quinta-feira, outubro 17, 2013

Insuportável, a noite

O prédio fica na esquina do Malecón com a Campanario. A erosão do vento, o salitre, o tempo e a negligência o destruíram. Grandes brechas nas paredes de tijolos. Rachaduras no teto e nas paredes. Com uns dias de chuva e um vento norte ele desmoronava. Mas ali vivem muitas pessoas. Ninguém sabe quantas. Entram e saem. Umas poucas lâmpadas dão uma luz opaca e amarelada. Trevas e silêncio. Todos moram ali ilegalmente. E andam como baratas. Escondidos.
(...)
Senta-se no chão do corredor, de frente para uma falha enorme da parede. Por ali se vê o mar escuro. A noite silenciosa. Há pouco tráfego no Malecón. Ouvem-se as ondas se quebrando nos recifes e borrifando salitre sobre a cidade.
p.j.g.
Trilogia suja de Havana

terça-feira, outubro 08, 2013

Eu, homem de negócios

Mas a carne é fraca. Pelo menos a minha é fraca e pecadora. E acho que com todo mundo acontece a mesma coisa com suas carnes, mas as pessoas não querem se dar conta e até inventaram os conceitos de decência e indecência. Só que ninguém sabe definir onde estão as fronteiras que separam decentes de indecentes.
p.j.g.
Trilogia Suja de Havana

quarta-feira, outubro 02, 2013

Janela sobre a cara

    Uma máquina boba?
    Uma carta que ignora seu remetente e se engana de destino?
    Uma bala perdida, que algum deus disparou por engano?
    Viemos de um ovo muito menor que uma cabeça de alfinete, e habitamos uma pedra que gira em torno de uma estrela anã e que contra essa estrela, algum dia, irá se espatifar.
    Mas fomos feitos de luz, além de carbono e oxigênio e merda e morte e outras coisas, e enfim estamos aqui desde que a beleza do universo precisou de alguém que a visse.

e.g.
As palavras andantes

domingo, setembro 29, 2013

Janela sobre uma mulher (I)

Essa mulher é uma casa secreta.
Em seus cantos, guarda vozes e esconde fantasmas.
Nas noites de inverno, jorra fumaça.
Quem entra nela, dizem, não sai nunca mais.
Eu atravesso o fosso profundo que a rodeia. Nessa casa serei habitado. Nela me espera o vinho que me beberá. Muito suavemente bato na porta, e espero.

------------------------------------------------------------
E um trechinho:
E assim foi até que não foi mais.
------------------------------------------------------------

E:

Janela sobre uma mulher (II)

A outra chave não gira na porta da rua.
A outra voz, cômica, desafinada, não canta no chuveiro.
No chão do banheiro não há marcas de outros pés molhados.
Nenhum cheiro quente vem da cozinha.
Uma mação meio comida, marcada por outros dentes, começa a apodrecer em cima da mesa.
Um cigarro meio fumado, lagarta de cinza morta, tinge a beira do cinzeiro.
Penso que deveria fazer a barba. Penso que deveria me vestir penso que deveria.
Uma água suja chove dentro de mim.
e.g.
As palavras andantes

sábado, setembro 28, 2013

Janela sobre a palavra (V)

(...)
Haverá algum lugar onde se juntem as palavras que não quiseram ficar? Um reino das palavras perdidas? As palavras que você deixou escapar, onde estarão à sua espera?
e.g.
As palavras andantes

27.09.2013

"Acorde-me quando setembro acabar", eles cantaram. E tantos repetiram, que de repente até eu estava a fazer coro, contando os dias, contando os dedos que restavam, após cada tempestade.

Entretanto, e eventualmente, cá está para chegar outubro. E o que mudará, de fato? Alguns perdidos serão reencontrados, talvez alguns laços sejam refeitos. Mas os que se foram não retornarão, e os novos jamais tomam, de fato, por mais charme ou aconchegos que façam, o lugar dos que não mais estão...

(...)

Escrevo. E depois penso - você não devia ser tão afoita em sair por aí a falar do que ainda não acabou de fato, ou a desdizer do que sequer começou por direito... Setembro já nos ensinou que é possível cair muitas quedas...

quarta-feira, setembro 25, 2013

Janela sobre o medo

A fome come o medo. O medo do silêncio atordoa as ruas.
O medo ameaça:
Se você amar, vai pegar aids.
Se fumar, vai ter câncer.
Se respirar, vai se contaminar.
Se beber, vai ter acidentes.
Se comer, vai ter colesterol.
Se falar, vai perder o emprego.
Se caminhar, vai ter violência.
Se pensar, vai ter angústia.
Se duvidar, vai ter loucura.
Se sentir, vai ter solidão.
e.g.
As palavras andantes

domingo, setembro 22, 2013

Janela sobre a memória (II)

(...)
Temos um esplêndido passado pela frente?
Para os navegantes com desejo de vento, a memória é um porto de partida.
e.g.
As palavras andantes

sexta-feira, setembro 20, 2013

Janela sobre a palavra (I)

Os contadores de história, os cantadores de história, só podem contar enquanto a neve cai. A tradição manda que seja assim. Os índios do norte da América têm muito cuidado com essa questão dos contos. Dizem que quando os contos soam, as plantas não se preocupam em crescer e os pássaros esquecem a comida de seus filhotes.

e.g.
As palavras andantes

quarta-feira, setembro 18, 2013

E se...

E se eu escrevesse histórias com as vidas que não vivi? A qualquer momento do tempo e da história, estou deixando uma vida de lado e escolhendo outra.

Ou estou não escolhendo outras tantas. Não estou virando uma motoqueira toda tatuada. Não sou uma chef em algum restaurante de São Paulo ou Porto Alegre. Não sou trainee de alguma grande empresa. Não virei voluntária da Cruz Vermelha e fui para alguma zona necessitada. Não...

segunda-feira, setembro 16, 2013

10.09.2013

Estava aqui 'inda ontem
abrindo caminho na cama
com suas grandes patas de coelho

Ou sobre a cômoda,
enroscado, rei das roupas
por arrumar.
Sentava-se em minha cadeira
à hora do almoço,
para garantir seu lugar.

Gostava de carinho de pés molhados
após o banho.
De falar e falar.

Não me deixava perder
horários.

Era rosa desbotado
ou salmão.
Enormes pupilas dilatadas
em olhos redondos e amarelos,
dourados,
para caçar barbante.
Escalando pernas e cadeiras
para pedir carinho.

Falava comigo quando
o chamava,
e vinha correndo,
pulando, miando.

Por que tão curto
e unidirecional
o tempo?

Não pude protegê-lo,
colocá-lo no colo,
deixá-lo acionar
seu ronronar de motor.

Não afofam mais
as macias patas
não mais subirá
em minha barriga
ou costas - massagem felina

Não mais seus miados
de abrir porta
ou dar atenção.

(...)

11.09.2013

Eu não consigo reter uma imagem, algo que possa ficar.
Ele é um miado em minha cabeça, soando pela casa.
É um rolinho amarelo desbotado em cima de um monte de roupas.
Um pelo macio. Macio. Macio. Sempre. Quentinho.
Suas patas de coelho e imensos olhos redondos. Amarelos. Pupilas dilatadas para caçar. Ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele ele uma sequência de d's e alegrias e uma dor que é uma porrada súbita.

