Um lado meu sempre teve medo de amar.
mesmo quando estava gostando, mesmo amor com irmão, pai, mãe.
minha relação com esse sentimento que alguns dizem ser o grande objetivo de passarmos pela experiência de estarmos vivos e sermos gente é dúbia. e assim é há já bastante tempo - não sei precisar quanto.
eu gostei de pessoas algumas vezes. quando era mais nova, era um gostar que costumava durar até o outro dizer que gostava de mim - tal declaração sempre soava desmedida, impossível, dava-me uma sensação de... de... afastamento, quebra.
tive paixões platônicas.
aprendi a correr atrás do que queria, pois "quem não chora, não mama."
aprendi que um "não" não mata ninguém - exceto em situações bem diferentes das quais estou citando aqui.
gostei, paquerei, fiquei.
gostei de alguém que não tinha quase nada a ver comigo. gostei forte.
esta, creio, foi a primeira vez em que me senti quebrar, esvaziar, por dentro.
na verdade, houve, além dessas, acho que duas vezes antes em que foi difícil. mas eu era quase menina na época. de cabeça, de jeito. de idade, também
mas, em relação a quando senti-me quebrar - experimentei passar quase dois anos de rompimento *completo*. namorei outra pessoa, gostei, amei como me era possível à época.
senti inquietações, mistos de gostar e querer viver outra coisa.
desde muito cedo, apesar de ter um lado romântico, platônico, idealista, por vezes mesmo bobo, eu admirava uma história - real - que minha mãe me contou. a história era (e é) sobre uma amiga sua, que casou com seu primeiro namorado. com quem naromou desde os 13 anos. MAS, antes de casarem-se, ambos viveram muito. viajaram, conheceram pessoas. em verdade, antes do casamento ela chegou a passar um ano longe, pois precisava ter certeza do que queria. e não tinha, por isso partiu. e voltou. e foi uma festa de virar noite, de contentamento e comemorações.
eu queria algo assim pra mim - encontrar alguém para a vida toda, porém, antes de me entregar por completo para a pessoa, precisava viver mais, conhecer mais.
e assim eu entendia minhas inquietações, quando as via surgir. a última que senti, em meu primeiro namoro mais longo, eu senti que precisava viver. em parte, eu basicamente senti que precisava viver.
uma parte minha ainda gostava de meu namorado. mas isso não foi suficiente para que eu fosse tão sincera quanto possível, quando demos um tempo. e o magoei. e ele disse que não queria mais me amar, que não queria ficar comigo. e provavelmente outras coisas, que não lembro agora.
esta foi a segunda vez em que me senti quebrar por dentro. doeu. éramos amigos, vizinhos, nos víamos muito. ele era engraçado, e eu tinha me tornado amiga dos amigos dele, uma amiga minha tinha se juntado à turma - eu tinha uma espécie de turma, o que por si só não era muito comum antes, para ser sincera. eu chorei, e desejei que pudéssemos ficar juntos, e senti a dor da perda, da impossibilidade, que, dizem, nos faz valorizar o que perdemos. chorei, acho, mais do que da vez anterior. mas acho que a vez anterior deixou um vazio maior, quando quebrou.
enfim, dois anos passados, e um acontecimento nada nada bom levou-me a me reaproximar do tal sujeito com quem eu não tinha nada a ver, e que muito provavelmente terminou comigo por isso, ainda que nem pra ele isso estivesse muito claro, na época.
agora tínhamos mais coisas em comum. eu era mais despachada - aprendi a ser. nos revisitamos, experimentei relembrar o que tinha sentido por ele. não era a mesma coisa, mas tinha sido um gostar mal resolvido, e eu fiquei feliz por haver uma chance de ser diferente.
mas ainda estávamos apenas semi ou pouco enrolados quando conheci outra pessoa. eu andava querendo alguém com mais atitude, que demonstrasse firmeza no querer estar comigo. e, entre os dois, aos poucos, em dúvida, confusa, perdida, relutante, em alguns momentos... fui me deixando envolver pela história mais recente.
também tínhamos muitíssimas diferenças. muito brigamos. mas havia bons momentos e eu queria que desse certo, por querer, por querer ser querida, talvez, por querer segurança. e assim, no meio do início, quase, meio de brincadeira, meio sem ter muito a perder (quem é que sabe?), nos prometemos que caso completássemos um ano de namoro, noivaríamos.
