sexta-feira, maio 12, 2006

Dores...

Vivera relativamente feliz, por algum tempo. Possuía uma casa, ainda que compartilhada com muitos indivíduos, alimentava-se de boa comida, com relativa fartura. Não passava frio. Podia tomar um bom banho, todos os dias. Até dois, se o calor pedisse. Tinha, afinal, uma vida que, se não poderia ser chamada de completa, era ao menos digna.

Mas as coisas começaram a ficar difíceis. O dinheiro ainda era suficiente para manter a vida que levava, mas não sem alguma preocupação sobre possíveis eventualidades para lhe deixar sem o que contar até o final do mês. E inevitavelmente surgiam imprevistos. Alguém doente. Um aparelho indispensável quebrado. Um aniversário. E era necessário rezar, ou pedir emprestado. E o choro no escuro, ao final do dia, ou em um cantinho, ao longo dos dias, começava a se tornar inevitável, quase necessário. Um vício como o cigarro ou o álcool, mas sem mais gastos - graças a Deus.

E então as desarmonias - naturais entre convíveres - começaram a aumentar em sua casa. Eram todos cães e gatos, sem nenhum interesse em ouvir o que o outro poderia ter a dizer. E como sempre, quando nosso espaço encontra-se ameaçado, começaram a demarcar seus territórios. De um modo tão hostil, tão severo... O cheiro deles tornava-se pastoso, palpável; como o ar em dias quentes e úmidos. Pisar o chão, entrar em cada cômodo, já estava implorando? Já começara a pedir, a cada vez que andava pela casa, para não haver mais uma marca, mais uma preocupação? Talvez apenas à noite, quando o cansaço já dominava. Ou após muitas brigas, quando o que queria apenas era a quietude. A paz...

Todos amigos, irmãos, certo? Uns mais, outros menos, mas todos haviam decidido conviver e estarem juntos naquele espaço. E no entanto, apesar do carinho e da necessidade que tinha de todos ali, algo como um loucura foi crescendo em sua mente. No início, diriam ser um exagero - loucura, que é isso, apenas um pouco de estresse nascido pela convivência. Eram, afinal, apenas reações um tanto mais exacerbadas do que o devido, em uma ou outra ocasião. O reclamar por conta de um desagrado tornava-se um grito. Um "Páre, por favor." já saia um "Sai daqui!!"

Quando a agressividade surgiu em si, quando ainda se manifestava apenas raramente, uma ou duas vezes, ao longo das 24 longas horas de cada dia, assustou-se um pouco, estranhando o que fazia a seus próprios companheiros, a quem lhe aturava, enfim, diariamente. Contudo, em um crescendo, já passava a achar que era quem mais tinha de aturar, e a única pessoa capaz de dar um basta na situação, de oferecer algo de melhor a todos. Muitos dos que lá estavam, só estavam por sua conta. Por sua culpa, agora.

Amor e ódio. Como sustentar a todos? Como haver paz entre seres tão distintos? Como sobreviveremos a tudo isso? A solução já se delineava em sua mente, sibilava entre as tristezas e frustrações que se acumulavam. Apesar de ser repelida quando notada, aos poucos foi ganhando espaço. A cada vez que era necessário torcer para não encontrar uma desagradável surpresa em algum lugar. A cada vez que era necessário interromper uma briga, ou suportar outra.

Com o já conhecido choro, infiltrava-se o único meio possível de acabar com tudo. De amenizar os problemas e sofrimentos, pelo menos. Já não notava quando a idéia chegava. Não se assustava mais.

Um dia como outro qualquer. Um amor excepcional lhe preenchia, um afeto, um carinho. Seria porque no dia anterior ocorrera paz, depois de tanto tempo? Seria por conta do brilho nos olhos de todos, por ocasião da meiguice que experimentava ao aproximar-se, ao deter-se um pouco mais a olhar as travessuras de um, o sono solto de outro? Um dia feliz. Leve.

Cozinhou...

Chamou a todos. Aos que ali estavam porque ela os colhera da rua. Aos que tinham nascido naquele local. Aos mais novos e mais velhos. Os levados, os quietos. Os mal humorados. Serviram-se, cuidou que os menos sociáveis tivessem como comer, mesmo que separados. E a satisfação tomou conta, enquanto admirava o prazer com que saboareavam seus pratos. Uma satisfação leve. Quase uma alegria. Foi dormir.

Acordou com o fato já consumado. Sabia que aconteceria, mas não poderia ter ficado para observar tudo. Suas últimas forças naquele momento, juntara-as para este agora. E foi com um alívio pesaroso que foi encontrando os corpos. Dormindo. Enroscados, espichados. Nas camas preferidas. Nas posições prediletas. Todos.

Preparou-se para a despedida com uma pá e algumas sementes. Nos fundos, cavou o buraco. Precisou fazer esforço, mas não se perdoaria se não fosse capaz de todas as gentilezas necessárias, agora. Grande e fundo o suficiente. Não haveria perturbações. Forrou com uma colcha leve. E os trouxe, um por um. Acomodou-os de modo que continuassem confortáveis, mesmo uns por cima dos outros. Ao terminar, pôs as abas da colcha por cima, carinhosamente. Um pouco de terra, e sementes de flores belas. Não olhara o que escolhera, mas acreditava que fossem margaridas. Brancas e amarelas. Cobriu também estas com o que restava de terra, e descansou.

Entrou em casa, ouvindo o silêncio dos cantos. Não deixou a faxina que já se fazia necessária para outro dia. Lavou piso, paredes, o pé dos móveis. Tirou todo o pó e os pêlos que pôde. Deixou tudo com um agradável perfume de lugar limpo. Era impressão, ou tudo ficara mais claro? Não era só alvura, estava mais luminoso também.

Lembrou-se de si, do final do dia, preparou-se para um banho. Deixou que a água escorresse longamente por seus cabelos, suas costas, sua cabeça. De olhos fechados, lavou a alma.

Já era noite quando tudo estava terminado.

Foi para seu quarto, apreciou o escuro, enrolou-se quase infantilmente. Havia paz. E então, só então, chorou. Longamente... pela última vez.

Nenhum comentário: