E se não houvesse culpados? Você não saberia o que fazer. Você cresceu sabendo que o mundo era simples, preto no branco, sem nuances.
Tudo pode ser explicado a partir de seu ponto de vista das coisas, e este nunca está errado.
Se lhe contassem que não havia culpados, ainda assim você os encontraria, um a um.
Você buscaria a garota que atende telefonemas e a culparia pela vida dupla que leva.
Iria atrás das garotas de cabelos molhados, também: irremediavelmente culpadas. Por se machucarem deliberadamente, por chegarem sem serem convidadas, por não terem plena consciência do que fazem.
A garota muda seria culpada por se apaixonar por um cowboy tresloucado - como pôde? E o cowboy, por permitir que isso acontecesse, e ainda dar corda com aquele papo barato de "parceira de aventuras". Ele só queria mais plateia para seus ridículos "feitos heróicos".
A garota na cozinha, com o leite condensado, seria culpada por ser alheia demais, e comer muito doce. Era óbvio que tais coisas não contribuíam para uma boa convivência.
Não escapariam a pintora e sua recém ex-paixão. Àquela, recairia a culpa de ser fria, de fazer apenas o que lhe fazia bem - e de usar as pessoas nisso. A segunda seria culpada por ser ingênua e cair na lábia da primeira, e também por não deixá-la em paz.
O Escritor seria perseguido por ter tentado crer que poderia prescindir do Músico, quando este sumiu. Este último, por sua vez, teria dificuldades em desfazer a decepção por ele causada, por ter abandonado o outro perseguido - logo quando tudo iria ficar tão difícil. Ele deveria saber.
A Fada não poderia escapar nem no outro mundo. Não após roubar a inocência de tantas crianças. E por se deixar abater de forma tão idiota.
E o rapaz do caderninho também não poderia ser menos culpado. Não após ter passado tanto tempo sem fazer nada.
Você perseguiria o casal da música. Especialmente ele, por ter sido machista. A ambos, acusaria de não terem se dedicado mais à própria história.
A escritora não poderia estar livre, após ter abandonado seus personagens por tanto tempo.
A mulher que se mudara para São Paulo: fraca - não assumira as responsabilidades por seus atos. Seu amigo? A acobertara.
A menina do hospital e sua avó: culpadas por todas as suas mentiras e perseguições, sem falar dos devaneios.
A avó espanhola nunca seria perdoada. Não após fugir desesperada enquanto seus pais eram mortos.
E assim aconteceria com muitos outros. Com todos os outros. À noite, em suas celas, eles inventariam outras histórias, contadas às estrelas, às paredes, ao papel higiênico economizado.
E você, também sozinha, em seu quarto, choraria baixinho, assombrada por pesadelos vazios de histórias e cheios de verdades absolutas.
Porque todos somos culpados de tudo.
E não sobraria ningúem incólume à caçada.
E não sobraria ningúem incólume à caçada.
E, no escuro, cada lágrima, engolida ou escancarada, seria testemunha de um arrependimento que lhe tornaria culpada por não ser capaz de admiti-lo jamais.
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