sei lá porque cargas d'água, dessa vez, nesse momento, ou quando completou um ano, eu não decidi que era hora de dar um tempo, de parar pra conhecer outras coisas antes de dar esse passo. eu noivei com... 20 anos, acho. ia fazer 20.
eu aprendi um tanto sobre conviver, ouvir, sobre o que fazer e o que não aceitar jamais que façam, nos quase três anos deste relacionamento. sobre o que fazemos por gostar. sobre, talvez, o que não devemos fazer por gostar. sobre lidar com o que se sente por estar com alguém. me apaixonei por uma pessoa enquanto estava noiva, e foi estranho, e fiquei confusa, e contei o que acontecia, e foi doído e difícil, mas continuamos.
um tempo depois, entretanto, talvez um ano depois, eu me senti muito, muito inquieta. havia muita coisa pra viver, muita coisa para conhecer em mim! eu precisava de espaço. eu precisava de um tempo. eu queria viver outras coisas. eu me sentia em outro ritmo, em outra linha.
dessa vez eu não senti exatamente quebrar por dentro. havia sonhos, havia planos, havia uma história construída. tinha sido muito tempo. muitas coisas haviam acontecido, e eu abidiquei de coisas pela escolha que tinha feito. essa mistura toda doeu, doeram os insultos, também. e a sensação de que o que minha alma gritava era errado também doeu - não era, uma grande amiga, e a força do que sentia me fizeram entender. sentir-me presa doeu.
mas eu queria muito estar livre.
eu queria muito estar livre
eu queria muito estar livre.
eu queria muito que os dias passassem.
eu queria que o tempo parasse.
eu queria acordar cedo.
e não precisar dormir.
ao mesmo tempo em que despertava para a minha necessidade quase visceral de me sentir livre, quando minha cabeça estava fervilhando com a possibilidade de finalmente poder tentar ficar com uma mulher, por exemplo, ou sobre como seria um relacionamento aberto, e tantas outras coisas...
nessa hora, no meio disso tudo, nos encontramos.
ou nos reconhecemos.
ou nos permitimos.
do que já vivi, do que vi, pelo caminho, acredito que vivi uma das coisas mais doces e bonitas que se pode viver. em boa medida, eu pude perceber isso enquanto muitas coisas iam acontecendo, com o tempo meio sem ter a medida convencional, com as prioridades se atrapalhando enquanto conhecer e apreciar urgia e encantava.
mas eu só tinha aprendido um tanto. em parte, porque a gente sempre tem mais coisa pra aprender. em parte porque tinha sido muita coisa e eu ainda sentia reflexos, resquícios do que sentia como uma opressão danada.
então eu precisei andar, e nem sempre eu dei satisfações ou avisei a tempo. eu gostava, sentia isso, e por vezes ficava muito confusa com os sentimentos antagônicos, paradoxais que me habitavam. eu não soube cuidar.
eu precisava sair e andar, e em parte era como se eu tivesse de andar sem me preocupar muito em pra onde estava indo. em parte, creio, eu precisava saber que podia andar, exercitar realizar minhas vontades.
em parte, também, eu tinha acabado de matar um bocado de sonhos, de apagar um futuro que começava a construir. eu era capaz de amar, mas estava tudo muito bagunçado por dentro. eu contava. mais do que seria saudável ouvir, talvez. eu não ia embora, eu não deixava de gostar. mas nem sempre eu fiquei. talvez, eu estivesse amortizando minha capacidade de gostar. eu provavelmente tinha medo de me deixar entrar em uma história que à primeira vista parecesse toda bonitinha, e que de repente se transformasse em um enredo, uma espécie de confinamento de gostar. o medo e o amor não são duas faces da mesma moeda. sentir um não fortalece o outro, e acho que meu medo pode ter tido um espaço na bagunça do momento, que só fiz aumentar, por um tempo.
eu demorei a parar de magoar. não o fiz o tempo todo. e na medida em que ia me conhecendo, pelos olhos do outro, eu ia entendendo a importância do que tinha me acontecido.
mas eu ainda tinha coisas por conhecer, ainda tinha um lado - esse era meu, não era oprimido, mas apenas o vislumbrara; o experimentara "de brincadeira". e há um tempo dizia e queria viver.
eu me abri, me dispuz, busquei. e conheci, vivi, foi algo bom, diferente, que mexeu com minha cabeça a ponto de eu sentir que na verdade meu corpo só desejava aquilo.
por muitas vezes ao longo dessa história, a confusão em meu peito e cabeça eram tantas, que eu queria me fundir com aquele com quem me encontrei. eu queria partilhar com ele, eu queria estar com ele. e ao mesmo tempo, eu ia atrás de experiências que não comportavam isso.
ele buscou viver, quando eu fui. quando nos encontramos, doía a distância, doía o gostar machucado pelo ciúmes. doía não estarmos juntos, não podermos estar juntos. e ansiamos muito estar juntos. em minha cabeça, talvez também na dele, era estranho que não pudéssemos ficar um com o outro por conta de... histórias que tinham surgido depois da nossa. não havia compromissos firmados, ou estabelecidos, mas havia, sim, o querer, o gostar, a necessidade de sentir isso de perto. ficamos juntos.
eu contei o que cabia, como cabia para a mulher que me mostrou caminhos de ser mulher que eu não conhecia. ela foi firme, e me doeu e eu chorei e meu corpo sentia que só se abriria por completo para uma mulher. e ela me disse que eu fosse ficar com ele, já que eu não sabia viver sem ele.
e foi um momento de uma confusão grande entre cabeça e corpo e eu amei com meus dois lados, mas sentia meu corpo travado, sentia uma necessidade grande de algo que achava que não experimentaria nunca mais, ao mesmo tempo em que se reforçava em mim o sentimento de que, realmente, eu não queria, eu não desejava, eu não me imaginava vivendo sem estarmos de algum modo juntos.
e houve um período esquisito, e eu me deixei envolver por outra pessoa. talvez fosse um modo trôpego de descobrir se meu corpo seria capaz. em parte, ainda era, por incrível que possa parecer, resquício da necessidade de ir, de poder ir.
poder ir.
eu contei antes.
mas não tão antes.
e doeu e doeu e doeu. eu novamente não soubera cuidar.
não sei dizer os motivos mais profundos - tento entender, tentei mesmo enquanto tudo acontecia. sei que precisei, que quis ir.
eu não queria machucar, eu nunca quis. mas eu vivi muitas histórias tendo inquietações e eu não sabia o que fazer delas e o que elas queriam dizer, e acho que tinha chegado em um momento em que tinha decidido que precisava descobrir. precisava tentar entender o que significavam.
eu fiquei novamente com outro homem, apesar do que sentia meu corpo. e percebi que a minha inquietação era bem mais intelectual, e que ainda faltava algo, que meu corpo não se abria.
faltava algo.
droga.
passei um tempo grande, a maior parte do tempo em que tentei viver relacionamentos, na verdade, sentindo que faltava algo.
eu não encontrava esse algo, eu não sabia se era dentro, se era fora.
fui tentando juntar peças, aos poucos. entendi que, em parte, ao procurar o outro estou procurando a mim mesma - buscando conhecer alguma faceta desconhecida, querendo que me descubram, como olhar para espelhos variados em busca de outras nuances de di. não fui, não sou uma devoradora de pessoas. mas entendi que isso me inquietava.
entendi, também, que gosto de conhecer pessoas, de conversar, de encontrar cabeças diferentes e interessantes, e às vezes polêmicas. eu aprendo na convivência com as pessoas. e eu me conheçoo, como já disse, através delas, também.
e percebi, juntando peças, que aprendi a gostar das pessoas através de conversas, bem mais do que pelo físico ou o sexo. desde o início de minha adolescência frequentei, por muito tempo, batepapos de internet. eu aprendi, ou me acostumei, a sentir afeto por pessoas que eram letras, jeito de escrever e expressões faciais construídas com caracteres.
muito tempo depois eu entendi também que precisamos saber como estamos, e quais nossos limites. e evitar o que possa nos levar além de nossos limites, além do que não desejamos fazer. saber o que queremos, o que nos é importante, faz parte de cuidar e respeitar o outro. e a nós mesmos, pois podemos sofrer muito quando somos irresponsáveis com nossos limites. e fazer o outro sofrer.
aos poucos, como já me referi às vezes, eu fui percebendo mais, eu fui sentindo mais a importância do que vivi, do que encontrei.
se sou uma pessoa que inicialmente se envolve com facilidade, também sou uma pessoa que trava. eu travo. eu acho que sinto medo. de machucar e de ser machucada, de me sentir presa, de o gostar morrer e ficarmos com resquícios do amor marcados pela rotina inescapável. eu não escolho travar, eu nunca escolhi, desde quando era nova e os caras de quem eu gostava diziam que gostavam de mim - e tudo se desvanecia e parecia estranho e me afastava.
eu fui fraca, creio, às vezes. eu acho que fui covarde, também. eu fiz algumas cosias que aparentemente não têm sentido.
mas eu tenho me aberto para essa pessoa com a qual, dia após dia, fui sentindo e percebendo que desejo partilhar a vida, com quem me identifico, na qual me encontro, e sou eu, com trejeitos e bobagens e sonhos e inquietações com o mundo, com a vida.
eu tenho aprendido o amor, aprendido a amar. a valorizar o que encontrei, a buscar caminhos compatíveis com o gostar, a vontade de partilha, os anseios malucos.
o que eu não queria mais era afastar-me, era ter coisas não ditas, era que houvesse coisas entre nós.
eu não soube agir do modo certo. não totalmente. eu não contei as coisas no tempo certo. eu agi de um modo para o qual as explicações talvez só venham com clareza daqui a um tempo, ou com mais reflexão do que dediquei a isso. mais aprofundamento.
os meus erros não significam que não queira me abrir, que não queira fazer diferente, que não queira aprender a ser corajosa, a amar e amar e amar e trilhar o caminho que muitos almejam mas poucos efetivamente trilham.
e deixar de lado os medos que sinto, que senti. e poder celebrar todas as manhãs que amo, que me sinto plena, feliz por este amor.
e seguir aprendendo, buscando caminhos, querendo conhecer.
eu tentei escrever o que eu lembro do que vivi e senti. para tentar entender, para olhar tudo de novo, para pensar sobre o que vivo e sinto agora.
não sou mais exatamente uma menina. não passei por todas as experiências do mundo, mas aprendi, e ainda tento extrair lições, este texto é um exemplo disso, das escolhas que fiz.
me sinto capaz de escolher o que considero o amor de minha vida. para as maluquices que quiséssemos pensar juntos. e todos os sonhos e anseios e planos.
nada do que está aqui escrito aconteceu, contudo, porque escolhi sozinha.
eu muito quis encontrar o amor e viver outras coisas antes de entregar-me a ele de fato. já não pensava nisso há um tempo.
dói o afastamento; a falta; os caminhos desconhecidos; haver barreiras ou pessoas entre nós. dói o querer que não pode ser, que não sei mais se é ou será correspondido.
dói sentir que, de algum modo, perdi um tanto meu lugar por aqui. ao menos, em termos de encontro.
sei que sou capaz de prosseguir. todos são, todos dizem isso. estou viva e acordo todos os dias, e ando e respiro e escrevo - e, às vezes, choro. mas continuo sentindo que será difícil encontrar meu lugar, encontrar-me. porque já encontrei.
e escolhas, que todos têm, agora vão por outros caminhos.
estou construindo um pra mim, enquanto tento aprender com tudo isso. enquanto lido com uma abertura que agora parece deslocada. e faz-me sentir ainda mais falta de tudo que queria celebrar, e agora não pode ser. enquanto lido com o medo de que tudo esteja deixando de ser.
um lado meu sempre quis encontrar o amor...
mesmo quando estava gostando, mesmo amor com irmão, pai, mãe.
minha relação com esse sentimento que alguns dizem ser o grande objetivo de passarmos pela experiência de estarmos vivos e sermos gente é dúbia. e assim é há já bastante tempo - não sei precisar quanto.
eu gostei de pessoas algumas vezes. quando era mais nova, era um gostar que costumava durar até o outro dizer que gostava de mim - tal declaração sempre soava desmedida, impossível, dava-me uma sensação de... de... afastamento, quebra.
tive paixões platônicas.
