terça-feira, julho 12, 2011

"O nosso amor, Ilsebill, tudo aquilo que nós nos sussurramos com voz abafada, escondemos em cartas ou trombeteamos do alto de torres ou pelo telefone, superando o barulho do mar num tom ainda mais baixo do que o imaginado, nosso amor, que cercamos com tanto carinho, que mantivemos secretamente dentro de uma caixa de chapéu no meio de quinquilharias e que era tão visível como um botão que falta, que estava escrito em cada tronco de árvore sob nomes diferentes, ele, o nosso amor, que ontem ainda era palpável, um objeto de uso, nosso cola-tudo, a palavra-chave, a inscrição do banheiro, o vibrante filme mudo, uma prece noturna dita em voz trêmula de camisola, a tecla para adoçar nossa canção de sucesso, ele, que corria descalço pelo capim tremulante, ele que como tijolo pouquíssimo gasto estava encaixado num muro de ruínas, ele, que se perdeu na faxina da casa e, quando procurávamos outra coisa, foi achado entre outras justificações usuais, fantasiado de apontador, ele, nosso amor, que nunca acabaria, não existe mais, Ilsebil. Ou ele só é possível, provável, sob certas condições. Ou ele existe ainda - mas em outra parte. Ou ele nunca existiu e por isso ainda seria imaginável."
Grass, Günter. O Linguado. 2a. edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983. pág. 430

/* Não é que me sinta assim nem nada. Mas esse cara escreve d'um jeito que gosto... */

quarta-feira, junho 01, 2011

respirar é preciso...

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como se tira um tijolo do peito?

terça-feira, maio 24, 2011

E este outono insiste em ficar entrando por minhas janelas...
Se eu resolver fumar até entender ou resolver minha vida,
o que se acabará antes
- os cigarros ou eu?
Eu podia ir embora, hoje...

quarta-feira, maio 18, 2011

Passado, presente, futuro

Como saber a que momento pertence cada coisa que está, de algum modo, viva dentro de nós?

Se para nosso inconsciente (ou algo que o valha), não há noção de tempo, ontem, amanhã, hoje, e o que aconteceu é como estar recém acontecido - quiçá, mesmo, acontecendo...

Como saber a que momento pertecem os sentimentos que vivem dentro de nós? E de que falam?

...

segunda-feira, maio 09, 2011

Devaneios sociopolíticos...

Ontem estava pensando nos impostos, não lembro exatamente por que, e vi como, em princípio, eles são bonitos - em alguma medida, eles são em verdade uma tentativa de materializar a famosa ideia "De cada um, segundo sua capacidade, para cada um, segundo sua necessidade..."

Uma sociedade na qual os impostos funcionem é bonita - todos ajudamos a filhinha de alguém a estudar, todos ajudam meus a amigos e eu a nos formarmos, todos contribuímos para ser seguro andar à noite na rua... Na medida de nossos ganhos e condições. E utilizamos os benefícios, na medida de nossas aspirações.

Distribuindo um pouco do que cada um tem, para que todos possam ter um pouco de tudo.
Desnorteada.

Música incidental - alguma coisa está fora da ordem.

Se ficar bem quieta, observando, escutando, entendo...?

segunda-feira, abril 18, 2011

quero silêncio.
tempo para ler
escrever.

boas parcerias para conversas.

e quietas belas paisagens...

domingo, abril 17, 2011

Fumaça e Espelhos

"É um truque com espelhos. Trata-se de um clichê, não há dúvida, mas não deixa de ser verdade. Os mágicos empregam espelhos, via de regra posicionados em ângulos de quarenta e cinco graus, desde que os ingleses vitorianos começaram a produzir superfícies nítidas e confiáveis em quantidade, há mais de cem anos. John Nevil Maskelyne deu início à técnica, em 1862, com um guarda-roupas que, graças a um espelho posicionado com astúcia, ocultava mais do que revelava.
Espelhos são coisas maravilhosas. Parecem dizer a verdade, refletir toda a nossa vida; mas posicione um deles da maneira correta e sua superfície mentirá de modo tão convincente que você acreditará que algo desapareceu no ar, que uma caixa cheia de pombos, bandeirolas e aranhas está realmente vazia; que pessoas escondidas nos bastidores, ou no fosso, são fantasmas flutuando sore o palco. Deixado no ângulo correto, um espelho torna-se uma janela mágica; capaz de lhe mostrar qualquer coisa que possa imaginar e, talvez, algumas que não possa.
(A fumaça borra os contornos das coisas.)
Histórias são, de um modo ou de outro, espelhos. Nós as usamos para explicar como funciona ou não o mundo. Tal qual espelhos, elas nos preparam para os dias que virão. Afastam nossa atenção das coisas que se ocultam nas trevas.
A fantasia - e toda ficção é fantasia de uma espécie ou de outra - é um espelho. Um espelho distorcido, não há dúvida, do tipo que oculta, posicionado a quarenta e cinco graus da realidade, mas ainda assim um espelho que podemos empregar para nos revelar coisas que, de outra forma, poderíamos não ver. (Contos de fadas, como G. K. Chesterton disse certa feita, são mais do que a verdade; não porque nos contam que dragões existem, mas porque nos dizem que dragões podem ser vencidos.) (...)"
Neil Gaiman, Uma Introdução. in: Fumaça e Espelhos - contos e ilusões. pp. 11-12

sábado, abril 16, 2011

Observações matinais

Alguns dias e noites são tão longos que não parecem um, mas vários

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Tenho a impressão de que ninguém nunca deleta blogs - deixamo-los empoeirados, esquecidos, na última prateleira da estante... Mas não os deixamos ir.