E não importa tudo que escreva ou chore ou lembre ou desenhe: nada fará ele voltar.
Sem subir por minhas pernas ou afofar minha barriga.
O abraço tardio não o reteve. Não o protegeu.
Me dá teu colo para eu me enroscar e dormir?

quarta-feira, setembro 11, 2013

10.09.2013

... And then there was silence...

quinta-feira, setembro 05, 2013

um Senhor Branco

http://video.yandex.ru/iframe/varvara-branwen/hxbn08ieak.3028/?player-type=full

Ele foi Branco, branquinho
e uivos e fugas
e passeios de quase trenó

Foi grande e antigo
foi não gostar de estar só

foi companheiro
de gatos e gentes
e acompanhou muitos, desde pequeninos

é ainda guerreiro e valente
agora, porém, ressona mansinho
vaga a mente
já mais lá que aqui

tinha pelos de estopa
algodão
que esvoaçavam no verão
e lambia-se como um gato

era quentinho
atrapalhado
cego de um olho
aconchegante

foram muitos acordares de manhã cedo
muitas corridas noite adentro

trazia o focinho à borda da cama
e o corpo para junto dos pés
aonde quer que se fosse

foi uma vida
foram várias

e como, e por que, tão grande e tão pequena
perto das nossas?

viveu muito mais que seus dias
agora vai correr
sem carros
sem freios
todos os rumos
nesse mundão

(sempre maior e mais velho que nós...)

terça-feira, agosto 27, 2013

self portrait. contemplation. - 1

There are no mysteries,
there's nothing new, either.

I'm the same person.
The same old shell:
sometimes opened, sometimes tightly closed.

Rarely empty.

Except for these tears that roll
only when they want
and become small spots of pain
                                       and grayness inside.

I'll cry not.
Not now.
I'd rather write
or yell
or fight
or run

'till I'm breathless
speechless.

Letting everything
(watching everything)
come.
Letting everything
(watching everything)
go.

Waiting until I'm ready.
'Till they are ready.

Then they're like a storm,
a waterfall, washing over me
flooding me.

Cry me a river, they say.
I could cry several.

But I can't ever really reinvent myself.
Only some lines, maybe.
Hardly full of mysteries.
Never completely new.

sexta-feira, agosto 16, 2013

vagamundo

É uma armadilha, penso. Não me movo. Estou rodeado de lixo pelo norte e pelo sul, o lixo me toma de assalto de leste a oeste. E o lixo que avança, não eu, ou talvez, seja esse fedor a fermento e tripas em decomposição que me encurralam e me vão traçando para asfixiar-me e eu penso que é uma cilada, o primeiro poço de pretóleo não existiu nunca, nunca houve, nunca poderei sair daqui, não sei por onde vim e não há estrelas para me guiarem. Me deixo cair sob o sol em chamas e com a cabeça apertada entre o joelho rogo que caiam em cima de mim a noite ou a chuva.

e.g.

sábado, agosto 03, 2013

Lacônico, conciso e enigmático.

era uma vez.
era uma vez o quê?
era uma vez.
só isso.
daí, depois, fim.
u_u

domingo, junho 30, 2013

...

- Afinal... - continuou o médico, e voltou a hesitar, olhado para Tarrou com atenção. - É uma coisa que um homem como o senhor consegue compreender, não é verdade? Já que a ordem do mundo é regulada pela morte, talvez convenha a Deus que não acreditemos nele e que lutemos com todas as nossas forças contra a morte, sem erguer os olhos para o céu, onde ele se cala.
- Sim - concordou Tarrou -, compreendo. Mas as suas vitórias são sempre efêmeras, nada mais.
O semblante de Rieux pareceu anuviar-se.
- Sempre, bem sei. Não é uma razão para deixar de lutar.
- Não, não é uma razão. Mas imagino então o que esta peste significa para o senhor.
- Sim - tornou Rieux. - Uma interminável derrota.
Tarrou fixou um momento o médico. Depois levantou-se e caminhou pesadamente para a porta. Rieux seguiu-o. Alcançava-o já quando Tarrou, que parecia olhar para os pés, lhe perguntou:
- Quem lhe ensinou tudo isso, doutor?
A resposta veio imediatamente.
- A miséria.
(...)

Está certo. Mas não se cumprimenta um professor por ensinar que dois e dois são quatro. Talvez o felicitemos por ter escolhido esta bela profissão. Digamos, pois, que era louvável que Tarrou e outros tivessem escolhido demonstrar que dois e dois eram quatro e não o contrário, mas digamos também que essa boa vontade lhes era comum à do professor, que, para honra do homem, são mais numerosos do que se pensa, ou pelo menos esta é a convicção do narrador. Aliás, este compreende muito bem a objeção que lhe poderia ser feita, ou seja, que esses homens arriscavam a vida. Mas chega sempre uma hora na história em que aquele que ousa dizer que dois e dois são quatro é punido com a morte. O professor sabe muito bem disso. E a questão não é saber qual é a recompensa ou o castigo que espera esse raciocínio. A questão é saber se dois e dois são ou não quatro.

Com efeito, os que se dedicaram às comissões sanitárias não tiveram um mérito tão grande em fazê-lo, pois sabiam que era a única coisa a fazer, e não se decidir a fazê-lo é que teria sido incrível. Essas comissões ajudaram os nossos concidadãos a penetrar mais na peste e persuadiram-nos, em parte, de que, uma vez que a doença existia, deviam fazer o necessário para lutar contra ela. Porque a peste se tornava assim o dever de alguns ela surgiu realmente como era, isto é, o problema de todos.

a.c. a peste.

(grifo meu)

sábado, junho 29, 2013

We should be mad as hell...

E se toda a onda de violência e repressão às manifestações passar; se o preço da tarifa baixar, congelar, zerar; se gay não se precisar curar; se MP investigar; se a gente não precisar votar; se D "cair" pra A, S ou M subir; se o Estado encolher ou inchar...

Uma quantidade absurda de pessoas continuará morrendo de fome; uma quantidade absurda de mulheres continuará sendo violentada; uma quantidade surreal de lixo continuará sendo despejada em terras de pessoas que não são pessoas, longe das costas que nossos olhos vêem; crianças continuarão a ser tratadas como marginais pelo crime de terem nascido do lado errado de linhas imaginárias ou sem pilas nas contas bancárias.

E não vão mudar as mãos que controlam tudo isso, não haverá dança nas cadeiras nas salas de quem realmente mexe nisso tudo e tem teias de aranha na bunda de tanto, tanto tempo que está no poder, enriquecendo às custas dos que sempre, sempre, por gerações e gerações, terão e serão menos...

A violência está aí o tempo todo. Surda, muda, para nós, acostumados (à força ou por hábito) a não vê-la e, principalmente, a não senti-la.

Ou enlouquecemos de vez e pra sempre e abrimos os olhos e olhamos até doerem, até haver lágrimas mesmo sem gás, até voltar a não fazer sentido ver uma criança lavando o vidro de seu carro enquanto seu filho está confortavelmente no ar condicionado sendo levado para o colégio que não o fará uma pessoa melhor, ou... Sei lá. Tudo vai continuar exatamente como está. Com algumas camadinhas de cal pra disfarçar.

(E, se não olharmos para o lado certo, continuaremos xingando, cuspindo e batendo nos joão bobo que se nos apresentam como alvos, mártires, bodes expiatórios, algozes, culpados...)

sexta-feira, junho 14, 2013

...

um dos grandes méritos dessa nossa merda de democracia
ou de nossa democracia de merda
é que o mundo não para de girar enquanto coisas surreais estão acontecendo
não para de girar pra irmos ou acompanharmos manifestações
não para de girar quando os países da África são soterrados de lixo tecnológico
não para de girar quando 1 bilhão de pessoas sente fome, todos os dias
dia após dia
ele continua girando
e a gente tem que ficar girando com ele
mantendo a porra da máquina girando
oxalá todos parássemos, um dia
uma, duas, trinta vezes
pelas balas, pelas bombas, pelos cacetetes, pelos semáforos com crianças nas ruas, pelos estupros, pela fome, pela obesidade, pelo photoshop, pelas propagandas de carro, futebol e cerveja
saco.

terça-feira, junho 11, 2013

empiria

Contrariando o ditado, esta noite, em minha rua, todos os gatos eram amarelos.