aprendi a correr atrás do que queria, pois "quem não chora, não mama."
aprendi que um "não" não mata ninguém - exceto em situações bem diferentes das quais estou citando aqui.
gostei, paquerei, fiquei.
gostei de alguém que não tinha quase nada a ver comigo. gostei forte.
esta, creio, foi a primeira vez em que me senti quebrar, esvaziar, por dentro.
na verdade, houve, além dessas, acho que duas vezes antes em que foi difícil. mas eu era quase menina na época. de cabeça, de jeito. de idade, também
mas, em relação a quando senti-me quebrar - experimentei passar quase dois anos de rompimento *completo*. namorei outra pessoa, gostei, amei como me era possível à época.
senti inquietações, mistos de gostar e querer viver outra coisa.
desde muito cedo, apesar de ter um lado romântico, platônico, idealista, por vezes mesmo bobo, eu admirava uma história - real - que minha mãe me contou. a história era (e é) sobre uma amiga sua, que casou com seu primeiro namorado. com quem naromou desde os 13 anos. MAS, antes de casarem-se, ambos viveram muito. viajaram, conheceram pessoas. em verdade, antes do casamento ela chegou a passar um ano longe, pois precisava ter certeza do que queria. e não tinha, por isso partiu. e voltou. e foi uma festa de virar noite, de contentamento e comemorações.
eu queria algo assim pra mim - encontrar alguém para a vida toda, porém, antes de me entregar por completo para a pessoa, precisava viver mais, conhecer mais.
e assim eu entendia minhas inquietações, quando as via surgir. a última que senti, em meu primeiro namoro mais longo, eu senti que precisava viver. em parte, eu basicamente senti que precisava viver.
uma parte minha ainda gostava de meu namorado. mas isso não foi suficiente para que eu fosse tão sincera quanto possível, quando demos um tempo. e o magoei. e ele disse que não queria mais me amar, que não queria ficar comigo. e provavelmente outras coisas, que não lembro agora.
esta foi a segunda vez em que me senti quebrar por dentro. doeu. éramos amigos, vizinhos, nos víamos muito. ele era engraçado, e eu tinha me tornado amiga dos amigos dele, uma amiga minha tinha se juntado à turma - eu tinha uma espécie de turma, o que por si só não era muito comum antes, para ser sincera. eu chorei, e desejei que pudéssemos ficar juntos, e senti a dor da perda, da impossibilidade, que, dizem, nos faz valorizar o que perdemos. chorei, acho, mais do que da vez anterior. mas acho que a vez anterior deixou um vazio maior, quando quebrou.
enfim, dois anos passados, e um acontecimento nada nada bom levou-me a me reaproximar do tal sujeito com quem eu não tinha nada a ver, e que muito provavelmente terminou comigo por isso, ainda que nem pra ele isso estivesse muito claro, na época.
agora tínhamos mais coisas em comum. eu era mais despachada - aprendi a ser. nos revisitamos, experimentei relembrar o que tinha sentido por ele. não era a mesma coisa, mas tinha sido um gostar mal resolvido, e eu fiquei feliz por haver uma chance de ser diferente.
mas ainda estávamos apenas semi ou pouco enrolados quando conheci outra pessoa. eu andava querendo alguém com mais atitude, que demonstrasse firmeza no querer estar comigo. e, entre os dois, aos poucos, em dúvida, confusa, perdida, relutante, em alguns momentos... fui me deixando envolver pela história mais recente.
também tínhamos muitíssimas diferenças. muito brigamos. mas havia bons momentos e eu queria que desse certo, por querer, por querer ser querida, talvez, por querer segurança. e assim, no meio do início, quase, meio de brincadeira, meio sem ter muito a perder (quem é que sabe?), nos prometemos que caso completássemos um ano de namoro, noivaríamos.
sei lá porque cargas d'água, dessa vez, nesse momento, ou quando completou um ano, eu não decidi que era hora de dar um tempo, de parar pra conhecer outras coisas antes de dar esse passo. eu noivei com... 20 anos, acho. ia fazer 20.
