sobre a cidade.
p.j.g.
Trilogia suja de Havana
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