Localizada em região de clima tropical
atlântico, Salvador era conhecida por ter duas estações: inferno e verão. Esta
última se estendia por todos os meses do ano em que não se estava no verão
oficial.
Como em qualquer cidade assim
caracterizada, sua estação das chuvas era o inverno. Mas quase não havia
chovido, aquele ano. Um dia, já na primavera, uma insuspeitada onda de frio
chocou-se contra a cidade. Nos primeiros dias, todos acharam que fosse uma
frente fria fora de época, coisa comum.
Quando se completou uma semana de chuva
sem tréguas, todas as ruas já mostravam o resultado de uma infraestrutura
planejada apenas para dias de sol. O primeiro mês encerrou-se com desabamentos,
lojas fechadas, hospitais abarrotados. Com 45 dias foi declarado estado de calamidade
pública. A chuva não cedia. As autoridades se preocupavam com o Carnaval...
Aos poucos, as pessoas começaram a
sacudir a umidade de seu ânimo, e foram criando adaptações, do jeito que dava.
Então,
ela parou. Não a chuva – a escritora. Não fazia sentido continuar aquela
história. O argumento era sem sal, o enredo sem textura e, na verdade, já fazia
um calor de fritar os miolos... Era impossível ter qualquer envolvimento,
portanto, com o tema.
Deixou
as linhas já escritas de lado e tratou de cuidar da vida. E assim seguiu, até
que se deu conta de que, ainda que o clima esquentasse, faziam já três semanas de chuvas. Bem verdade que
esporádicas e localizadas, mas, ainda assim, diárias. Ainda assim, chuvas:
molhadas, torrenciais, nos horários mais inconvenientes.
Talvez...
Seria possível que ela tivesse algo a ver com aquilo? Deveria voltar ao conto,
dar-lhe um fim? Decidiu que faria isso assim que chegasse o fim de semana.
Quando se viu em frente àquelas frases esquisitas e sem atrativos, percebeu que
seria incapaz de continuar: a história, ainda que tivesse brotado dela, não lhe
cativava. Não tinha qualquer laço afetivo, qualquer traço distante de compaixão
maternal.
Sequer
tentou emendar o que escrevera. Sem pensar duas vezes, sentou-se em frente ao
computador e começou a trabalhar diligentemente, compenetrada. Ao final,
respirou aliviada. Ainda se preocupou em ir até o banheiro, rasgar
cuidadosamente o conto. O fogo ateou-se rapidamente no papel encharcado de
álcool. Só deu o ritual por terminado quando restavam apenas cinzas. Então,
lavou as mãos e o rosto, abriu o basculante para arejar a fumaça, e não pensou
mais no assunto.
Nos
dias seguintes, se tivesse acompanhado o jornal, teria ficado sabendo que as
chuvas continuaram. Mas não o fizera: estava muito ocupada resolvendo as
questões da mudança.
Uma
semana depois de ter queimado o conto, sentou-se na poltrona do avião para São
Paulo e fechou os olhos. Estava cansada da confusão de realocar toda sua vida
para outra cidade, outro clima, outras pessoas. Não mais voltou a Salvador.
Isso
aconteceu há mais de um ano. Ainda ontem falei com ela. Disse-lhe que continua
chovendo todos os dias, mas que estamos nos acostumando. No começo, ela ainda
pedia desculpas, dizendo que sentia muito, mas era incapaz de resolver aquilo.
Ontem, abriu um sorriso sarcástico, acendeu um cigarro e disse que a chuva até
que nos tem feito bem... e que não tenho nenhuma prova contra ela.
Ela
tem razão.
(finalizado em Salvador,
29 de outubro de 2011)
Um comentário:
Na verdade, ainda há alterações a incorporar. Ainda não parei para fazer isso.
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