eu aprendi um tanto sobre conviver, ouvir, sobre o que fazer e o que não aceitar jamais que façam, nos quase três anos deste relacionamento. sobre o que fazemos por gostar. sobre, talvez, o que não devemos fazer por gostar. sobre lidar com o que se sente por estar com alguém. me apaixonei por uma pessoa enquanto estava noiva, e foi estranho, e fiquei confusa, e contei o que acontecia, e foi doído e difícil, mas continuamos.
um tempo depois, entretanto, talvez um ano depois, eu me senti muito, muito inquieta. havia muita coisa pra viver, muita coisa para conhecer em mim! eu precisava de espaço. eu precisava de um tempo. eu queria viver outras coisas. eu me sentia em outro ritmo, em outra linha.
dessa vez eu não senti exatamente quebrar por dentro. havia sonhos, havia planos, havia uma história construída. tinha sido muito tempo. muitas coisas haviam acontecido, e eu abidiquei de coisas pela escolha que tinha feito. essa mistura toda doeu, doeram os insultos, também. e a sensação de que o que minha alma gritava era errado também doeu - não era, uma grande amiga, e a força do que sentia me fizeram entender. sentir-me presa doeu.
mas eu queria muito estar livre.
eu queria muito estar livre
eu queria muito estar livre.
eu queria muito que os dias passassem.
eu queria que o tempo parasse.
eu queria acordar cedo.
e não precisar dormir.
ao mesmo tempo em que despertava para a minha necessidade quase visceral de me sentir livre, quando minha cabeça estava fervilhando com a possibilidade de finalmente poder tentar ficar com uma mulher, por exemplo, ou sobre como seria um relacionamento aberto, e tantas outras coisas...
nessa hora, no meio disso tudo, nos encontramos.
ou nos reconhecemos.
ou nos permitimos.
do que já vivi, do que vi, pelo caminho, acredito que vivi uma das coisas mais doces e bonitas que se pode viver. em boa medida, eu pude perceber isso enquanto muitas coisas iam acontecendo, com o tempo meio sem ter a medida convencional, com as prioridades se atrapalhando enquanto conhecer e apreciar urgia e encantava.
mas eu só tinha aprendido um tanto. em parte, porque a gente sempre tem mais coisa pra aprender. em parte porque tinha sido muita coisa e eu ainda sentia reflexos, resquícios do que sentia como uma opressão danada.
então eu precisei andar, e nem sempre eu dei satisfações ou avisei a tempo. eu gostava, sentia isso, e por vezes ficava muito confusa com os sentimentos antagônicos, paradoxais que me habitavam. eu não soube cuidar.
eu precisava sair e andar, e em parte era como se eu tivesse de andar sem me preocupar muito em pra onde estava indo. em parte, creio, eu precisava saber que podia andar, exercitar realizar minhas vontades.
em parte, também, eu tinha acabado de matar um bocado de sonhos, de apagar um futuro que começava a construir. eu era capaz de amar, mas estava tudo muito bagunçado por dentro. eu contava. mais do que seria saudável ouvir, talvez. eu não ia embora, eu não deixava de gostar. mas nem sempre eu fiquei. talvez, eu estivesse amortizando minha capacidade de gostar. eu provavelmente tinha medo de me deixar entrar em uma história que à primeira vista parecesse toda bonitinha, e que de repente se transformasse em um enredo, uma espécie de confinamento de gostar. o medo e o amor não são duas faces da mesma moeda. sentir um não fortalece o outro, e acho que meu medo pode ter tido um espaço na bagunça do momento, que só fiz aumentar, por um tempo.
eu demorei a parar de magoar. não o fiz o tempo todo. e na medida em que ia me conhecendo, pelos olhos do outro, eu ia entendendo a importância do que tinha me acontecido.
mas eu ainda tinha coisas por conhecer, ainda tinha um lado - esse era meu, não era oprimido, mas apenas o vislumbrara; o experimentara "de brincadeira". e há um tempo dizia e queria viver.
eu me abri, me dispuz, busquei. e conheci, vivi, foi algo bom, diferente, que mexeu com minha cabeça a ponto de eu sentir que na verdade meu corpo só desejava aquilo.
por muitas vezes ao longo dessa história, a confusão em meu peito e cabeça eram tantas, que eu queria me fundir com aquele com quem me encontrei. eu queria partilhar com ele, eu queria estar com ele. e ao mesmo tempo, eu ia atrás de experiências que não comportavam isso.