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E alguma outra coisa que eu esqueci o que era, mas que me parecia digna de nota. Na verdade, agora, todas essas observações parecem meio óbvias e desnecessárias. Paciência. Ficarão aí. Como os blogs...

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Lembrei - bebo, e no dia seguinte, parece-me que tudo o que fiz tem tonalidades de que bebi além da conta. Ainda que sejam coisas de antes de eu ter bebido...

quinta-feira, março 31, 2011

Tenho uma estranheza no peito.

Não sei dizer
traduzir.
É saudade?
É ansiedade ruim...?

A cabeça se bagunça toda.

Quero um caminho, e o que vejo é um labirinto de fios entrelaçados.
Entrelaçados?

Não sei dizer...
não creio que se cruzem.

Não sei se gosto de onde estou agora.
Não sei bem onde gostaria de estar.

Saudades sinto do que nem sei onde encaixar.
E há encaixe...?

/* E em meio a isso, vontade dá de fechar todas as portas. Buscar quietude... Que me impede? */

quarta-feira, março 30, 2011

- - - estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra? A isso quereria chamar desorganização, e teria a segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior. A isso prefiro chamar desorganização pois não quero me confirmar no que vivi - na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro.

Se eu me confirmar e me considerar verdadeira, estarei perdida porque não saberei onde engastar meu novo modo de ser - se eu for adiante nas minhas visões fragmentárias, o mundo inteiro terá que se transformar para eu caber nele.

Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.
(c.l. - A paixão segundo G.H.)

/* Não porque faça minhas as suas palavras; antes pelo modo como diz as coisas, porque há um que de verdade nesse sentir-se desorganizado; pelas imagens que constroi... */
Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualemnte e penosamente - atravessando inclusive o oposto daquilo de que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro não tira nada de ninguém.

(c.l. - A possíveis leitores, in A paixão segundo G.H.)
Quando me dou conta de todo o barulho aqui dentro, acho bem vindo o silêncio do lado de fora...

(...)

E outro dia ouvi novamente sobre a importância do silêncio para que as palavras façam sentido.

E isso também faz sentido.

(...)

Então eu continuo aprendendo. Sobre silêncios e silêncios. Sobre o que preciso...

terça-feira, março 29, 2011

Do Livro das Perguntas

Si se termina el amarillo
con qué vamos a hacer el pan?
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Por qué se suicidan las hojas
cuando se sienten amarillas?
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Las lágrimas que no se lloran
esperan en pequeños lagos?

O serán ríos invisibles
que corren hacia la tristeza?
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Cómo se llama una flor
que vuela de pájaro en pájaro?
p.n.

(estes dois últimos versos também poderiam ser uma pergunta de Delirium)
Às vezes, ficar só parece melhor que não saber o que fazer...

segunda-feira, março 28, 2011

Não quero fingir ser o que não sou.

Aceito aprender, rever ideias, reavaliar ações.

Aceito perceber que às vezes sou imatura, infantil, insegura, insensata, até. Aceito que faço coisas de modo impensado, que piso na bola, que sou muito ansiosa vez ou outra.

E aceito e quero crescer, não ser tão boba para algumas coisas.

Mas não quero agir de um modo que não é meu apenas para agradar a alguém, para parecer mais legal ou inteligente ou interessante, ou...

Não quero olhar pra mim e pensar - "eu não sou assim"...
Saí para pedalar hoje.

Andei em direção à cidade. À noite.

Pedalei pensando nas coisas.
Pedalei até esquecer.

... E caí.

Na hora confusa,
Assustei-me.
Senti medo.

Depois, pensei que aprendi quando e como é possível dar passagem.

E aprendi que consigo levantar.

E segui pedalando.

Então quis casa e cuidado e descanso. Que de ferro não sou.

E me dei conta de que se isto tivesse me acontecido há alguns meses atrás, eu teria ficado em caquinhos. E foi bom perceber que estou mais forte...

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É bastante diferente pedalar pra dentro da cidade. A quantidade de coisas dá a sensação de estar pedalando muito mais, de cobrir distâncias maiores.

E é muito mais fácil pedalar à noite. Sol quente no juízo faz uma diferença danada.

domingo, março 27, 2011

A Análise Bioenergética baseia-se no conceito de que uma pessoa é um ser unitário e que o que acontece na mente também deve estar acontecendo no corpo. Por conseguinte, se uma pessoa está deprimida, com pensamentos de desespero, impotência e fracasso, seu corpo manifestará uma atitude deprimida correspondente, evidente na baixa formação de impulsos, na mobilidade reduzida e na respiração limitada. Todas as funções corporais estarão deprimidas, incluindo o metabolismo, resultando em menor produção de energia.
É óbvio que a mente pode influenciar o corpo tanto quanto o corpo afeta a mente. É possível, em certos casos, melhorar o funcionamento corporal da pessoa por meio de uma mudança em sua atitude mental, mas qualquer mudança provocada desse modo será temporária, a menos que os processos corporais fundamentais sejam significativamente modificados. Por outro lado, trabalhar diretamente na recuperação de funções corporais como a respiração, a movimentação, a percepção sensorial e a auto-expressão surte um efeito imediato e duradouro sobre a atitude mental da pessoa.
Lowen, Alexander. Alegria - A entrega ao corpo e à vida. (introdução)