ele buscou viver, quando eu fui. quando nos encontramos, doía a distância, doía o gostar machucado pelo ciúmes. doía não estarmos juntos, não podermos estar juntos. e ansiamos muito estar juntos. em minha cabeça, talvez também na dele, era estranho que não pudéssemos ficar um com o outro por conta de... histórias que tinham surgido depois da nossa. não havia compromissos firmados, ou estabelecidos, mas havia, sim, o querer, o gostar, a necessidade de sentir isso de perto. ficamos juntos.
eu contei o que cabia, como cabia para a mulher que me mostrou caminhos de ser mulher que eu não conhecia. ela foi firme, e me doeu e eu chorei e meu corpo sentia que só se abriria por completo para uma mulher. e ela me disse que eu fosse ficar com ele, já que eu não sabia viver sem ele.
e foi um momento de uma confusão grande entre cabeça e corpo e eu amei com meus dois lados, mas sentia meu corpo travado, sentia uma necessidade grande de algo que achava que não experimentaria nunca mais, ao mesmo tempo em que se reforçava em mim o sentimento de que, realmente, eu não queria, eu não desejava, eu não me imaginava vivendo sem estarmos de algum modo juntos.
e houve um período esquisito, e eu me deixei envolver por outra pessoa. talvez fosse um modo trôpego de descobrir se meu corpo seria capaz. em parte, ainda era, por incrível que possa parecer, resquício da necessidade de ir, de poder ir.
poder ir.
eu contei antes.
mas não tão antes.
e doeu e doeu e doeu. eu novamente não soubera cuidar.
não sei dizer os motivos mais profundos - tento entender, tentei mesmo enquanto tudo acontecia. sei que precisei, que quis ir.
eu não queria machucar, eu nunca quis. mas eu vivi muitas histórias tendo inquietações e eu não sabia o que fazer delas e o que elas queriam dizer, e acho que tinha chegado em um momento em que tinha decidido que precisava descobrir. precisava tentar entender o que significavam.
eu fiquei novamente com outro homem, apesar do que sentia meu corpo. e percebi que a minha inquietação era bem mais intelectual, e que ainda faltava algo, que meu corpo não se abria.
faltava algo.
droga.
passei um tempo grande, a maior parte do tempo em que tentei viver relacionamentos, na verdade, sentindo que faltava algo.
eu não encontrava esse algo, eu não sabia se era dentro, se era fora.
fui tentando juntar peças, aos poucos. entendi que, em parte, ao procurar o outro estou procurando a mim mesma - buscando conhecer alguma faceta desconhecida, querendo que me descubram, como olhar para espelhos variados em busca de outras nuances de di. não fui, não sou uma devoradora de pessoas. mas entendi que isso me inquietava.
entendi, também, que gosto de conhecer pessoas, de conversar, de encontrar cabeças diferentes e interessantes, e às vezes polêmicas. eu aprendo na convivência com as pessoas. e eu me conheçoo, como já disse, através delas, também.
e percebi, juntando peças, que aprendi a gostar das pessoas através de conversas, bem mais do que pelo físico ou o sexo. desde o início de minha adolescência frequentei, por muito tempo, batepapos de internet. eu aprendi, ou me acostumei, a sentir afeto por pessoas que eram letras, jeito de escrever e expressões faciais construídas com caracteres.
muito tempo depois eu entendi também que precisamos saber como estamos, e quais nossos limites. e evitar o que possa nos levar além de nossos limites, além do que não desejamos fazer. saber o que queremos, o que nos é importante, faz parte de cuidar e respeitar o outro. e a nós mesmos, pois podemos sofrer muito quando somos irresponsáveis com nossos limites. e fazer o outro sofrer.
aos poucos, como já me referi às vezes, eu fui percebendo mais, eu fui sentindo mais a importância do que vivi, do que encontrei.
se sou uma pessoa que inicialmente se envolve com facilidade, também sou uma pessoa que trava. eu travo. eu acho que sinto medo. de machucar e de ser machucada, de me sentir presa, de o gostar morrer e ficarmos com resquícios do amor marcados pela rotina inescapável. eu não escolho travar, eu nunca escolhi, desde quando era nova e os caras de quem eu gostava diziam que gostavam de mim - e tudo se desvanecia e parecia estranho e me afastava.
eu fui fraca, creio, às vezes. eu acho que fui covarde, também. eu fiz algumas cosias que aparentemente não têm sentido.
mas eu tenho me aberto para essa pessoa com a qual, dia após dia, fui sentindo e percebendo que desejo partilhar a vida, com quem me identifico, na qual me encontro, e sou eu, com trejeitos e bobagens e sonhos e inquietações com o mundo, com a vida.
eu tenho aprendido o amor, aprendido a amar. a valorizar o que encontrei, a buscar caminhos compatíveis com o gostar, a vontade de partilha, os anseios malucos.
o que eu não queria mais era afastar-me, era ter coisas não ditas, era que houvesse coisas entre nós.
eu não soube agir do modo certo. não totalmente. eu não contei as coisas no tempo certo. eu agi de um modo para o qual as explicações talvez só venham com clareza daqui a um tempo, ou com mais reflexão do que dediquei a isso. mais aprofundamento.
os meus erros não significam que não queira me abrir, que não queira fazer diferente, que não queira aprender a ser corajosa, a amar e amar e amar e trilhar o caminho que muitos almejam mas poucos efetivamente trilham.
e deixar de lado os medos que sinto, que senti. e poder celebrar todas as manhãs que amo, que me sinto plena, feliz por este amor.
e seguir aprendendo, buscando caminhos, querendo conhecer.
eu tentei escrever o que eu lembro do que vivi e senti. para tentar entender, para olhar tudo de novo, para pensar sobre o que vivo e sinto agora.
não sou mais exatamente uma menina. não passei por todas as experiências do mundo, mas aprendi, e ainda tento extrair lições, este texto é um exemplo disso, das escolhas que fiz.
me sinto capaz de escolher o que considero o amor de minha vida. para as maluquices que quiséssemos pensar juntos. e todos os sonhos e anseios e planos.
nada do que está aqui escrito aconteceu, contudo, porque escolhi sozinha.
eu muito quis encontrar o amor e viver outras coisas antes de entregar-me a ele de fato. já não pensava nisso há um tempo.
dói o afastamento; a falta; os caminhos desconhecidos; haver barreiras ou pessoas entre nós. dói o querer que não pode ser, que não sei mais se é ou será correspondido.
dói sentir que, de algum modo, perdi um tanto meu lugar por aqui. ao menos, em termos de encontro.
sei que sou capaz de prosseguir. todos são, todos dizem isso. estou viva e acordo todos os dias, e ando e respiro e escrevo - e, às vezes, choro. mas continuo sentindo que será difícil encontrar meu lugar, encontrar-me. porque já encontrei.
e escolhas, que todos têm, agora vão por outros caminhos.
estou construindo um pra mim, enquanto tento aprender com tudo isso. enquanto lido com uma abertura que agora parece deslocada. e faz-me sentir ainda mais falta de tudo que queria celebrar, e agora não pode ser. enquanto lido com o medo de que tudo esteja deixando de ser.
um lado meu sempre quis encontrar o amor...
2 comentários:
às vezes parece que só consigo entender ou absorver algumas coisas escrevendo...
Um dia encontrei uma trilha nos limites de uma floresta. Ela me convidou, eu a segui floresta adentro e encontrei um paraíso numa clareira.
Andei por seus caminhos e foi uma aventura memorável, feliz em muitos momentos.
Mas um dia, num passeio, a floresta, que não foi traiçoeira por não haver feito promessas, desviou meus passos do caminho para esse paraíso.
Procurei, e a floresta muitas vezes parecia estar contra a minha busca. E doeu perder o paraíso. Doeu ser expulso da floresta e querer ficar. Doeu não poder sair.
Muitas vezes existiram outras boas clareiras. Quase tantas vezes quanto, a trilha se apagou sob meus pés. E em cada perda doiam todas as cicatrizes.
Um dia, me vi fora da floresta pela primeira vez.
Olhei-a de fora, e soube que a respeitava, que não fora má, e notei o quanto havia mudado desde quando a adentrei, anos atrás. Sei que há um paraíso lá dentro que é meu. Uma trilha me convidou. Não pude, não posso entrar.
Parti.
Postar um comentário